Por Eduardo Góis Em Igreja

A natureza em nós

Temos uma íntima relação com a natureza. Somos feitos de poeira das estrelas. Todo o material de que somos feitos (exceto hidrogênio e parte do hélio) foram manufaturados nas estrelas que morreram antes do sistema solar se formar.

Somos etimologicamente “húmus”, cujo significado é “terra fértil, fecunda”, originando as palavras homem / humano. Somos formados por 20 aminoácidos e quatro ácidos nucleicos, e nada mais. Todos os seres vivos, sem exceção, utilizam esses 20 aminoácidos para fabricarem todos os tipos de proteínas de que necessitam.

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Fotos: Shutterstock

Todos os seres vivos do planeta Terra, homens, pássaros, peixes, animais, plantas são feitos basicamente de átomos de carbono, nitrogênio, hidrogênio, oxigênio e alguns outros elementos em menor quantidade. Há muitas semelhanças entre nós, a natureza e os animais, fora a dependência mútua existente. Natureza, homem, fauna e flora convivem, metaforicamente, sob a mesma regência.

A ciência já mostra de forma evidente que os peixes, as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens e os répteis que rastejam sobre a terra têm memória, personalidade e linguagem. As formas de comunicação dos golfinhos, por exemplo, são tão desenvolvidas que se suspeita que eles tenham nome próprio – e, por definição, um ser capaz de dar nome a si e a seus semelhantes tem noção de identidade. Assim como os chimpanzés, os corvos e os elefantes, os golfinhos conseguem se reconhecer no espelho. Os primatas, por sua vez, dominam um senso rústico de justiça e sentem ciúmes quando acham que não foram recompensados como deveriam.

Diz Leonardo Boff, em seus escritos sobre ecologia e humanismo, que entre os humanos e os chimpanzés há, por exemplo, 99,6% de genes ativos em comum. A versão do cromossomo o difere da do macaco reso por um único aminoácido apenas. Das versões do cachorro, da rã, do bicho-da-seda e do trigo por 11, 18, 43 e 53 aminoácidos, respectivamente.

Ratinhos de laboratório são vítimas constantes de depressão, fato esse também já provado pela ciência. Depois de permanecerem trancados por vários dias, às vezes no escuro, costumam ficar encolhido num canto qualquer, com os pêlos arrepiados e sem reação a estímulos alimentares e sexuais, não muito diferente dos humanos em situação semelhante. Mais de 10 mil anos de convívio dão aos cachorros, sem espaço a dúvidas, à incomensurável capacidade de nos conhecer muito bem.

A presença de “fatores da natureza” em nós é muito mais constante do que podemos imaginar. O corpo humano mantém mais de 100 trilhões de células compartilhando átomos com tudo o que está ao nosso redor, enaltecendo assim a exuberância da vida. Os homens e todos os seres vivos têm a água como o principal constituinte. No corpo de cada ser humano há mais ou menos 71% de água (a mesma porcentagem que há no planeta em que habitamos); nossa taxa de salinização do sangue (3,4%) é a mesma dos mares.

Simplesmente, 60% do corpo humano é oxigênio. Se incluirmos o carbono, hidrogênio e nitrogênio existentes em nosso corpo, temos configurado então 95% da massa total de um ser humano. De 92 elementos químicos existentes na natureza, 17 deles regulam todo o processo da vida. Habitamos uma Terra que se formou em sua origem de matéria cósmica, composta basicamente de silício, oxigênio, alumínio e ferro.

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Essa relação homem-animais-natureza-Terra-vida é tão intensa que até mesmo em ambientes inóspitos é possível encontrar sinais de vida, como, por exemplo, nas profundezas oceânicas de mais de três quilometros, aonde a luz solar não chega e a pressão é extrema. É por tudo isso que nos permitimos enfatizar a afirmação recorrente de que somos filhos e filhas de Gaia; de uma Terra que nos abriga, nos acolhe, nos alimenta e nos protege.

E, dessa maneira, a percepção ecológica da vida humana se reflete por toda parte, em todos os cantos, nos mais extraordinários e recônditos momentos da Mãe Natureza, quer seja numa simples gota d´água ou na queda de uma gigantesca cachoeira, nos ventos que produzem energia que, por sua vez, dão “vida” à atividade econômica produtiva, num simples grão de areia que, junto ao cactus, embeleza a aridez escaldante de um deserto.

Essa percepção ecológica da vida que estamos aludindo está refletida indiretamente na massa de ar, nas folhas verdes, na chuva que faz florir, no lírio que floresce em meio ao lodo, na multiplicidade da vida aquática, no afinadíssimo e muito bem elaborado canto dos Uirapurus, essa ave canora que ao cantar por apenas uma quinzena por ano, por não mais que 15 minutos ao amanhecer e ao anoitecer lembra uma flauta.

Essa percepção ecológica está também junto às abelhas que polinizam as flores nos dando os alimentos, e nos fitoplânctons que produzem o oxigênio que respiramos.

Isso tudo é a natureza refletida em nós. Tudo isso conforma a abundante riqueza ecológica que perfaz a essência do viver, embelezando a convivência entre os homens, os animais, a natureza.

Carl Sagan (1934-1996) certa vez afirmou que “há seres que deslizam, rastejam, flutuam, planam, nadam, escavam, caminham, galopam ou apenas ficam imóveis e crescem verticalmente durante séculos. Alguns pesam 100 toneladas, mais a maioria é menor que um bilionésimo de grama. Há organismos capazes de enxergar sob luz infravermelha ou ultravioleta; e há seres cegos que percebem o ambiente envolvendo-se num campo elétrico. Alguns armazenam luz solar e ar; alguns são plácidos comedores de pastagens; outros caçam sua presa com garras, dentes e venenos neurológicos. Alguns vivem uma hora e, alguns, um milênio”.

Assim é a vida no seio do sistema ecológico. Assim é a natureza em nós e é dessa maneira que ocorre a percepção ecológica da vida. É assim que a vida se desenvolve dentro do ambiente do qual somos (e fazemos) parte, do qual dependemos e do qual precisamos urgentemente defender.

.: A íntima relação entre Economia e Teologia

colunista marcus eduardo de oliveira

 

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Por Eduardo Góis, em Igreja

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