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Quaresma: tempo de Deus, tempo do homem

A História da Salvação registra os muitos momentos de Deus na história da humanidade, agindo sempre com fidelidade, provocando os homens a entrarem em sua lógica de amor. O ápice dessa “aventura” divina se dá em Jesus Cristo: encarnado, morto e ressuscitado para nossa salvação. Definitivamente Deus entra em nossa história e confirma a parceria já estabelecida no Antigo Testamento: “Eu sou o seu Deus e vocês são o meu Povo” (Êx 6,7).

Acontecimentos tão importantes não podem ser esquecidos e, mais do que relembrados, devem ser atualizados como experiência pessoal e comunitária. Por isso a importância de celebrar a fé que professamos, pois celebrar é viver. Para nós, cristãos católicos, é fundamental celebrar o ápice da nossa fé: a ressurreição de Jesus Cristo.

A Quaresma é oportunidade especial de celebração, tempo em que nos preparamos para a Páscoa. Tem seu início na Quarta-feira de Cinzas e seu término no começo da Eucaristia vespertina da Ceia do Senhor, na Quinta-feira Santa. O período celebrativo quaresmal é de quarenta dias (do latim quadragesima = quaresma) quando somos convidados à penitência e à meditação, por meio da prática do jejum (penitência), da esmola (caridade) e da oração (intimidade com Deus).

Talvez haja um entendimento popular errôneo sobre a quaresma pois, quase sempre, tem sido encarada mais sob o aspecto negativo, quando sua nota fundamental é a de ser um tempo de alegre preparação para a Páscoa, como o é o Advento para o Natal. Além das obras de mortificação e de renúncia, o que se exige nesse período é sempre uma abertura maior para a Palavra de Deus. Também intensa dedicação na participação do culto divino (celebração) e no exercício de uma caridade verdadeira e ativa, que exige conversão, isto é, mudança da forma de pensar e de agir, da mente e do coração.

Na Igreja primitiva, nos primeiros séculos da era cristã, a quaresma era essencialmente marcada por duas preocupações: a reconciliação dos penitentes e a preparação dos candidatos ao batismo. Em ambos os casos, tratava-se do apelo à mudança de perspectiva de vida: “Convertei-vos e crede no evangelho” (Mc 1,15). O esforço especial pedido aos cristãos em matéria de liturgia e de ascese, eles o realizavam solidariamente, celebrando e agindo concretamente, numa atmosfera de comunhão e de mútua ajuda que redundava em bem para toda a comunidade. Esse espírito quaresmal foi recuperado na renovação litúrgica (Vaticano II) promovida pela Igreja e o vemos presente nas orações desse tempo, por exemplo: “Ano após ano, concedeis a vossos filhos e filhas esperar com alegria a festa da Páscoa, preparando-se pela penitência e dedicando-se mais à oração e ao amor fraterno, para que alcancem a plenitude da filiação divina pela renovação dos sacramentos pascais, nos quais renasceram” (Prefácio da Quaresma I).

Portanto, nesta Quaresma, somos convidados a nos preparar para a Páscoa de Jesus, para que, realmente, o que celebramos seja atualização de nossa Páscoa em Cristo, sobretudo através da catequese em preparação ao batismo (catecumenato) ou da renovação das promessas batismais pelos já iniciados. Também por meio da penitência, interna e externa, individual e social. Ao longo deste tempo de Deus vivamos nosso tempo, façamos nossa hora, sobretudo nas celebrações dominicais, para recuperarmos o ritmo e o estilo de verdadeiros fiéis que pretendem viver seu batismo, como filhos e filhas de Deus.
Coloquemo-nos a caminho!

Padre Darci Nicioli, reitor do Santuário Nacional