Por Nilza Botelho Megale Em Títulos de Nossa Senhora

Nossa Senhora da Estrela


Existem cidades que surgem, passam por um período de grande desenvolvimento e depois desaparecem, deixando apenas algumas ruínas para recordar o seu passado esplendor.

Isso aconteceu com o porto e Estrela, situado junto ao rio Inhomirim, no fundo da baía de Guanabara. Foi durante um século e meio a passagem obrigatória para os viajantes que seguiam do Rio de Janeiro para Minas e Goiás, assim como para aqueles que se dirigiam destas províncias para a capital do Vice-Reinado e, depois, do Império.

Alguns atribuem ao local uma denominação poética, dizendo que se originou do fato do planeta Vênus aparecer atrás da serra, grande e muito luminoso, parecendo a Estrela de Belém. Outros afirmam, no entanto, que o nome deriva da capela de Nossa Senhora da Estrela construída em princípios do século XVIII no alto do outeiro que domina a antiga povoação. Esta designação estendeu-se então à vila fundada ao seu redor, ao rio e à serra.

Era, pois, aquele porto um dos lugares mais movimentados da província. As tropas de Antônio de Albuquerque que desceram em defesa da cidade de São Sebastião atacada por Duguay-Trouin em 1711; os viajantes estrangeiros que visitaram Minas Gerais; os cargueiros com os “quintos reais” e o ouro das minas: todos os produtos das províncias do interior por ali passaram. O próprio Tiradentes várias vezes caminhou pelas ruas agitadas de Estrela, que viram passar também seus restos mortais em direção às cidades mineiras, para serem dependurados em postes, como uma ameaça a todos aqueles que sonhavam com a libertação da pátria.

Dom Pedro I certamente saudou a igrejinha em sua viagem triunfal a Minas em 1822 e ainda na última tentativa de manter o seu prestígio, em 1831, quando voltou pelo Caminho Novo, triste e sucumbido. Em diversas ocasiões o nosso primeiro imperador subiu a serra em busca de saúde da princesa D. Paula no saudável clima da fazenda do Padre Correia. A princípio foi acompanhado de D. Leopoldina e depois por D. Amélia. Os monarcas embarcavam na Galeota Imperial que os levava até o porto da Estrela, onde começavam a escalada da montanha por uma estrada pavimentada do início do século. O francês Augusto de Saint-Hilaire e o alemão João Maurício Rugendas, que estiveram no Brasil no século XIX, afirmavam que a vila da Estrela era o lugar do país onde encontraram mais vida e maior animação. Rugendas assim descreveu o caminho: - “passa diante de belas plantações, atrás das quais se percebem ao longe as pontas agudas da serra dos Órgãos erguendo-se por cima da serra da Estrela, cujas escarpas constituem o espantalho dos tropeiros e o tormento das mulas”.

Em 1831 foi transferida da lagoa Rodrigo de Freitas para a fazenda da Cordoaria, a poucos quilômetros do importante porto fluminense, a Fábrica de Pólvora, que após ter sofrido várias reformas foi de grande utilidade a Guerra do Paraguai. Ela ajudou o desenvolvimento da região, impedindo a decadência total do município, que começou a declinar depois da inauguração da Estrada de Ferro Mauá, em 1852, via mais moderna de comunicação entre o Rio de Janeiro e Petrópolis, abreviando as viagens para o interior do país.

Os milhares de viajantes que transitaram pelo local passaram perto da capelinha de Nossa Senhora da Estrela, que do alto do morro abençoava a região. Ela fora ali erguida por Simão Botelho que também doara terras para, com seu rendimento, prover à manutenção do culto da Santa.

O título da Senhora da Estrela nos veio de Portugal e está ligado a uma lenda secular. Conta que D. Rodrigo, o último rei visigodo da Espanha, após ter sido derrotado em 711 pelos sarracenos, mandou esconder uma estátua de Maria a fim de evitar a sua profanação pelos mouros que dominaram a Península Ibérica.

Quando alguns séculos mais tarde a vila de Marvão se libertou do poder muçulmano, certa noite, nas proximidades da povoação, um pastorzinho teve a visão da Virgem Santíssima entre coros de resplandecentes luzes. Não compreendendo o prodígio achou que seria alguma estrela enorme. Caminhando em direção a estranha claridade alcançou o penhasco e descobriu entre as brenhas uma imagem de Maria, cercada de resplendores.

Não ousou pegá-la e foi chamar os moradores da vila. Todos se ajoelharam dando graças e levaram a Santa em procissão e a colocaram na igreja da paróquia. No dia seguinte a escultura desapareceu do templo e foi encontrada novamente na lapa. Assim aconteceu por duas ou três vezes. Vendo neste fato a vontade da Mãe de Deus, construíram no local um santuário que atraiu a devoção dos moradores do lugar e das cidades vizinhas.

Frei Agostinho de Santa Maria dizia que antigamente havia uma ermida dedicada à Virgem da Estrela na praia do Restelo. Aliás, segundo ele, a palavra Restelo é uma corruptela de Estrela. Referia-se ainda a uma imagem de Nossa Senhora das Estrelas existente no convento dos Jerônimos, que foi presenteada ao rei D. Manuel I pelo papa Júlio II, a qual apresentava sobre a cabeça de Maria uma coroa de prata dourada, cercada de estrelas.

A invocação da Senhora da Estrela, transportada para o Brasil e localizada no porto fluminense, não desapareceu com as ruínas da velha capela, pois a antiga imagem encontra-se atualmente na matriz de Inhomirim, onde recebe o culto de muitos devotos. No Estado de São Paulo existe ainda, na cidade de Itapetininga, uma paróquia dedicada à Nossa Senhora das Estrelas.

A vila da Estrela, da qual restam apenas recordações, pode ser comparada a uma estrela cadente, que passa rapidamente, ilumina com seu brilho o local onde aparece, deixando atrás de si trevas e desolação.

Iconografia

A Virgem Maria está de pé, com o Menino Jesus sentado em seu braço esquerdo e segura com a mão direita um bastão com uma estrela na ponta. Maria veste uma túnica e um longo véu que lhe cobre a cabeça e cai até os pés. O menino está nu e nenhum dos dois usa coroa. Na imagem portuguesa de Marvão ela segura somente a estrela sem bastão.

Fonte: Invocações da Virgem Maria no Brasil

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