Por Joana Darc Venancio Em Igreja Atualizada em 07 NOV 2017 - 09H50

Brasileiros que ainda não “se inclinam para escrever” e “não se levantam para ler”

A alegria de se alfabetizar é intensa, assim também é a alegria de ser alfabetizador. Mudam os conceitos acerca do que significa alfabetizar, mas não mudará jamais a emoção experimentada. A alfabetização deveria ser o processo natural de transmissão da escrita e da leitura, mas nem sempre tem sido assim. A escrita e a leitura devem fazer parte da vida de todos, assim como fez na vida de Jesus: “Jesus então, cheio da força do Espírito, voltou para a Galileia. E a sua fama divulgou-se por toda a região. Ele ensinava nas sinagogas e era aclamado por todos. Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. (L 4,15-16)”.

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A Igreja, ao longo da história, contribuiu essencialmente com o aprendizado da leitura e da escrita. Devemos aos Jesuítas essa realização. Diferente de muitas correntes que os acusam, eles devem ser reverenciados e homenageados por tantas riquezas deixadas para a nossa educação. Lamentavelmente muitas perdidas em função da mentalidade difusa que se instala e insiste em abandonar os clássicos e as origens. A companhia de Jesus uniu as letras e os costumes promovendo o ensino humanístico ensinando a ler escrever, contar e cantar. Ao mencionar a história da educação no Brasil em todas as suas dimensões, fundamentos e aparatos didáticos não podemos permitir que os Jesuítas sejam esquecidos e julgados erroneamente.

Após a pausa para fazer justiça aos jesuítas, podemos pensar nas inúmeras questões que envolvem o ensino-aprendizagem da leitura e da escrita. Em muitos livros, monografias, dissertações e teses, têm sido objetos de pesquisa. Também têm sido tema de muitos congressos, seminários e muitos outros eventos nas academias de muitas ciências. Há muitas tendências, estilos, defesas e ataques referentes aos processos de alfabetização. Uma das vertentes recai na ideia do “alfabetizar letrando”. Em “letrar” está explícito a condição de uma alfabetização que permite a compreensão plena do que está sendo lido. Alfabetizar e letrar são ações inseparáveis. A alfabetização é a aquisição do código escrito e o letramento é a condição, de através da leitura e da escrita, viver como sujeito de seu tempo. “... Jesus inclinando-se, escrevia na terra com o dedo” (João 8,6)

Leia MaisEducação Inclusiva: Estamos acolhendo ou deixando nos corredores?A educação mais eficaz é aquela que se recebe numa Família CristãEducação para a Verdade e para a EsperançaFormar pessoas sólidas: o grande desafio da EducaçãoEducação Afetiva: “façais também vós”A professora Magda Soares, pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da UFMG, no livro: Letramento: um tema em três gêneros (1998, p. 47) explica o que significa “alfabetizar letrando”: “Alfabetizar e letrar são duas ações distintas, mas não inseparáveis, ao contrário: o ideal seria alfabetizar letrando, ou seja: ensinar a ler e escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, de modo que o indivíduo se tornasse, ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado.”O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) órgão ligado ao MEC, afirma que um indivíduo alfabetizado não será aquele que domina apenas rudimentos da leitura e da escrita e/ou alguns significados numéricos, mas aquele que é capaz de fazer uso da língua escrita e dos conceitos matemáticos em diferentes contextos (INEP, p.160, 2015).

Os dados sobre a alfabetização no Brasil ainda são alarmantes. Também o INEP (2014-2016) informa que “mais de 50% dos alunos do 3º ano têm nível insuficiente em leitura e matemática”. Nível insuficiente deve ser compreendido como incapacidade de interpretar um texto e desenvolver as contas. Realidade chocante que mantem muitos brasileiros em condições, que devem ser tratadas como a urgência de intervenção dos Direitos Humanos. Houve muito avanço, não podemos negar. Há muitos Programas nas esferas federais, estaduais e municipais que se dedicam à causa da Alfabetização, mas ainda nos deparamos com muitos brasileiros à margem da condição cidadã de ler e de escrever. No relato do Evangelista Lucas (4, 17-20), é possível compreender o quanto ler e escrever faz parte da justiça divina: “Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito (61,1s.) O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor. E enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele”.

Há uma prova, conhecida como ANA (Avaliação Nacional de Alfabetização), que é aplicada desde 2013 pelo Ministério da Educação (MEC) aos alunos do 3º ano do Ensino Fundamental I. Essa prova tem o objetivo de avaliar, com dados precisos, se os alunos estão sendo plenamente alfabetizados. A prova é aplicada individualmente por um profissional externo escolar. O aluno recebe o “caderno de prova” com exercícios adequados ao conteúdo estudados do 1º ao 3º ano. A prova ANA é uma iniciativa que vem ao encontro do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC), que em 2012 foi lançado pelo MEC. O pacto selou o compromisso de que “todas as crianças até os oito anos de idade devem ser plenamente alfabetizadas em leitura, escrita e matemática”. A prova ANA também envolve os gestores e professores, pois os mesmos devem responder, um questionário online, sobre condições que envolvem o processo de ensino-aprendizagem e também situações de infraestrutura, formação de professores, gestão escolar, organização do trabalho pedagógico, entre outras.

Os dados coletados da prova ANA não são confortantes, pois em 2014, 56,17% dos alunos teve nível de leitura insuficiente. Em 2016, a Prova ANA apesenta: 54,73% com leitura insuficiente. Uma mínima mudança de percentual.

No caso da escrita, a prova ANA de 2016 nos coloca frente à dura realidade de 34% que não consegue escrever com eficiência. Os textos produzidos por este percentual não são legíveis e as palavras não são devidamente empregadas alfabeticamente. Cerca de 2 milhões de alunos foram avaliados em 48 mil escolas espalhadas por todos estados e regiões do Brasil, 105 mil turmas de 3º ano do Ensino Fundamental, sendo 90% com 8 anos de idade.

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Levando em consideração que ser alfabetizado também é saber fazer contas, o aprendizado da matemática é também uma grande angustia da educação no Brasil. Em 2016, 54,46% apresentaram insuficiência. Uma queda muito pequena, já que em 2014, 57,07% dos alunos foram classificados como aprendizagem insuficiente.

A árdua estatística não termina, pois estávamos refletindo sobre as crianças. No entanto, há um exército de 13 milhões de pessoas analfabetas, que são os jovens a partir dos 15 anos e adultos. Esses não sabem ler nem escrever. Se queremos um diagnóstico completo do grande desafio da Alfabetização no Brasil, é preciso levar em conta também a população acima de 9 anos de idade, que incluída engrossa a estatística elevando para 16 milhões de pessoas analfabetas. (PNAD, 2014).

E não acabou! Também precisamos lembrar, que existe outro grau de analfabetismo para além dos analfabetos, que são os “analfabetos funcionais”. O INAF (Índice Nacional de Analfabetismo Funcional) indica que 28 milhões de brasileiros integram essa estatística. O INEP, classifica o analfabeto funcional as pessoas com 15 anos de idade ou mais que possuem os anos iniciais do ensino fundamental, ou seja, menos de cinco anos de estudo completos e que conseguem apenas localizar informações em textos curtos e realizar operações simples de matemática.

O Plano Nacional de Educação (PNE) prevê que 100% das crianças estejam plenamente alfabetizadas até 2024. Esperamos que essa meta seja alcançada para que nossas crianças cheguem à adolescência tendo a mesma condição de Jesus, que aos 12 anos, era admirado por sua sabedoria. Jesus sabia ler, escrever, interpretar, interrogar e ensinar aos Doutores (Lc 2,43-47). Que possamos também dizer: "A criança brasileira, cresce em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens." (Cf. Lc 2,52)


Escrito por
Joana Darc Venancio (Redação A12)
Joana Darc Venancio

Coordenadora pastoral da educação da Diocese de Utaguaí/RJ. Graduada em Pedagogia pela Universidade Iguaçu, mestre em filosofia da educação pela universidade do estado do Rio de Janeiro e Doutora em filosofia pela universidade Gama Filho. Especialista em Educação a Distância e Administração Escolar pela SENAC. Cursando Bacharel em Teologia pelo Centro Universitário Claretiano e Professora Universidade Estádio de Sá.

4 Comentários

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Anísio Tavares comentou:

Parabéns ao A12 por publicar esse sintético e excelente artigo, o qual nos faz pensar sobre qual base está sendo construída a era digital. É importante não nos esquecermos que os avanços contínuos nos ambientes digitais necessitam de uma educação consistente, cujo base é a capacidade de leitura e escrita críticas. Obrigado, Joana Darc Venancio, por nos convidar a refletir sobre o presente e o futuro de nosso povo.

respondeu:

Agradecemos o seu comentário!

Luise M.G.Garioli comentou:

Como professora reconheço a importância da meta do PNE ser alcançada pois é muito triste a realidade da educação em nosso País peço a Deus e a Mãe Aparecida para que abençoe as nossas crianças ,jovens e educadores.

respondeu:

Amém!

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