Por Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R Em História da Igreja Atualizada em 21 SET 2017 - 09H43

Igreja na América Latina: presença na sociedade contemporânea

Páginas de História da Igreja na América Latina
Parte 34

O Século XX: Continuidade ou Diferenciação?

Quando chegamos ao final do século XIX a sociedade moderna já começava a sofrer um forte processo de transformação, graças, sobretudo, à industrialização. Este processo de transformação acontecia de forma mais acentuada no continente europeu. Tanto assim que a diferenciação entre o século XIX e XX somente ocorrerá no período entre guerras, principalmente após a 2ª guerra mundial.

Os fatos e acontecimentos marcantes que determinarão as transformações e a diferenciação serão o aumento demográfico, a urbanização acelerada, a industrialização e o investimento no transporte.

Missa comemorativa da Lei Áurea
Em fins do século XIX a Igreja ainda mantinha a sua influência na sociedade brasileira. 

A sociedade também passou a se transformar de forma vertiginosa, entretanto havia a herança religiosa que não podia ser desprezada, mesmo se abalada por fatos novos como a separação entre a Igreja e o Estado que entre nós se deu a partir da Proclamação da República. Havia ainda o influxo do ultramontanismo e do processo de centralização da Igreja chamado de romanização.

Na América Latina uma realidade nova e bem diferente dos demais países da Europa seria a forma como se deu o relacionamento da Igreja com as ditaduras ou com o caudilhismo. 

Expansão das estruturas eclesiásticas

As primeiras décadas do século XX representam um tempo de expansão das estruturas eclesiásticas. Livre das amarras do estado e sem a submissão da Lei do Padroado as instituições eclesiais deram um salto qualitativo e quantitativo. Em 1900 havia 111 circunscrições eclesiásticas; este número já havia subido para 268 circunscrições eclesiásticas em todo o continente no ano de 1940.

No Brasil, em 1890, um ano após a implantação do regime republicano havia apenas 12 circunscrições eclesiásticas; em 1940 este número já era de quase 100. Além das transformações quantitativas, o catolicismo também foi ganhando uma cara nova, tornando-se muito mais social, focado na busca de soluções para os graves e profundos problemas sociais em todo o continente.

A Igreja sentiu as grandes e graves transformações econômicas e sociais, como por exemplo, o surgimento da força do proletariado, mas aconteceu uma diferenciação de reações diante das transformações. Se por um lado uma boa parte da Igreja adotou uma posição mais conservadora, do outro lado havia os expoentes do catolicismo social onde os movimentos maiores aconteciam no México, Argentina e no Chile. 

Visão Panorâmica da Realidade Social

De 1900 a 1940. Em 1900 a população da América Latina chegava a 65 milhões de habitantes; em 1980 já se aproximava dos 315 milhões. Em 1940, 20% da população tinha entre 15 e 25 anos.

Mas, do ponto de vista social existiam diversas Américas Latinas. Existia aquela branca representada pela Argentina, Uruguai e Sul do Brasil; existia a índia, mais concentrada no Peru, Bolívia, Equador, México e em algumas regiões da América Central. E também havia a América Latina negra predominante no centro e norte do Brasil, nas Antilhas, nas Guianas e no Haiti.

Gráfico populacional. Em princípios do século XX, 38% da população representavam os índios e mestiços, 33% de brancos e 28% de Negros e mulatos.

Nas primeiras décadas do século, até o advento das duas grandes guerras, houve a transição da doutrina do positivismo e a modernização da América Latina. Isso viria a ser marcante graças a alguns fatos de relevo como a Revolução Mexicana e a promulgação da Constituição de Querétaro, em 1917.

Foto de: reprodução.

Constituição de Querétaro - México

A Constituição de Querétaro foi a primeira
constituição da história a incluir
os chamados direitos sociais. 

 

No tempo da Primeira Guerra Mundial a América Latina ainda passava por uma transição, e se de um lado permaneciam os modelos militaristas, o personalismo e as ditaduras no campo da política, do outro lado era forte a influência do liberalismo e do capitalismo como ideologias dominantes. Nesta época o imperialismo europeu chocava-se com nacionalismo, especialmente no campo da economia.

E continuadamente cresciam os problemas de classes, com os oprimidos começando a descobrir sua força (Indígenas, Classes populares) social. Com a renovação do pensamento antipositivista buscava-se uma maior valorização do passado e da realidade de cada país. 

Política e economia

A classe nascida entre 1850 e 1890 era aquela que mais se preocupava com o futuro político do país. Com isso, as ideologias políticas tornaram-se bastante diferenciadas, mas ganharam bastante força e influência. De um lado existia o autoritarismo personalista que defendia o uso da força para solucionar os graves problemas sociais e políticos. Em contraposição o conservadorismo progressista fazia reviver o ideal aristocrático propondo a superioridade das elites. O liberalismo, por sua vez, clamava por liberdade política, por desenvolvimento e pelo laicismo do estado. Por fim, existiam aqueles que achavam que a revolução poderia acontecer de forma autônoma, sem aderir a nenhum dos sistemas existentes.

Movidos por estas ideologias vários sistemas políticos foram ganhando mais ou menos força que variava de região para região, de país para país. Os sistemas mais comuns eram a autocracia, o militarismo e a ditadura que se baseavam em líderes populistas e personalistas, marca forte dos caudilhos e ditadores. O Sistema Conservador mantinha boas relações com a Igreja, baseando-se nos mesmos princípios. Os liberais eram reformistas e antirreligiosos se batendo contra o status e privilégios mantidos pela Igreja Católica.

No mundo latino-americano o Brasil permanecia até fins do século XIX como a única monarquia da América com características liberais e civis.

No campo da economia a industrialização entrou na América Latina graças ao domínio da Inglaterra, mas se acentuou, sobretudo, com a guerra de 1914-1918. Com a industrialização teve início o movimento sindical que trabalhava na organização e coesão do proletariado, mas por si só a industrialização era ambígua e causava um grande impacto social;

Fábrica de tecelagem
A industrialização marca o avanço da questão sindical no continente. 

O movimento sindical caminhava com muitas dificuldades no seu início, pois de um lado havia a desconfiança e hostilidade dos poderes públicos e das elites econômicas e do outro faltavam programação, organização e experiência dos trabalhadores e de suas organizações. E quem saiu na frente foram os socialistas.

Na organização do movimento de trabalhadores alguns países saíram na frente, aproveitando-se da experiência trazida pelos imigrantes como foi o caso da Argentina. A constituição Mexicana (1917) aceitou as primeiras reivindicações e aos poucos foram sendo fundadas as federações de trabalhadores a exemplo do que ocorreu na Bolívia e na Argentina.

Visando alcançar uma maior coesão e integração do continente latino-americano aos poucos também foi sendo organizado o Movimento Pan-americanista. Entre 1890 e 1954 foram realizadas 10 conferências, além de outros congressos e reuniões. Havia um esforço de superar nacionalismos e buscava-se uma maior coesão continental com a superação dos antagonismos históricos e de fronteiras.

Colunista padre Inácio

Escrito por
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R. (Arquivo redentorista)
Pe. Inácio de Medeiros, C.Ss.R

Redentorista da Província de São Paulo, graduado em História da Igreja pela Universidade Gregoriana de Roma, já trabalha nessa área há muitos anos, tendo lecionado em diversos institutos. Atua na área de comunicação, sendo responsável pela comunicação institucional e missionária da Província de São Paulo.

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