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Igreja na América Latina: o liberalismo do século XIX

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Páginas de História da Igreja na América Latina
Parte 31

A Igreja latino-americana e o liberalismo do século XIX

Até agora em nosso estudo sobre a História da Igreja na América Latina, já vencemos a primeira parte do período que nos livros de história é chamado de América Colonial, mas que nós chamamos de Cristandade Colonial por causa do modelo de Igreja que aqui foi estabelecido, marcado pela Lei do Padroado e pela união entre a Igreja e o Estado. Por esta razão, na primeira fase de nossa história muitas vezes a evangelização e a colonização andavam juntas.

A partir de agora, em mais alguns artigos vamos focar o estudo da segunda fase ou segundo período desta história gloriosa que é chamada de a formação dos Estados Americanos, período que começa com a fase da independência e luta pela constituição das nações autônomas que hoje existem em nosso continente. Este período nos ajudará na compreensão da influência do liberalismo em toda a América e, justamente este sistema ideológico é que fará com que a separação da Igreja em relação ao Estado atinja situações mais ou menos críticas, dependendo de cada país ou região.

Marco Político e Social

O continente latino-americano foi sempre marcado profundamente pelo catolicismo desde sua origem. Lá atrás, no período da colonização, o protestantismo avançava na Europa, menos em Portugal e Espanha, justamente os países que nos colonizaram. Aqui o protestantismo também não avançou. Em 1940, apenas 0,4% da sua população não professava a fé católica.

O período que agora estudamos tem início a partir de 1820, com a independência dos povos da América Latina, indo até 1940. Lembrando que o Brasil foi um dos últimos países da América Latina a conseguir a sua independência.

O período da formação dos novos estados americanos pode ser dividido em duas etapas:

- 1º Etapa - Século XIX ou Século liberal
- 2º Etapa - Século XX (1895-1940)

Um dos marcos decisivos da caminhada da Igreja latino-americana nesta fase foi o Concílio Plenário Latino-Americano reunido em Roma, no ano de 1899, quando na Itália avançava o processo de unificação e a Igreja já estava perdendo os seus territórios.

Neste período histórico também são realçadas as dificuldades de se fazer uma síntese por causa da diversidade étnica e cultural.

Foto de: reprodução.

Concílio Plenário

 No pontificado de Leão XIII realizou-se em Roma o Concílio Plenário Latino-Americano. 

 

Principais forças do século XIX:

Ao longo do século XIX teremos a ação e a influência de duas forças ideológicas que são confluentes em alguns elementos. Trata-se de um lado do liberalismo que terá sua ramificação na política e na economia e, do outro lado, o positivismo com seus ideais de ordem e progresso que levará à supremacia da técnica.

Em seu contexto interno a Igreja continuará convivendo com uma impressionante diversidade no panorama e na evolução interna das Igrejas. Tanto assim que hoje a América Latina ainda é um continente bastante fragmentado. O sonho de Simón Bolívar de uma América Latina unida, formando uma espécie de federação de povos indo-hispânicos não se concretizou, justamente por causa das diversidades regionais.

A área geográfica de nosso continente é de 23 milhões de km², sem contar as Antilhas. Desta área imensa, 1/3 fica com o nosso Brasil.

Dificuldades de comunicação

Devido às razões geográficas e interesses externos nosso continente continuava sofrendo com a grande dificuldade de comunicação e transporte. Tanto assim que, em 1914, a América Latina possuía 85mil Km de ferrovias e os Estados Unidos já tinham 420 mil km.

Outra dificuldade enfrentada foi a formação artificial das nacionalidades, com fronteiras mal definidas, que separavam povos iguais. Isso vai gerar diversas guerras por fronteiras e conflitos pela disputa de várias regiões como foi o caso da Guerra do Acre e a Guerra do Chaco. Paralelo a isso ainda hoje sofremos com a falta de consciência de nacionalidade. Nesse contexto, a Igreja católica também sofria, e muito, com esta fragmentação.

Foto de: reprodução. 

Simon Bolívar

O sonho de Simón Bolívar de uma
América unida nunca se realizou. 

Crescimento demográfico e diversificação

Em 1825, 16 milhões de pessoas habitavam a área hispânica da América, com cerca de 4 milhões de pessoas no Brasil. Já em 1940, eram 85 milhões nos outros países e mais 85 milhões no Brasil.

A diversidade étnica e racial da população havia mudado bastante, estando agora assim distribuída: 36% de índios, 19% de brancos, 27% de mestiços e 18% de negros.

A partir de 1870 a imigração branca modificaria bastante este quadro. Entre 1870 e 1914, aproximadamente 10 milhões de imigrantes entraram em nosso continente. Este crescimento demográfico teve um grande reflexo na pastoral, com a urgente necessidade de aumentar o número do clero e multiplicação do número de circunscrições eclesiásticas.

O século XIX pode ser considerado como o século da instabilidade política. Exemplo disso é que entre 1821 e 1855 houve 44 governos no México. E entre 1825 e 1879 houve 170 revoluções na Bolívia.

As maiores cidades tinham entre 100 e 150 mil habitantes na época da emancipação, com destaque para a Cidade do México e Rio de Janeiro que por enquanto era maior do que São Paulo. As mesmas cidades teriam cerca de 500 mil habitantes no final do Século XIX. Mas 75% da população ainda habitava a zona rural.

Apesar das constituições liberais que foram promulgadas em vários países, no geral, as estruturas eram bastante conservadoras, com a predominância do caudilhismo em várias regiões da área hispânica da América e do famigerado "Coronelismo" no Brasil.

Nossa economia, porém, ainda era extrativista, agrícola e baseada no latifúndio. No campo político por muito tempo ainda predominariam os ideais das oligarquias.

Foto de: reprodução.

Rio de Janeiro

A cidade do Rio de Janeiro foi a primeira capital da Monarquia e depois a primeira capital da República.

 

No campo social, o século XIX veria nascer a nova classe média e aos poucos começaria a se formar o proletariado. Ao lado disso, novos grupos de poder aos poucos iriam se consolidando como o militares, comerciantes e classes liberais.

Em síntese, podemos dizer que seriam estas as características principais da sociedade latino-americana no raiar do novo tempo:

- Havia uma classe média e o proletariado estava em estado embrionário;
- A economia industrial era incipiente, predominando os que trabalhavam no setor têxtil e na economia extrativa;
- Cresciam as cidades e surgiam os sindicatos;
- Crescia a influência das universidades e dos intelectuais;
- Em relação às classes inferiores, sua sorte não mudou significativamente com a Independência;
- O analfabetismo era muito grande e só 4% da população frequentava a escola em fins do Século XIX;
- A concentração de terras e de riquezas continuava com a aristocracia.
- A abolição da escravatura começou em 1810 e só terminou em 1888 e a situação dos indígenas ainda continuaria muito precária.

Colunista padre Inácio


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