Por Eduardo Góis Em Notícias

Museu faz resgate da obra de Mazzaropi

Ele foi o primeiro humorista da TV brasileira e o primeiro brasileiro a fazer sucesso no cinema, mesmo em uma época de difícil acesso a tecnologias. O jeca mais querido do Brasil, Mazzaropi, deixou-nos há 36 anos, porém confortados pelo legado e pela obra imortalizada, que em 30 anos de produções cinematográficas, levaram mais de 200 milhões de brasileiros aos cinemas, numa época que no Brasil as salas de cinema estavam restritas às grandes cidades.

Foto de: Reprodução

Mazzaropi_2 - Foto Arquivo

Neste 19 de junho, dia do cinema brasileiro, recordade-se uma história peculiar e vitoriosa, de um brasileiro visionário que soube aproveitar oportunidades, não teve medo de arriscar e que pode ser facilmente relembrada em uma propriedade privada na cidade de Taubaté (SP).

Na Zona Rural da cidade e uns 20 minutos da Rodovia Presidente Dutra, foi inaugurado no ano 2010, o Museu Mazzaropi. O local não resgata somente lembranças pelo fato de ser um museu, com mais de 20 mil peças, mas sim, por ser exatamente o lugar onde Mazzaropi filmou grandes sucessos de bilheterias. É simplesmente ter a sensação de que pisa-se o mesmo chão em que pisou o mestre e pioneiro do cinema nacional.

No museu pode-se encontrar equipamentos que eram utilizados nas filmagens, tanto para produção, quanto para exibição dos filmes, como os projetores, uma moviola (equipamento utilizado para realizar edições das imagens), os rolos dos filmes, o microfone, a filmadora etc. Eram equipamentos importados e inéditos no cinema nacional. Alguns pertenciam à Vera Cruz, que foi a produtora onde ele começou no cinema. São painéis que contam toda a sua trajetória artística e de vida, desde o nascimento, em 9 de abril de 1912, até a morte, em 13 de junho de 1981.

As paredes do museu mostram que o seu auge como artista começa aos 40 anos, quando inicia a carreira no rádio, seguindo pela televisão e terminando no cinema, na Vera Cruz e na PAM Filmes. Em 1946, convidado por Dermival Costa Lima da Rádio Tupi, Mazzaropi estreou o programa dominical Rancho Alegre, encenado ao vivo no auditório da emissora no bairro do Sumaré e dirigido por Cassiano Gabus Mendes. Em 1950, este mesmo programa estreou na TV Tupi, mas agora contava com a coadjuvação dos atores João Restiffe e Geny Prado.

De acordo com a gerente de comunicação do Museu Mazzaropi, Pâmela Botelho, este foi o primeiro programa humorístico da televisão brasileira. “Quando inaugurou a TV Tupi no Brasil, ele foi o primeiro humorista da TV, levando o mesmo programa que ele tinha na rádio, e só aos 40 anos ele vai começar no cinema, na Vera Cruz, que era a Hollywood brasileira da época. Ele faz três filmes por lá, Sai da Frente, Nadando em Dinheiro e Candinho”, conta.

Foto de: Reprodução

Mazzaropi_3 - Foto Arquivo

No museu é possível recordar que, depois da Vera Cruz, o humorista trabalhou para outras companhias, mas em 1958 criou a própria produtora, Produções Amácio Mazzaropi, mais conhecida como PAM Filmes, responsável por produzir 24 filmes, quase um filme por ano, e sempre com o lucro do filme anterior, criando assim a indústria do cinema. “Antes daqui, ele teve um outro estúdio que era chamado Fazenda da Santa, mais ou menos oito quilômetros daqui. Depois de lá, ele veio para cá e comprou o terreno, aqui não tinha praticamente nada. Ele construiu com um formato que ele já podia usar como cenário, construiu estúdio e acomodações para as pessoas enquanto filmava. E quando ele não filmava, abriu o local como um hotel, porque já tinha toda a estrutura, já tinha restaurante, piscina etc. O local serviu de cenário para os últimos filmes da carreira.” 

Todo o acervo do museu vem sendo acumulado desde 1992. O Instituto Mazzaropi, com o intuito de recolher, colecionar e fazer um museu, começou a receber pessoas que traziam objetos. São móveis que Mazzaropi comprava para fazer as filmagens ou eram móveis da casa dele que ele poderia utilizar também para as filmagens, objetos similares, figurino etc. “A intenção é manter a história, que também pode ser considerada um turismo cultural. É uma história muito rica para ser perdida, que precisa de um resgate para as novas gerações”, explica.

Segundo Pâmela, rever a importância de Mazzaropi é resgatar o cinema brasileiro, porém para os mais velhos Mazzaropi continua vivo intensamente na memória. “O museu está aberto de terça a domingo, das 8h30 às 12h30, a visitas em grupos, famílias, curiosos, estudiosos. Quem quiser e tiver o interesse pode vir. O valor é de R$10,00 e R$5,00 para estudante e terceira idade”, indica.

Uma trajetória de arte

Desde muito cedo, o pequeno Amácio passou longas temporadas no município de Tremembé (SP), na casa do avô materno, o português João José Ferreira, exímio tocador de viola e dançarino. Seu avô também era animador das festas do bairro onde morava, às quais levava seus netos que, já desde cedo, entraram em contato com a vida cultural do caipira, que tanto inspirou Mazzaropi. Filho de Bernardo Mazzaropi, um imigrante italiano e Clara Ferreira, portuguesa, com apenas dois anos de idade sua família mudou-se para Taubaté (SP).

Em 1919, sua família volta à capital paulista e Mazzaropi ingressa no curso primário do Colégio Amadeu Amaral, no bairro do Belém. Bom aluno, era reconhecido por sua facilidade em decorar poesias e declamá-las, tornando-se o centro das atenções nas festas escolares. Em 1922 morre o avô paterno e a família muda-se novamente para Taubaté, onde abrem um pequeno bar. Mazzaropi continua a interpretar tipos nas atividades escolares e começa a frequentar o mundo circense. Preocupados com o envolvimento do filho com o circo, os pais mandam Amácio aos cuidados do tio Domenico Mazzaropi em Curitiba (PR), onde trabalhou na loja de tecidos da família.

Foto de: Carolina Alves / JS

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Em 1926, aos 14 anos, regressa à capital paulista ainda com o sonho de participar em espetáculos de circo e, finalmente, entra na caravana do Circo La Paz. Nos intervalos do número do faquir, Mazzaropi conta anedotas e causos, ganhando uma pequena gratificação. Sem poder se manter sozinho, em 1929 Mazzaropi volta a Taubaté com os pais, onde começa a trabalhar como tecelão, mas não consegue se manter longe dos palcos e atua numa escola do bairro.

O teatro, o rádio e a televisão

Com a Revolução Constitucionalista de 1932 segue-se uma grande agitação cultural e Mazzaropi estreia em sua primeira peça de teatro, chamada A herança do Padre João. Já em 1935, consegue convencer seus pais a seguir turnê com sua companhia e a atuarem como atores. Até 1945, a Troupe Mazzaropi percorre muitos municípios do interior de São Paulo. Com a morte da avó materna, dona Maria Pita Ferreira, Mazzaropi recebe uma herança suficiente para comprar um telhado de zinco para seu pavilhão, podendo assim estrear na capital, com atuações elogiadas por jornais paulistanos. Depois, parte com a companhia em turnê pelo Vale do Paraíba. A grave situação de saúde de seu pai complica a situação financeira da companhia de teatro e, em 8 de novembro de 1944, morre Bernardo Mazzaroppi. Dias após a morte de seu pai, estreia no Teatro Oberdan ao lado de Nino Nello, sendo ator e diretor da peça Filho de sapateiro.

Fenômeno de bilheteria

Convidado por Abílio Pereira de Almeida e Franco Zampari, Mazzaropi estreia seu primeiro filme, intitulado Sai da Frente, em 1952, rodado pela Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Com as dificuldades financeiras da Vera Cruz, Mazzaropi faz, até 1958, mais cinco filmes por outras produtoras. Naquele mesmo ano, vende sua casa e cria a PAM Filmes (Produções Amácio Mazzaropi) e passa não só a produzir, mas distribuir os filmes em todo o Brasil. O primeiro filme da nova produtora foi o Chofer de Praça.

Em 1959 é convidado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, mais conhecido como Boni, na época da TV Excelsior de São Paulo, a fazer um programa de variedades que fica no ar até 1962. Neste mesmo ano começa a produzir um de seus filmes mais famosos, Jeca Tatu.

Em 1961, Mazzaropi adquire uma fazenda onde inicia a construção de seu primeiro estúdio de gravação, que produziria seu primeiro filme em cores, Tristeza do Jeca, que foi também o primeiro filme veiculado na televisão pela Excelsior, ganhando os prêmios de melhor ator coadjuvante, Genésio Arruda, e melhor canção.

Foto de: Carolina Alves / JS

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Cinco anos mais tarde, lança o filme O Corintiano, recorde de bilheteria do cinema nacional. Em 1972 é recebido pelo então presidente da República, o general Emílio Garrastazu Médici, a quem pede mais apoio ao cinema brasileiro. Em 1973, produz Portugal, minha saudade, com cenas gravadas no Brasil e em Portugal. 

No ano seguinte, começa a construir em Taubaté um grande estúdio cinematográfico, uma oficina de cenografia e um hotel para os atores e técnicos. A partir de então produz e distribui mais cinco filmes até 1979. Neste local que hoje ficam o Hotel Fazenda e as instalações do Museu Mazzaropi. 

Seu 33º filme, Maria Tomba Homem, nunca seria terminado. Depois de 26 dias internado, Mazzaropi morre, vítima de um câncer na medula óssea aos 69 anos de idade no hospital Albert Einstein, em São Paulo. É enterrado na cidade de Pindamonhangaba (SP), no mesmo cemitério onde seu pai já repousava. Nunca se casou, mas, segundo declarações de pessoas próximas, nutriu durante a vida um amor "platônico" pela apresentadora e amiga Hebe Camargo. 

O Museu Mazzaropi começou a tomar forma em 1992 por João Roman Júnior (já falecido) como uma forma de homenagear o velho amigo e cineasta brasileiro. Já a inauguração das atuais dependências do Novo Museu Mazzaropi ocorreu em 2010 e marcou de forma definitiva o alicerce da preservação histórica. Os filhos de João Roman Júnior dão continuidade ao trabalho de resgate e divulgação da obra de Mazzaropi acreditando na importância da preservação da memória deste personagem do cinema brasileiro.

Filmografia

Foto de: Eduardo Gois / JS

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1952 – Sai da frente
1952 – Nadando em dinheiro
1954 – Candinho
1955 – A carrocinha
1956 – Fuzileiro do Amor
1956 – O Gato de Madame
1956 – Chico Fumaça
1957 – O Noivo da Girafa
1958 – Chofer de Praça
1959 – Jeca Tatu
1959 – As Aventuras de Pedro Malazartes
1960 – Zé do Periquito
1961 – Tristeza do Jeca
1961 – O Vendedor de Linguiça
1962 – Casinha Pequenina
1963 – O Lamparina
1964 – Meu Japão Brasileiro
1965 – O Puritano da Rua Augusta'
1966 – O Corintiano
1967 – O Jeca e a Freira
1969 – No Paraíso das Solteironas'
1969 – Uma pistola para Djeca
1970 – Betão Ronca Ferro
1972 – O Grande Xerife
1973 – Um Caipira em Bariloche
1973 – Portugal... Minha Saudade
1974 – O Jeca Macumbeiro
1975 – Jeca contra o Capeta
1977 – Jecão, um Fofoqueiro no Céu5
1978 – O Jeca e seu filho preto
1979 – A Banda das Velhas Virgens
1980 – O Jeca e a Égua Milagrosa
Maria Tomba Homem (não concluído)

.: TJ Aparecida: Museu Mazzaropi em Taubaté é opção de lazer para o fim de semana

 

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