Por Pe. Rafael Vieira Em Opinião

Comentário: Spotlight – Segredos Revelados

Confira um comentário reflexivo e analítico sobre a obra cinematográfica que ganhou recentemente o Oscar de melhor filme.

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O ganhador do Oscar na categoria de “melhor filme” em 2016 é uma obra panfletária, apesar de densa, bem feita e mais compreensível para jornalistas porque destrincha a produção de uma reportagem investigativa de grande poder de fogo. Há quem tenha dificuldades para acompanhar a trama, ainda que a comentarista da Rede Globo, a atriz Glória Pires, tenha dito na entrega dos prêmios da Academia de Ciências Cinematográficas de Hollywood que o filme é acessível. Não estou muito convencido a respeito disso. O próprio assunto principal do filme não fica tão claro nos primeiros momentos da história e o ponto de vista é sempre o da redação do “The Boston Globe”. O cotidiano mostrado é o dos jornalistas da equipe que faz matérias que demandam mais apuração de temas quentes. O expectador se dá conta de que se trata de pedofilia entre o clero católico somente depois de uma boa dose de paciência e atenção. Isso significa que mesmo um filme excepcional tendo o seu tema tratado a partir da lógica jornalística pode não ter um lead muito claro.

Na verdade, o tema do filme é delicado. E, baseado numa história real, conta a difícil escalada para se chegar a uma verdade escondida na Arquidiocese de Boston, no estado de Massachusetts, nos Estados Unidos: a pedofilia praticada por vários padres. A partir da explosão de uma série de reportagens – premiada pelo “Pulitzer”, maior prêmio de jornalismo dos Estados Unidos - teve início um grave capítulo na história da Igreja Católica no mundo inteiro, em 2002. Vários outros jornais fizeram grandes matérias sobre o assunto e com a criação de uma verdadeira “indústria” de causas na Justiça, passaram ser conhecidos praticantes do mesmo crime em muitas partes do mundo. A massificação do tema chegou ao ponto de colocar a pedofilia e os homens de boa vontade que se dedicam ao sacerdócio católico num cerco injusto, cruel e desumano quando joga sobre todos uma terrível capa de suspeita por causa dos crimes de alguns.

Eu discordo de quem acha o filme apenas técnico. Eu o considero panfletário, não obstante sua explícita seriedade. E nem penso na necessária, heroica e merecedora de aplausos denúncia sobre a pedofilia. Nesse aspecto o filme é corretíssimo. O que me impressionou, particularmente, é que o roteirista não fez uma história para que o expectador saiba de sua denúncia, mas para que tenha repugnância da Igreja. Ao terminar de ver o filme você não apenas sai com pavor de que pessoas que merecem tanta confiança, como os padres, sejam capazes de abusar de crianças. Você sai da sala com raiva da Igreja. A figura real do cardeal Bernard Law, arcebispo de Boston na época, colocado no início e no final do filme é a prova de que a obra pretende despertar um asco pela Igreja e não pelos crimes que ocorreram em seus domínios. Parece dizer: esse é um bandido que foi premiado pela Igreja. A realidade não chega nem perto disso. O drama pessoal do repórter interpretado por Mark Ruffalo também evidencia esse tipo de propaganda. Ele não se revolta contra a infidelidade de alguns padres criminosos, mas encerra, com dor, sua hipotética volta ao seio da Igreja.

Além de Ruffalo, o filme conta com um elenco espetacular: Michael Keaton, Liev Schreiber, Rachel McAdams, John Slattery e Brian d'Arcy James. Esse fato, de atores extraordinários terem participado do trabalho, imprime mais verdade a uma obra de cinema que trata da vida real. Ninguém duvidaria aqui no Brasil de uma personagem magistralmente interpretada por Fernanda Montenegro. E todos os atores de “Spotlight” atuam na medida perfeita. Nem excedem na exuberância, nem ficam aquém do brilho próprio de seus personagens. Aliás, há comedimento, sobriedade, determinação. Posturas que se podem ver nas redações sérias de veículos de comunicação que se comprometem com a verdade. As referências feitas à Igreja falham exatamente por causa de um elemento indispensável no jornalismo: a maior imparcialidade possível. No filme, as vítimas são apresentadas. E o lado da Igreja está representado apenas por quem, de algum modo, está relacionado com o crime investigado. Daí, fico pensando se a intenção é despertar para uma imagem da Igreja, seria necessário ter a representação, mesmo que en passant, de que dentro dessa instituição bimilenar há gente honesta, direita, defensora e religiosamente cuidadosa com as crianças. A maioria esmagadora, alíás.

Rafael Vieira
Missionário Redentorista
Assessor da Comissão Episcopal
para a Comunicação da CNBB 

 

spotlight.cartazFicha do filme:

SPOTLIGHT - SEGREDOS REVELADOS
Filme (2015)
Direção: Thomas McCarthy
Gênero: Drama, Suspense
Nacionalidade: EUA

3 Comentários

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marisa gallinari comentou:

Todas as pessoas do Bem serão perseguidas. Era assim no tempo de Jesus, antes DELE, e agora e sempre! Não é fácil , mas Jesus nos ensinou isso. Os cabritos no meio dos carneiros, o joio no meio do trigo, etc... Só Jesus para julgar a todos.

Eugênio D. Berto comentou:

Comentário sereno e imparcial, como deveria ser toda notícia e investigação jornalistica. Pena que uma minoria se inteirará desse texto, o qual deveria ser divulgado por todos que o lerem.É isso que vou fazer. Como cristãos católicos devemos ter consciência crítica, com o espírito de separar o joio do trigo. Somos uma Igreja santa e pecadora. Condena-se qualquer falha humana, com exigência da reparação do mal praticado. Porém, devemos exaltar a trajetória dos que fazem o bem. É a maioria santa.

Nara Junqueira comentou:

Ainda não vi, mas escutei de católicos graves críticas à Igreja. De qualquer modo, imagino que a intenção seja atacar a Instituição e certamente não o faz em nome do bom jornalismo apenas. O pecado vende mais! E não me surpreendo, pois a nossa imprensa, inclusive com a ajuda de padres e bispos católicos, faz o mesmo em relação ao PT, que como a Santa Igreja tem homens bons, aliás a maioria, e outros nem tanto, mas todos merecedores da misericórdia de Deus.

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