Por Joana Darc Venancio Em Igreja Atualizada em 14 NOV 2018 - 12H10

Brasileiros que ainda não “se inclinam para escrever” e “não se levantam para ler”

A alegria de se alfabetizar é intensa; assim também é a alegria de ser alfabetizador. Mudam os conceitos acerca do que significa alfabetizar, mas não mudará jamais a emoção experimentada.

A alfabetização deveria ser o processo natural de transmissão da escrita e da leitura, mas nem sempre tem sido assim. A escrita e a leitura devem fazer parte da vida de todos, assim como fez parte da vida de Jesus: “Jesus então, cheio da força do Espírito, voltou para a Galileia. E a sua fama divulgou-se por toda a região. Ele ensinava nas sinagogas e era aclamado por todos. Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler". (Lc 4,15-16)

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A Igreja, ao longo da história, contribuiu essencialmente com o aprendizado da leitura e da escrita. Devemos aos Jesuítas essa realização. Diferente de muitas correntes que os acusam, eles devem ser reverenciados e homenageados por tantas riquezas deixadas para a nossa educação. Lamentavelmente, muitas perdidas em função da mentalidade difusa que se instala e insiste em abandonar os clássicos e as origens. A Companhia de Jesus uniu as letras e os costumes, promovendo o ensino humanístico, ensinando a ler escrever, contar e cantar. Ao mencionar a história da educação no Brasil, em todas as suas dimensões, fundamentos e aparatos didáticos, não podemos permitir que os Jesuítas sejam esquecidos e julgados erroneamente.

Após a pausa para fazer justiça aos jesuítas, podemos pensar nas inúmeras questões que envolvem o ensino-aprendizagem da leitura e da escrita. Em muitos livros, monografias, dissertações e teses, têm sido objetos de pesquisa. Também têm sido tema de muitos congressos, seminários e muitos outros eventos nas academias de muitas ciências. Há muitas tendências, estilos, defesas e ataques referentes aos processos de alfabetização. Uma das vertentes recai na ideia do “alfabetizar letrando”. Em “letrar” está explícita a condição de uma alfabetização que permita a compreensão plena do que está sendo lido. Alfabetizar e letrar são ações inseparáveis. A alfabetização é a aquisição do código escrito e o letramento é a condição de, através da leitura e da escrita, viver como sujeito de seu tempo. “...Jesus inclinando-se, escrevia na terra com o dedo”. (João 8,6)

Leia MaisEducação Inclusiva: Estamos acolhendo ou deixando nos corredores?A educação mais eficaz é aquela que se recebe numa Família CristãEducação para a Verdade e para a EsperançaFormar pessoas sólidas: o grande desafio da EducaçãoEducação Afetiva: “façais também vós”A professora Magda Soares, pesquisadora do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita da UFMG, no livro 'Letramento: um tema em três gêneros' (1998, p. 47) explica o que significa 'alfabetizar letrando': “Alfabetizar e letrar são duas ações distintas, mas não inseparáveis. Ao contrário, o ideal seria alfabetizar letrando. Ou seja, ensinar a ler e escrever no contexto das práticas sociais da leitura e da escrita, de modo que o indivíduo se tornasse, ao mesmo tempo, alfabetizado e letrado". O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão ligado ao MEC, afirma que um indivíduo alfabetizado não será aquele que domina apenas rudimentos da leitura e da escrita e/ou alguns significados numéricos, mas aquele que é capaz de fazer uso da língua escrita e dos conceitos matemáticos, em diferentes contextos. (INEP, p.160, 2015).

Os dados sobre a alfabetização no Brasil ainda são alarmantes. Também o INEP (2014-2016) informa que “mais de 50% dos alunos do 3º ano têm nível insuficiente em leitura e matemática”. 'Nível insuficiente' deve ser compreendido como incapacidade de interpretar um texto e desenvolver as contas. É uma realidade chocante que mantém muitos brasileiros em condições que devem ser tratadas como a urgência de intervenção dos Direitos Humanos.

Houve muito avanço, não podemos negar. Há muitos programas nas esferas federais, estaduais e municipais que se dedicam à causa da alfabetização, mas ainda nos deparamos com muitos brasileiros à margem da condição cidadã de ler e de escrever.

No relato do evangelista Lucas (4, 17-20), é possível compreender o quanto ler e escrever faz parte da justiça divina: “Dirigiu-se a Nazaré, onde se havia criado. Entrou na sinagoga em dia de sábado, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. Foi-lhe dado o livro do profeta Isaías. Desenrolando o livro, escolheu a passagem onde está escrito (61,1s.) 'O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a boa nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor'. E, enrolando o livro, deu-o ao ministro e sentou-se; todos quantos estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele”.

Há uma prova, conhecida como ANA (Avaliação Nacional de Alfabetização), que é aplicada desde 2013 pelo Ministério da Educação (MEC) aos alunos do 3º ano do Ensino Fundamental I. Essa prova tem o objetivo de avaliar, com dados precisos, se os alunos estão sendo plenamente alfabetizados. A prova é aplicada individualmente, por um profissional externo ao ambiente escolar. O aluno recebe o “caderno de prova” com exercícios adequados ao conteúdo estudado do 1º ao 3º ano. A prova ANA é uma iniciativa que vem ao encontro do Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (PNAIC) que, em 2012 ,foi lançada pelo MEC. O pacto selou o compromisso de que “todas as crianças até os oito anos de idade devem ser plenamente alfabetizadas em leitura, escrita e matemática”. A prova ANA também envolve os gestores e professores, pois os mesmos devem responder um questionário online sobre condições que envolvem o processo de ensino-aprendizagem e também situações de infraestrutura, formação de professores, gestão escolar, organização do trabalho pedagógico, entre outras. 

Os dados coletados da prova ANA não são confortantes pois, em 2014, 56,17% dos alunos teve nível de leitura insuficiente. Em 2016, a Prova ANA apresentou 54,73% com leitura insuficiente, uma mínima mudança de percentual. No caso da escrita, a prova ANA de 2016 nos colocou frente à dura realidade de que 34% das crianças não consegue escrever com eficiência. Os textos produzidos por este percentual não são legíveis e as palavras não são devidamente empregadas alfabeticamente. Cerca de 2 milhões de alunos foram avaliado, em 48 mil escolas espalhadas por todos estados e regiões do Brasil em 105 mil turmas de 3º ano do Ensino Fundamental, sendo 90% com 8 anos de idade.

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Levando em consideração que ser alfabetizado também é saber fazer contas, o aprendizado da matemática é também uma grande angústia da educação no Brasil. Em 2016, 54,46% apresentaram insuficiência. Uma queda muito pequena, já que, em 2014, 57,07% dos alunos foram classificados com aprendizagem insuficiente.

A árdua estatística não termina, pois estávamos refletindo sobre as crianças. No entanto, há um exército de 13 milhões de pessoas analfabetas, que são os jovens a partir dos 15 anos e adultos. Esses não sabem ler nem escrever. Se queremos um diagnóstico completo do grande desafio da alfabetização no Brasil, é preciso levar em conta também a população acima de 9 anos de idade que, incluída, engrossa a estatística, elevando o número para 16 milhões de pessoas analfabetas. (PNAD, 2014).

E não acabou! Também precisamos lembrar, que existe outro grau de analfabetismo para além dos analfabetos totais, que são os “analfabetos funcionais”. O INAF (Índice Nacional de Analfabetismo Funcional) indica que 28 milhões de brasileiros integram essa estatística. O INEP classifica como analfabeto funcional as pessoas com 15 anos de idade ou mais que possuem os anos iniciais do ensino fundamental, ou seja, menos de cinco anos de estudo completos, que conseguem apenas localizar informações em textos curtos e realizar operações simples de matemática.

O Plano Nacional de Educação (PNE) prevê que 100% das crianças estejam plenamente alfabetizadas até 2024. Esperamos que essa meta seja alcançada, para que nossas crianças cheguem à adolescência tendo a mesma condição de Jesus, que aos 12 anos, era admirado por sua sabedoria. Jesus sabia ler, escrever, interpretar, interrogar e ensinar aos Doutores (Lc 2,43-47).

Que possamos também dizer: "A criança brasileira, cresce em estatura, em sabedoria e graça, diante de Deus e dos homens." (Cf. Lc 2,52)

Escrito por
Joana Darc Venancio (Redação A12)
Joana Darc Venancio

Pedagoga, Mestre em educação e Doutora em Filosofia. Especialista em Educação a Distância e Administração Escolar, Teóloga pelo Centro Universitário Claretiano. Professora da Universidade Estácio de Sá. Coordenadora da Pastoral da Educação e da Catequese na Diocese de Itaguaí (RJ)

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