Por Pe. José Carlos Linhares Pontes Júnior, CSsR Em Igreja

Conheça como é o matrimônio na África

“Queniano oferece 150 cabeças de gado para se casar com a filha de Obama”, essa foi a notícia que circulou na mídia internacional no dia 27 de maio de 2015. Acompanhei várias reportagens e em muitas delas percebi expressões jocosas ao se referir a proposta do queniano. Essa atitude demonstra uma falta de conhecimento da realidade e dos costumes africanos.

O fato é que Felix Kiprono, advogado, fez uma proposta a Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, para se casar com Malia, filha do presidente.

Ele ofereceu 50 cabeças de vaca, 70 ovelhas e 30 cabras relatando que sente um amor verdadeiro por Malia. Podemos pensar, é muita prepotência desse jovem querer casar com a filha do presidente dos EUA dando 150 cabeças de gado! Mas, vamos conhecer o que é matrimônio e lobolo em África.

Na África o casamento não é apenas entre duas pessoas e sim entre duas famílias. O matrimônio é uma celebração que envolve os familiares vivos e mortos, pois os antepassados são informados e recebem uma parte do lobolo.

 
 

Outro dado é que, de forma geral, o parentesco é unilateral, ou seja, os filhos pertencem a apenas um dos genitores. Nesse sentido existem tribos que são patrilinear e tribos que são matrilinear. Nas sociedades patrilineares a mulher se distância da sua família pelo pagamento do lobolo e passa a se submeter totalmente ao clã do marido.

Nas sociedades matrilineares é o homem que deixa sua família e vai para a casa da mulher. Caso haja separação, na sociedade patrilinear a mulher retorna para sua casa sem levar nada, nem os filhos. O mesmo acontece nas sociedades matrilineares, caso tenha a separação o homem retorna para sua tribo sem nada (os filhos ficam com a mãe).

Mas, o que é o lobolo? Podemos dizer que é um vínculo matrimonial eterno em que o marido paga a família de sua futura esposa um valor para casar com ela. Isso ocorre nas sociedades patrilineares. É uma forma de agradecimento, já que o homem vai levar a mulher do convívio familiar de seus parentes sanguíneos.

Além disso, o lobolo é uma forma que o homem tem para mostrar suas condições no sustento da sua futura esposa. Essa prática também serve para avisar aos antepassados falecidos e aos parentes vivos que aquela jovem vai ser dada em casamento. Por isso, o dinheiro, os animais ou outros bens que são dados a família da esposa devem ser apresentados aos antepassados do clã.

Com esse rito de apresentação, espera-se a resposta da mulher. Caso ela diga sim, então ela está se comprometendo com toda a sua família alargada (vivos e morte) e isto dá uma maior estabilidade ao matrimônio que não será desfeito por motivos banais. Caso haja a separação, o valor do lobolo deve ser devolvido e a mulher retornar para a família de seus pais.

Enquanto não for devolvido o lobolo as partes continuam casados. Se a mulher nesse período contrair outro relacionamento e tiver um filho, essa criança pertence ao primeiro marido, já que ela ainda não devolveu o lobolo e estão unidos pelos laços matrimoniais.

Podemos achar estranho essa realidade porque é diferente para nós brasileiros. Nós estamos (ou estávamos) acostumados a aliança de noivado que marca o compromisso matrimonial. O anelamento é a tradição europeia, o lobolo é a tradição africana. Nesse sentido, na África o matrimônio é celebrado três vezes: pela tribo, pela Igreja e pelo Estado.

No caso concreto, o jovem advogado ofereceu 150 cabeças de gado como lobolo. O ato é falho por dois motivos: 1- a família da esposa é quem determina o valor do lobolo; 2- nunca é o rapaz que chega na casa da moça para pedir em matrimônio e sim os tios dele que apresentam o desejo daquele rapaz em casar com aquela moça.

Mas dada a impossibilidade da comunicação direta com a família de Obama, ele tomou a liberdade de adaptar a prática tribal ao contexto atual.

O que dizer? Perguntei a Michael Makayi natural do Congo e ele me respondeu: “Como pai, primeiro tenho que aceitar a filha concluir os estudos e depois perguntar o ponto de vista dela, porque não sou eu como pai que devo decidir. Hoje o amor é o consentimento de duas pessoas. Caso ela aceite, bem é assim, os pais não podem se opor ao amor das crianças”.

A proposta feita pelo advogado é uma prática muito comum na África. Agora qual será a resposta de Obama? Vamos aguardar, em julho Obama vai visitar sua avó no Quênia.

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