Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 21 SET 2017 - 09H42

Igreja na América Latina: o liberalismo do século XIX

Páginas de História da Igreja na América Latina
Parte 31

A Igreja latino-americana e o liberalismo do século XIX

Até agora em nosso estudo sobre a História da Igreja na América Latina, já vencemos a primeira parte do período que nos livros de história é chamado de América Colonial, mas que nós chamamos de Cristandade Colonial por causa do modelo de Igreja que aqui foi estabelecido, marcado pela Lei do Padroado e pela união entre a Igreja e o Estado. Por esta razão, na primeira fase de nossa história muitas vezes a evangelização e a colonização andavam juntas.

A partir de agora, em mais alguns artigos vamos focar o estudo da segunda fase ou segundo período desta história gloriosa que é chamada de a formação dos Estados Americanos, período que começa com a fase da independência e luta pela constituição das nações autônomas que hoje existem em nosso continente. Este período nos ajudará na compreensão da influência do liberalismo em toda a América e, justamente este sistema ideológico é que fará com que a separação da Igreja em relação ao Estado atinja situações mais ou menos críticas, dependendo de cada país ou região.

Marco Político e Social

O continente latino-americano foi sempre marcado profundamente pelo catolicismo desde sua origem. Lá atrás, no período da colonização, o protestantismo avançava na Europa, menos em Portugal e Espanha, justamente os países que nos colonizaram. Aqui o protestantismo também não avançou. Em 1940, apenas 0,4% da sua população não professava a fé católica.

O período que agora estudamos tem início a partir de 1820, com a independência dos povos da América Latina, indo até 1940. Lembrando que o Brasil foi um dos últimos países da América Latina a conseguir a sua independência.

O período da formação dos novos estados americanos pode ser dividido em duas etapas:

- 1º Etapa - Século XIX ou Século liberal
- 2º Etapa - Século XX (1895-1940)

Um dos marcos decisivos da caminhada da Igreja latino-americana nesta fase foi o Concílio Plenário Latino-Americano reunido em Roma, no ano de 1899, quando na Itália avançava o processo de unificação e a Igreja já estava perdendo os seus territórios.

Neste período histórico também são realçadas as dificuldades de se fazer uma síntese por causa da diversidade étnica e cultural.

Foto de: reprodução.

Concílio Plenário

 No pontificado de Leão XIII realizou-se em Roma o Concílio Plenário Latino-Americano. 

 

Principais forças do século XIX:

Ao longo do século XIX teremos a ação e a influência de duas forças ideológicas que são confluentes em alguns elementos. Trata-se de um lado do liberalismo que terá sua ramificação na política e na economia e, do outro lado, o positivismo com seus ideais de ordem e progresso que levará à supremacia da técnica.

Em seu contexto interno a Igreja continuará convivendo com uma impressionante diversidade no panorama e na evolução interna das Igrejas. Tanto assim que hoje a América Latina ainda é um continente bastante fragmentado. O sonho de Simón Bolívar de uma América Latina unida, formando uma espécie de federação de povos indo-hispânicos não se concretizou, justamente por causa das diversidades regionais.

A área geográfica de nosso continente é de 23 milhões de km², sem contar as Antilhas. Desta área imensa, 1/3 fica com o nosso Brasil.

Dificuldades de comunicação

Devido às razões geográficas e interesses externos nosso continente continuava sofrendo com a grande dificuldade de comunicação e transporte. Tanto assim que, em 1914, a América Latina possuía 85mil Km de ferrovias e os Estados Unidos já tinham 420 mil km.

Outra dificuldade enfrentada foi a formação artificial das nacionalidades, com fronteiras mal definidas, que separavam povos iguais. Isso vai gerar diversas guerras por fronteiras e conflitos pela disputa de várias regiões como foi o caso da Guerra do Acre e a Guerra do Chaco. Paralelo a isso ainda hoje sofremos com a falta de consciência de nacionalidade. Nesse contexto, a Igreja católica também sofria, e muito, com esta fragmentação.

Foto de: reprodução. 

Simon Bolívar

O sonho de Simón Bolívar de uma
América unida nunca se realizou. 

Crescimento demográfico e diversificação

Em 1825, 16 milhões de pessoas habitavam a área hispânica da América, com cerca de 4 milhões de pessoas no Brasil. Já em 1940, eram 85 milhões nos outros países e mais 85 milhões no Brasil.

A diversidade étnica e racial da população havia mudado bastante, estando agora assim distribuída: 36% de índios, 19% de brancos, 27% de mestiços e 18% de negros.

A partir de 1870 a imigração branca modificaria bastante este quadro. Entre 1870 e 1914, aproximadamente 10 milhões de imigrantes entraram em nosso continente. Este crescimento demográfico teve um grande reflexo na pastoral, com a urgente necessidade de aumentar o número do clero e multiplicação do número de circunscrições eclesiásticas.

O século XIX pode ser considerado como o século da instabilidade política. Exemplo disso é que entre 1821 e 1855 houve 44 governos no México. E entre 1825 e 1879 houve 170 revoluções na Bolívia.

As maiores cidades tinham entre 100 e 150 mil habitantes na época da emancipação, com destaque para a Cidade do México e Rio de Janeiro que por enquanto era maior do que São Paulo. As mesmas cidades teriam cerca de 500 mil habitantes no final do Século XIX. Mas 75% da população ainda habitava a zona rural.

Apesar das constituições liberais que foram promulgadas em vários países, no geral, as estruturas eram bastante conservadoras, com a predominância do caudilhismo em várias regiões da área hispânica da América e do famigerado "Coronelismo" no Brasil.

Nossa economia, porém, ainda era extrativista, agrícola e baseada no latifúndio. No campo político por muito tempo ainda predominariam os ideais das oligarquias.

Foto de: reprodução.

Rio de Janeiro

A cidade do Rio de Janeiro foi a primeira capital da Monarquia e depois a primeira capital da República.

 

No campo social, o século XIX veria nascer a nova classe média e aos poucos começaria a se formar o proletariado. Ao lado disso, novos grupos de poder aos poucos iriam se consolidando como o militares, comerciantes e classes liberais.

Em síntese, podemos dizer que seriam estas as características principais da sociedade latino-americana no raiar do novo tempo:

- Havia uma classe média e o proletariado estava em estado embrionário;
- A economia industrial era incipiente, predominando os que trabalhavam no setor têxtil e na economia extrativa;
- Cresciam as cidades e surgiam os sindicatos;
- Crescia a influência das universidades e dos intelectuais;
- Em relação às classes inferiores, sua sorte não mudou significativamente com a Independência;
- O analfabetismo era muito grande e só 4% da população frequentava a escola em fins do Século XIX;
- A concentração de terras e de riquezas continuava com a aristocracia.
- A abolição da escravatura começou em 1810 e só terminou em 1888 e a situação dos indígenas ainda continuaria muito precária.

Colunista padre Inácio

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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