Pe. Ferdinando Mancílio, C.Ss.R.
Já ouvi alguém dizer que a confiança é prima da esperança, ou vice-versa. Mas, parece-me que vivemos em tempos de desconfiança, pois se alguém nos intercepta, por exemplo, na rua, já pensamos qual é o interesse daquela pessoa, ou se não vamos sofrer uma ameaça, um golpe ou um assalto. Vivemos em condomínios fechados porque desconfiamos que alguém tenha interesse no que possuímos. Os muros altos mostram o quanto desconfiamos dos outros e como nossa convivência faz seleção de pessoas. Não queremos ser perturbados, nem mesmo pela própria família.
Vivemos num mundo diversificado, mas que também exclui, separa, divide. Fala-se em globalização, em ausência de fronteiras entre povos e nações, mas regredimos em nossas relações humanas. O progresso técnico-científico avança dia a dia, e nós nos tornamos cada vez mais individualistas. Você mesmo pode constatar isso em sua convivência social. Ouvimos sempre alguém dizer: “ninguém ajuda ninguém neste mundo”. Certo é que há perturbações em nossa convivência humana, social, comunitária.
É preciso, pois, compreender o sentido de nossa existência. Saímos das mãos do Criador, das mãos de Deus. Por isso, o próprio Deus nos dá a possibilidade de sairmos de nós mesmos e de nos relacionarmos com o outro, com o mistério do outro. O Criador colocou em nós uma dinâmica existencial gerada pelo amor, que nos faz ir ao encontro do outro. Negar essa dinâmica é admitir na vida a autossuficiência, é rejeitar o relacionamento com o outro e com o próprio Criador. A verdade da fé nos faz encontrar a verdade do amor, do genuíno amor que nos dinamiza, nos liberta, nos dá o sentido verdadeiro da vida. Por isso é muito compreensível o que nos diz Santo Agostinho:
“Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei. Sim, porque tu estavas dentro de mim e eu fora”.
Nesse sentido fiquei pensando no cego Bartimeu (Mc 10,46-52). Jesus o curou, e ele começou a enxergar a grandeza e a beleza divinas. Foi atrás de Jesus. Reviveu sua esperança e sua confiança. Será que não estamos ficando “cegos” e “míopes”? Lastimamos nossas dificuldades, mas não nos firmamos na esperança e na confiança. Damos mais lugar para a desconfiança e o fechamento, em vez de abrir nossa existência na força do amor. Se Deus desconfiasse de nós não nos teria criado. Ele preferiu correr esse risco: criou-nos e deu-nos liberdade, e isso significa a confiança divinaem nós. Certamente, em grande parte, a confiança que temos em nós mesmos mostra a confiança que temos nos outros.
Deus não nos impõe condições em seu amor. Ele nos ama, e pronto! Assim, sustentados neste amor e animados na esperança, só podemos encontrar a força necessária para superar dificuldades. Não há nada capaz de resistir à força do amor e da esperança.











