Por Pe. Leo Pessini Em Brasil Atualizada em 17 JUL 2018 - 08H31

Cirurgia plástica: beleza estética x saúde e vida

O estudioso norte-americano, Alvaro Jarrin, questiona a ideia de que o humanismo seria a força motriz da cirurgia plástica em hospitais públicos brasileiros. Sem dúvida alguma, as vítimas de queimaduras e indivíduos com deformidades congênitas foram os principais beneficiários da cirurgia plástica nestes hospitais. Mas em muitas das clínicas particulares de alto luxo, onde ele conduziu sua pesquisa, quase 95 por cento de todas as cirurgias eram de natureza estética, buscando o “embelezamento humano”. O autor comenta que documentou centenas de casos onde os cirurgiões e os residentes borraram propositadamente os limites entre procedimentos reconstrutivos e estéticos para tê-los aprovados pelo governo e serem consequentemente pagos.

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A grande maioria das cirurgias em hospitais públicos são realizadas por residentes médicos que ainda estão treinando para ser cirurgiões plásticos. Eles têm um interesse em aprender procedimentos estéticos e habilidades que os capacitarão para quando forem mais tarde abrir suas clinicas privadas. Mas eles têm muito pouco interesse em aprender os procedimentos reconstrutivos que realmente melhoram uma função corporal ou reduzem dores físicas.

Além disso, a maioria das inovações cirúrgicas do Brasil são testadas pela primeira vez por cirurgiões plásticos em hospitais públicos, expondo esses pacientes a mais riscos do que pacientes ricos, nas luxuosas clínicas privadas. Os pacientes da classe trabalhadora facilmente são utilizados como verdadeiros cobaias para pesquisa. O autor norte-americano relata que entrevistou um número significativo de pacientes pobres, que estavam muito insatisfeitos com os resultados de sua cirurgia plástica. Ele relata o exemplo de Renata (nome fictício). O médico residente que a operou deixou-a com seios deformados e mamilos desnivelados. Além disso, ela desenvolveu graves infecções que levou meses para curar e deixou cicatrizes nada estéticas. Ela chegou a considerar a possibilidade de processar o médico, mas necessitaria de uma avaliação médica de um perito, que era muito custosa. Ela também sabia que o sistema legal brasileiro provavelmente iria conceder-lhe muito pouco em termos de ressarcimento pelos danos. No final, ela se inscreveu para realização de uma outra cirurgia corretiva gratuita, na expectativa de um melhor resultado e deixando-a menos infeliz. Esta era uma história típica entre os pacientes de baixa renda que foram prejudicados por cirurgiões plásticos. A falta de recursos financeiros torna quase impossível para eles recorrer à justiça no caso de que algo deu errado, então eles acabam assumiram todo o risco.

Leia MaisOs altos custos ocultos da busca da “cidadania cosmética”A partir das entrevistas com muitos médicos, o autor, percebeu que esta técnica estética era fortemente defendida, alegando que era uma ferramenta fenomenal que lhes permitiu modelar o corpo humano. Sobre o risco, eles argumentam que é inerente a qualquer procedimento cirúrgico. Em todo o mundo, os cirurgiões plásticos brasileiros são conhecidos como sendo os melhores. Adquiriam reconhecimento global por suas ousadas novas técnicas. Durante uma conferência internacional de cirurgia plástica no Brasil, um cirurgião americano que entrevistei me disse: "os cirurgiões brasileiros são pioneiros... Sabe por quê? Porque no Brasil eles não têm barreiras institucionais ou legais para criar novas técnicas. Eles podem ser criativos o quanto desejarem ser". Em outras palavras, no Brasil ainda existe muita pouca proteção legal ou regulamentação ética que proteja os pacientes pobres de eventuais negligências ou danos médicos.

Penso que em nosso país hoje a questão da pesquisa em seres humanos hoje tenha uma vigilância ética através de comitês de ética e bioética que obriga que estes procedimentos éticos sejam feitos sempre dentro dos padrões éticos ditadas pela medicina de alta qualidade. Os pacientes não podem ser transformados em meras cobaias de cirurgiões aventureiros em busca de “fama e grana”. E muito menos os pacientes deveriam ser vítimas, muitas vezes pagando com a própria vida ao consentirem procedimentos experimentais, que acabam pagando com a própria vida. Todos sabemos muito bem, que “o milagre” quando ocorre, sempre e divulgado a exaustão e o erro sempre é escondido e negado! Não discutimos a importância fundamental da cirurgia plástica para correções e intervenções que reparadoras do corpo humano. São muito necessárias e se trata de uma questão de necessidade de saúde.

Temos um sistema público de saúde universal, isto e para todos, que na sua concepção filosófica e considerado um dos melhore do mundo. Agora quem necessita de seus serviços hoje, sabe que tem fila, demora muito no atendimento, infelizmente ainda morrem pessoas sem atendimentos nos prontos-socorros. Na pratica do dia a dia o SUS não e para todos como deveria ser, e é constitucionalmente concebido. A Cidadania real e verdadeira é aquela que garante os direitos fundamentais a uma vida digna para todos, privilegiando sempre os mais necessitados. Nada contra a beleza estética, mas no ranking das necessidades humanas fundamentais, o valor saúde e vida devem sempre estar em primeiro lugar.

Escrito por
Pe. Léo Pessini Currículo - Aquivo Pessoal
Pe. Leo Pessini

Professor, Pós doutorado em Bioética no Instituto de Bioética James Drane, da Universidade de Edinboro, Pensilvânia, USA, 2013-2014. Conferencista internacional com inúmeras obras publicadas no Brasil e no exterior. É religioso camiliano e atual Superior Geral dos Camilianos.

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