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Banalização da morte: fim da civilização!

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“Quando Maria chegou ao lugar onde Jesus estava e o viu, ela se prostrou aos seus pés e lhe disse: ‘Senhor, se estivesse aqui, meu irmão não teria morrido’. E Jesus começou a chorar”. (Jo 11, 32. 35).

Ah, morte! Ela geralmente arranca uma parte de nosso ser. O próprio Deus Encarnado não se contém diante do sofrimento alheio. Ao ver Marta e Maria chorando pela morte do irmão, Lázaro, Jesus também se comove. Isso se chama compaixão, palavra que vem do latim (compassione) e significa “sofrer junto”. Jesus sofre com aqueles familiares que sangram com a dor da perda, da saudade.

Foto de: Steve Wong

Capela dos Ossos - Évora (Portugal) Crédito: Steve Wong)

Capela dos Ossos, na cidade portuguesa de Évora.

Por outro lado, é o único momento de nossa caminhada aqui na terra em que todos são igualados. Na capela dos ossos, na cidade portuguesa de Évora, lê-se uma frase que sintetiza essa verdade: “Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos!”. As paredes da capela são totalmente recobertas de ossos, e todos são parecidos. Aqueles que na vida foram ricos, nobres e prestigiados, hoje são ossos indistinguíveis nas paredes da capela. A única verdade da qual ninguém pode escapar, ainda que muitos vivam como se fossem eternos, com atitudes de seres imortais!

Mesmo sabendo de nosso fim certeiro, não conseguimos nos conformar com a partida de alguém que amamos. É compreensível que todos morram, mas, mesmo assim, a morte de nossa família, de nossos parentes e de nossos amigos é terrivelmente dolorosa. O que precisamos vencer na sociedade de hoje é a indiferença diante da morte.

A banalização da morte é a decadência de qualquer civilização. É doloroso saber que muitos não se importam com o extermínio de centenas de jovens numa universidade no Quênia; ou que sejam assassinadas centenas de pessoas inocentes no Iraque e na Síria; ou que uma adolescente seja espancada e queimada viva em frente a uma multidão ávida por sangue na Guatemala; ou que milhares de pessoas morram no Nepal, na Índia, na China ou em qualquer lugar distante que nem nos interessa. Banalizamos a vida dos desconhecidos, contanto que o nosso círculo de conhecidos viva para sempre!

Novamente repetindo, é natural que soframos pelos nossos entes queridos que se vão deste mundo, mas é incompreensível que se trivialize a morte dos semelhantes que estão distantes. Deveríamos aprender com a metodologia da filósofa alemã Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz) de pensar a partir do lugar do outro. Colocar-se no lugar daquela mãe que perde um filho assassinado; daqueles familiares que sofrem ao ver os seus entes queridos sendo brutalmente massacrados; das pessoas que perdem tragicamente os seus amados; ou mesmo dos que passam pelo luto da despedida natural.

O que também se pode notar neste mundo de Redes Sociais é a superficialidade com que se trata a morte. Na pressa de cumprirmos um preceito de consolar os enlutados, repetimos jargões desinteressantes, somente para marcar presença. Damos sermões nos que choram. Dizemos aos sofredores para confiar em Deus, que tudo vai passar; para que sejam fortes, pois todos irão para o mesmo lugar, etc. No entanto, quando a morte surpreende os cantos de nossa casa, ficamos inconsolados, e já não nos lembramos do que dissemos aos outros.

 

Respeitemos os que choram a perda de um entre querido, pois cada um tem o seu tempo certo de luto!

O filósofo grego Epicteto (55-135 d.C.) ensina-nos uma bela lição ao dizer: “... Quando o filho ou a mulher do próximo morre, não há homem que não diga tratar-se de uma lei da humanidade. Mas quando quem morre é o filho ou a mulher dele, só se ouvem gemidos, gritos e lágrimas. É preciso que nos lembremos do estado em que permanecemos ao saber das desventuras do próximo”. Por isso mesmo, se aprendermos a sofrer com aqueles que sofrem, teremos mais forças para tranquilizar o nosso coração quando chegar a hora de enfrentarmos a morte no ringue da vida.

Em resumo, respeitemos os que choram a perda de um ente querido, pois cada um tem o seu tempo certo de luto! Aprendamos a ter compaixão, a sofrer junto com aqueles que sofrem, independentemente de quão distantes estejam de nós! E saibamos oferecer o ombro, com propriedade, para que os enlutados possam verdadeiramente aliviar as suas dores, pois assim combateremos a futilidade e o desinteresse com que tratamos a morte no mundo digital pós-moderno!

 

Padre Queimado articulista colunista

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