9. Um itinerário para aprofundar a Espiritualidade Quaresmal
Postado em 02/04/12 ás 17h15
O tempo quaresmal deve ser para o cristão, um momento oportuno para recordar, na vida pessoal, as ações de Jesus, pois convida a dar um salto qualitativo, à luz da vida do Doador de Vida que convoca a cada um de nós a um itinerário de seguimento e a fazer a experiência da via amorosa e reconciliadora, presente no mistério pascal.
Esta realidade tem implicações profundas na vida e não é uma tarefa fácil, uma vez que pede de cada um, certos elementos que rompem com o comodismo, com a passividade e requer nova postura frente à realidade e um modo novo de vivenciar a fé. Deve superar a concepção de que basta somente o jejum, a caridade e a oração, muitas vezes vistos de um modo banal, pela sociedade de hoje e por muitos cristãos, como cumprimento de um preceito.
Diante da proposta litúrgica da Quaresma, cada um deve se perguntar: O que significa este tempo para mim? Como o vivo? Quais são os frutos espirituais conquistados e que repercutem na vida cristã? Como estou me preparando para celebrar o grande mistério pascal de Cristo? Ou será que este é mais um período proposto pelo calendário litúrgico e nada me diz?
É bom que à luz destas interrogações, cada um se ponha a perguntar e a refletir sobre a vida espiritual pessoal. Para ajudar, neste artigo, vão alguns elementos para que cada pessoa, na quaresma, e para a vida, possa fazer seu próprio itinerário espiritual.
Neste tempo profundo proposto ao crente para a preparação à Grande Festa da Páscoa, não se pode esquecer-se da Sagrada Escritura, especialmente daqueles textos que ajudam a refletir sobre o sentido da misericórdia, da conversão e do amor de Deus na vida do ser humano; sobre a libertação, a aliança com Deus e a humanidade e aqueles que se referem à criação, ou a nova criação, à profecia, ao testemunho e as ações de Jesus: sua vida de anúncio da Boa Nova, oração, contato com as pessoas e seu modo de fazer o bem.
Propositalmente, não colocarei nenhuma citação para direcionar, é importante que cada um sinta-se estimulado a buscar estes temas é lê-los em sintonia com a realidade e à vida.
Alguém pode perguntar: por que buscar estes temas? O aprofundamento deles, no período quaresmal, ajudará a celebrar melhor a Páscoa. A Quaresma é como um tempo di enamoramento, à espera do grande festa de casamento, em que se celebra o mais profundo mistério de fé, de humanização de Deus e a mais fiel aliança da história, realizada na Cruz de Cristo e na sua ressurreição.
Neste sentido, a Escritura é nossa testemunha, é porta-voz de todo o evento divino-humano e redemptivo da história da humanidade e que fornece um itinerário à fé. Não é um itinerário tranquilo, pois desinstala, coloca em movimento, em caminho para encontrar a razão da fé e o sentido para a existência.
Além da Escritura, é importante ler a vida dos Santos e Santas da Igreja ou se há oportunidade, alguma obra que escreveram. Vale recordar a vida de João da Cruz, Teresa de Jesus, Teresinha di Lisieux, Judit Stein, Santo Antão, Santo Afonso, e outros que fizeram uma profunda experiência de fé: Madre Teresa di Calcutá, Dorothy Stang, Margarida Alves, pessoas que doaram sua vida por causa da fé em Jesus, em favor dos mais frágeis. Importante recordar os santos e santas das comunidades que, no silêncio, expressam a força para a missão da Igreja.
A preparação quaresmal requer uma mística e nos leva a uma mística, leva o crente a transfigurar-se em Jesus. Essa transfiguração tem um elo na vida contemplativa e prática, fé e ação e, neste sentido, a vida dos Santos e Santas e daqueles que doaram suas vidas em favor do Reino e das vidas fragilizadas, nos faz cada repensar o nosso itinerário de vida e de fé, porque nos remete as raízes de nossas promessas batismais e as implicações que o batismo tem na vida cristã.
Quando se espera alguém para uma festa, antes há uma preparação. Na Quaresma também não é diferente, precisa preparar o coração - centro das decisões morais, lugar onde cada um é o que é. Uma das maneiras propostas pela Igreja é o Sacramento da Reconciliação. Infelizmente, hoje, este sacramento vem sendo desvalorizado, tanto por parte de muitos sacerdotes, bem como dos fiéis.
Para este momento, sacerdote e fiel devem estar preparados, pois é um sacramento que toca lá nas profundezas da pessoa, nas suas luzes e sombras e, busca, trazê-la à luz que emana do mistério pascal de Cristo.
O sacerdote deve ser um mistagogo, aquele que ajude o penitente a fazer a experiência do mistério redentor de Jesus, na vida; e a pessoa a reencontrar novos caminhos de vida e santidade.
Além do sacramento da reconciliação é imprescindível, a participação na Eucaristia, a grande oração da Igreja, momento em que celebramos a nossa páscoa na páscoa de Jesus.
S. Tiago, em algumas linhas recorda que a fé se expressa em atos concretos: meus irmãos, se alguém diz que tem fé, mas não tem obras, que adianta isso? Por acaso a fé poderá salvá-lo? Por exemplo: um irmão ou irmã não têm o que vestir e lhes falta o pão de cada dia.
Então alguém de vocês diz para eles: ‘Vão em paz, se aqueçam e comam bastante’; no entanto, não lhes dá o necessário para o corpo. Que adianta isso? 17 Assim também é a fé: sem as obras, ela está completamente morta. (Tg 2, 14-17)
É comum ouvir alguém dizer que a Quaresma é tempo de “fazer caridade”. Não é incorreto, porém, se a nossa caridade termina com a Quaresma algo vai muito mal e é sinal de uma espiritualidade débil. O agir caritativo e solidário deve continuar na dimensão da pascalidade de Jesus, isto é, deve ganhar tonalidade, vigor e estímulo para que a dimensão pascal da fé cristã torna-se um imperativo ético, porque impõe um olhar crítico à realidade, questionando as estruturas envelhecidas do pecado e da morte.
Não se trata de um falso moralismo, sim de um viver angustiado, que interroga o mundo, para ajudá-lo a ser o lugar, onde as pessoas possam plenificar-se humanamente.
Um exemplo de ação é envolver-se com as propostas da Campanha da Fraternidade, que é uma convocação da Igreja do Brasil, à comunidade de fé a olhar com cuidado certos problemas e desafios, refletir sobre eles e buscar uma ação concreta, à luz da fé, da esperança e da caridade.
A espiritualidade quaresmal se faz seguindo os passos de Jesus. Para isso, é preciso recordar (deixar passar pelo coração) bem de sua pessoa e caminhar com ele, fazer os seus êxodos, sofrer com ele as tentações, as incompreensões, a sua experiência de intimidade com o Pai e com os mais abandonados da sociedade.
Entregar-se, de fato, esvaziar-se para que se faça a vontade do Pai e experimentar a força da ressurreição como resposta à morte, ao egoísmo, à indiferença e a tudo aquilo que afasta do projeto de realização do Reino na vida humana.
8. Rasgar o coração a Deus e ao próximo
Postado em 02/04/12 ás 17h10
A Quaresma é um tempo favorável em preparação à festa litúrgica por excelência, a Páscoa do Senhor, e nela, a nossa Páscoa! Não é mera convenção criada pela Igreja, mas um exercício litúrgico-espiritual que conduz os fiéis à experiência de fé. Por isso, é importante conhecer o sentido deste tempo litúrgico para celebrá-lo e expressar na vida pessoal e comunitária este mistério salvífico.
Para chegar à estrutura litúrgica da Quaresma como a temos hoje, foi um longo processo histórico.
A palavra Quaresma deriva de dois termos: Quadragésima, do latim, que significa quarenta dias e/ou quadragésimo dia e Tessarakoste, do grego quadragésimo. Portanto, há uma relação com o numeral quarenta. Nas Escrituras este número, em suas variações, ocorre 192 vezes, nas diversas situações sociais, política, econômica e religiosa dos israelitas.
Refere-se aos clãs, ao número de homens do exército, à idade das pessoas, aos períodos de tranqüilidade e de paz do povo, ao tempo de descanso de uma terra, à plenitude da fecundidade, ao reinado de reis, ao castigo de uma pessoa, às riquezas, à durabilidade do despovoamento de uma região e medidas econômicas.
Do ponto de vista teológico-litúrgico-espiritual o sentido densifica-se e relaciona-se com a experiência que o povo faz de Deus ou como lêem a ação de Deus em sua história.
Os quarenta dias e noites da inundação do dilúvio originam uma nova humanidade purificada pelas águas (Gn 7,4-17); a peregrinação do deserto e a travessia do Mar Vermelho para chegar a Terra Prometida, tempo de provação e de purificação (Ex 14 – 18,27); Moisés que permanece quarenta dias e quarenta noites sem comer e beber para receber a Aliança no Sinai (Ex 24,12-18; Dt 9,9); a penitência dos ninivitas antes de receberem o perdão de Deus (Jn, 3,4);
A caminhada do profeta Elias durante quarenta dias e quarenta noites para chegar ao monte de Deus (1Rs 19,3-8); o jejum de Jesus durante quarenta dias e quarenta noites, quando foi tentado pelo diabo (Mt 4, 1-11) e outras.
Deixando o mundo judaico e voltando para o Cristianismo, durante os três primeiros séculos não se constata nenhuma longa preparação para a Páscoa, embora os Padres da Igreja como Santo Atanásio, Cirilo de Jerusalém e Santo Agostinho mencionem a importância do jejum, como prescrição de solenidades ou preparação dos catecúmenos para receberem o batismo.
É no Concílio de Nicéia (325 d.C) que o termo “Quaresma” começa a ganhar força. Nesse período, havia um jejum de três a sete dias, mas a partir da metade deste período, acrescenta-se três semanas num total de quatro semanas.
Esse costume adentra o século VI e consolida-se no VII, quando surge o costume de jejuar na quarta-feira antecedente ao primeiro domingo da Quaresma. Estabelece o rito de imposição das cinzas que cunha o termo Quarta-feira das Cinzas e jejua-se, ao longo de quarenta dias, exceto nos domingos, comendo uma refeição ao dia, sem ingerir carne.
Atualmente a Quaresma inicia-se na Quarta-feira de cinzas e termina na quinta-feira da Ceia do Senhor.
A Espiritualidade quaresmal
As cinzas, na Quarta-feira, abre um tempo de profundo questionamento existencial e espiritual. Recorda a condição frágil do ser humano que caminha para a morte, sua situação pecadora e penitente, mas que deve converter-se e caminhar para a vida nova em Jesus. Propõe um itinerário com três atitudes: o Jejum, a Oração e a Caridade, um combate espiritual ao ter, ao prazer e ao poder, deuses interiores e da sociedade, que ofuscam a experiência do Deus de Jesus Cristo.
O jejum: liberdade diante da opulência
Jejuar não significa apenas privar-se de dos alimentos. É uma experiência muito mais ampla. É abster-se das forças interiores que nos fragmentam.
O jejum ajuda-nos a libertar de nossos vícios e paixões desmedidas. Abre o nosso ser para a simplicidade. Ensina-nos a permanecer com o essencial. Abre o nosso apetite às coisas de Deus, elimina as impurezas interiores. Predispõe o espírito humano para integrar-se ao Espírito de Deus e questiona a nossa solidariedade com aqueles que nada têm, por causa da opulência de outros.
Reafirma nosso itinerário espiritual, libertando-nos do egoísmo e incita a uma busca de vida plena, na vida nova que emanará da Páscoa do Senhor.
A oração: a intimidade com Deus
Orar é colocar-se, numa atitude de fé perante Deus com o coração aberto, num diálogo de profundo amor.
Neste tempo quaresmal a oração deve interpelar-nos a uma prática concreta de vida, ao testemunho e a contemplar o rosto das pessoas sofridas, vítimas da exclusão de nosso tempo e a evitar tudo o que é prejudicial à vida pessoal e à do próximo.
O exercício da oração pessoal e comunitária deve-se tornar nosso alimento diário para nos fortalecer não somente neste período, mas por toda a nossa vida, para que ela seja fundada na vontade de Deus.
A oração é uma maneira de ler a ação de Deus na história humana e do mundo e perceber o seu rosto amoroso que acolhe a todos sem usar instrumentais de poder e de opressão.
Caridade: compadecer-se como Jesus
O ter, o poder e o prazer, as tentações que Jesus sofreu no deserto, cegam a pessoa para prática da caridade, pois a distanciam de si mesma e do outro. Não permite a atitude do Bom Samaritano, que diante do homem caído chegou junto dele, viu e moveu-se de compaixão, aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramou óleo e vinho, colocou-o me seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados (Lc 10, 23-37).
A caridade é a base para uma espiritualidade da compaixão, aquela semelhante a de Jesus que quando via as multidões famintas, tristes, desesperançadas, sem esperança, movia-se até elas e restituía-lhes a dignidade.
Na Quaresma percorremos com Jesus Cristo o itinerário da tentação, da provação e da obediência filial ao Pai. Transfigurando-nos Nele, cujo brilho cura-nos das cegueiras, renovando nossos olhos para a fé.
É tempo de converter, renovar o templo interior, a fidelidade à Aliança com Deus e crer de todo o coração rasgando-o para a vida nova, libertando-se das amarras interiores para impelir-nos à misericórdia e à reconciliação.
Além da espiritualidade própria da Quaresma, não se pode esquecer a Campanha da Fraternidade que este ano reflete a situação dos povos da Amazônia e, neles, todos os povos do Brasil e também do mundo, juntamente com os problemas ambientais, sociais, políticos e econômicos. Esta Campanha convoca todos homens e mulheres de bem a refletirem sobre a Espiritualidade da Criação, que é sufocada a cada dia, pelos demônios, do ter, do prazer e do poder que destroem vorazmente os povos e o meio ambiente que vivemos.
7. Experimentar o deserto na vida espiritual
Postado em 27/07/11 ás 15h53
Na caminhada espiritual de todo ser humano aparecem momentos em que tudo parece um abismo e as respostas se esvaem. Há uma aridez, uma secura espiritual e tudo parece estar perdido. Surgem o desânimo, a vontade de ficar parado, de não mais caminhar. Caminha-se pelo deserto interior.
Por essa experiência passaram os grandes santos e místicos da Igreja e todo aquele que ousa construir seu itinerário atravessará por esse feliz momento!
A experiência do deserto é fecunda, embora seja dolorosa, somos confrontados conosco mesmo, com nossas “feras” interiores, quando nos confrontamos com aquelas situações que nos afastam, dividem-nos.
O deserto é o momento de libertação das amarras que criamos para nós mesmos. Essas situações interiores que nos prendem, faz-se necessário deixá-las, se queremos caminhar. Portanto, o deserto é lugar do confronto e do amadurecimento.
Assim, vale a pena buscarmos a experiência das Sagradas Escrituras para a nossa compreensão, aprofundamento e elaboração de um itinerário espiritual.
A experiência do Povo de Deus
Parece não haver na história um povo tão experiente em deserto quanto o Povo de Israel, a começar pela estrutura geográfica e as experiências de itinerâncias. O deserto, nas Sagradas Escrituras, pode ser tomado como referência geográfica, no seu sentido real ou no sentido conotativo, fruto de uma experiência de um povo peregrino, como lugar teológico.
Nosso objetivo é resgatá-lo em ambos os sentidos e depois situá-los no processo do itinerário espiritual. Fazer a experiência do deserto implica deixar o medo para trás...
O deserto pode ser entendido como o local de conflito, da derrota, da peregrinação, de se compreender a si mesmo como ser errante, peregrino na história.
Alguns capítulos dos livros do Êxodo e dos Números narram a experiência de caminhada do povo de Deus pelo deserto. Nesse itinerário, o povo de Deus, passa por situações diversas que o vai levando a compreender os desejos e as promessas de Deus.
O deserto é ponto de encontro, é onde se celebra a Páscoa, oferecendo ao Deus libertador sacrifícios, e é onde se faz a experiência da Proteção divina, coloca-se em marcha e se faz a experiência do limite.
Ao longo desse caminho, o povo toma consciência dos seus pecados, das suas fraquezas, fica desanimado e perde a esperança. Passa pela experiência da morte e da perda de identidade. O deserto torna-se o lugar da sede, da amargura, da fome, da provação (Ex 15, 22), do descontentamento, da falta de estrutura, do desânimo, do desejo de retornar ao que era antes, à segurança da terra do Egito (Nm 11,5.14, 2).
Experimentam a indigência, a provação e a necessidade de caminhar errante devido às infidelidades.
O povo sentiu fome e sede, entretanto Deus os alimentou com o maná (Ex 16) e saciou a sede, fazendo brotar água do rochedo (Ex 17,1-7). A experiência do deserto foi pedagógica, pois fez com que seguisse a Deus com fidelidade (Jr 2,2).
Entretanto, na caminhada, houve contestações, revoltas, desgostos, pois o povo foi tirado do comodismo, chamado à nova experiência. O deserto é o preço da libertação para se ver livre do Egito. É o lugar da tomada de consciência: quem quer se tornar livre passa pela insegurança e a sequidão para se tornar livre das amarras de si mesmo.
O deserto é a experiência da limitação e do dom amoroso de Deus ao seu povo (Nm 21,18). É um lugar que, apesar da sequidão, há ainda uma fonte que jorra água (Gn 16,7). É onde se pode ver a glória de Deus amoroso sem obstáculos.
O Levítico recorda que é no deserto que se apresenta a oferenda a Deus e se faz o ritual de expiação. Depois do ritual, tomava-se o bode expiatório e lançava-no ao deserto. Para os isarelitas, o deserto era o local da habitação do demônio.
Em Números, encontramos a narrativa do povo caminhante. Neste livro, dentre os muitas referências ao deserto, nós o temos como o local onde Deus fala com Moisés, no Deserto do Sinai. É no Sinai que o povo faz a profunda Aliança.
A geração infiel a Deus morre durante a caminhada do deserto (Nm 32,13), ficando uma nova geração, purificada, marcando profundamente a relação do Povo com Deus.
O deserto é um lugar terrível, mas por ele se caminha até à montanha. É o lugar de obstáculos, da fragilidade da vida, e também da ação beneficente e providencial de Deus, salvando o seu povo sempre dos perigos. Em Dt 1,29-33, há um relato muito interessante mostrando Deus como um pai que conduz o filho no caminho.
Assim, Deus é aquele que vai à frente do povo no deserto, mostrando por onde deve andar e este povo prova o amor e a fidelidade de Deus No deserto o povo experimenta a presença de Deus na históriae que o salva.
O deserto é onde se faz o redirecionamento de uma rota, isto é, por ele, mudam-se as atitudes. É o lugar em que Deus conquista o povo. Em Dt 8,1-6, Deus aparece como tentador, isto é, faz uma experiência com o seu povo, a fim de conhecê-lo e saber o que ele tinha no coração.
É no deserto que Davi escapa das mãos de Saul (1Sm 23,14). Portanto, é também local de conflito e de fuga (Js 8,20). É onde há perseguição, insegurança e se faz a experiência do medo. Os Macabeus para resistirem à invasão helênica se retiraram para o deserto (2Mc 5, 27) como meio de se protegerem.
Em Isaías, a imagem do deserto muitas vezes aparece desoladora. Devido ao exílio, o profeta compara Jerusalém a um deserto. Por vezes, traz o sentido da esperança profética isaiânica: “porque no deserto jorrará água e torrentes na estepe” (Is 35,6); “transformarei o deserto em açudes (...) plantarei no deserto o cedro e a acácia... (Is 41,18-19)”.
Nesse sentido, o deserto representa a renovação das esperanças perdidas.
Além de todas as imagens que temos sobre o deserto, ele nos é apresentado como lugar da manifestação de Deus. É o Deus-Caminhante que marcha com o seu povo. É ao mesmo tempo lugar da manifestação da graça, e também da ruína, da ausência de vida, da solidão desoladora, da fome.
Em Oséias há uma referência muito interessante. O deserto é o lugar da sedução, onde se permite falar ao coração (Os 2, 16) e é onde Deus conhece o seu povo (Os 13,5).
Assim, o deserto na Sagrada Escritura é sinônimo de provação, bem como de renovação espiritual: “por isso, eu mesmo a seduzirei e a conduzirei ao deserto e lhe falarei ao coração.” (Os 2,16s)
A experiência de João Ba
6. Santidade
Postado em 29/06/11 ás 08h47
Após termos trabalhado alguns temas relacionados à espiritualidade dos tempos litúrgicos quero propor aos nossos queridos leitores e leitoras um tema muito caro na vida espiritual que é a santidade.
Santidade: Entendê-la para buscá-la
A primeira coisa que precisamos compreender para percorrer este caminho é definir o que é santidade. Não pretendo explicar a santidade como algo canônico, o processo elaborado para que alguém seja elevado aos altares, mas a partir do cotidiano e da vivência.
Certamente você já ouviu a seguinte expressão: “Fulana é uma santa...” “Pedro é um santo...” “Maria é uma santinha...” Algumas vezes o termo santo/a é indicado com ironia, para dizer exatamente ao contrário daquilo que a pessoa é ou para expressar que ela vive no mundo das nuvens, fora da realidade. Ou expressa, de fato, uma santidade de vida com mística profunda que as pessoas conseguem captar e a definição que conseguem dar é nomear santo/a.Este segundo termo interessa-nos para aprofundamento.
Se consultarmos o dicionário sobre o que é santidade ele nos dará a seguinte definição: “qualidade ou virtude de santo; estado de santificação; virtude, pureza, religiosidade.” (Cf. HOUAISS). E quem é o santo? O mesmo dicionário traz várias definições, mas há quatro que nos interessam: “essencialmente puro, soberanamente perfeito; que ou aquele que foi canonizado e/ou a quem os fiéis rendem culto; que ou aquele que vive conforme a Lei de Deus e a moral religiosa; que ou aquele que é dotado de santidade, que é puro, isento de culpas.
Basicamente estes conceitos nós conhecemos, pois aprendemos a partir da fala de nossos catequistas, nas homilias em algum escrito, mas ser santo vai além disso.
Pode ser que o nosso leitor já esteja desanimado de ser santo, pois o conceito é muito ideal, um caminho difícil de galgar.
A santidade na Bíblia
Na Bíblia este assunto é bastante ampla e para cada época em que os textos foram compostos há seus nuances ou enfoques. Mas de forma muito simples e sintética a palavra para designar nas Escrituras o que é santo é kadosh, e significa corte, separação especialmente das coisas impuras, separado, sagrado, santidade, consagração, a qualidade do que é sagrado, santo, o Santo por excelência. Só Deus é Santo (Is 6,3;Lc 1,49; Jo 17,11; Ap 4,8;6,10).
No Apocalipse encontramos: “Santo, Santo, Santo”, isto é, aquele que é completamente santo. No entanto, santidade não é algo somente para Deus, o povo de Israel é convidade a ser santo: “sede santos, porque eu Javé vosso Deus, sou santo” (19,2). E a Deus deve se consagrar somente aquilo que é bom (Dt 17, 1-2). Nas páginas do Novo Testamento Jesus é santo (Lc1,35), o Santo, o Santo de Deus (Mc 1,24; Jo 6,69) e é modelo para todos os seus seguidores.
Entender o santo no seu contexto
Muitos afirmam que os santos são modelos ultrapassados, pois foram pessoas que viveram num determinado tempo histórico. Outros vêm os seus feitos, especialmente a vida mística e a ascética rigorosa como loucura.
Há aqueles que querem aplicar nos moldes deles o que viveram, para os dias de hoje. Aqui é preciso ter discernimento. Não podemos deslocar determinado santo/a da sua realidade histórica, ele respondeu aos problemas ou viveu uma espiritualidade do seu tempo. Todavia, isso não pode ser descartado ou esquecido.
Aí pode surgiu outra pergunta: então para que declarar alguém ou o que serve o ensinamento desta pessoa? Vale lembrar que até hoje a Igreja recorda o ensinamento de Agostinho, Tomás, João da Cruz, Teresa d’Ávila e muitos outros...
O santo recorda-nos sempre a fidelidade ao Deus da vida que permeia toda a história e vai além do tempo e da história. É vida na vida de Deus e que se transforma em vida doada para os mais frágeis. Assim, a santidade recorda-nos que não é algo descartável ou modismo, conforme nos propõem a sociedade pós-moderna.
Os santos ainda são modelos a serem seguidos, pois foram pessoas, que, na sua humanidade, lançaram-se no abismo da fé e deixaram cair nos braços de Deus.
Santo a partir do próprio jeito de ser
Ser santo é ser muito humano. Portanto, o primeiro pressuposto para ser santo é viver com intensidade aquilo que é humano com as suas contradições que lhe são próprias, buscando a cada dia superá-las, nascendo de novo cada dia. Isto se diferencia daquela visão de perfeccionismo que massacrava a dimensão corporal da pessoa. Portanto, cada pessoa pode ser santa a partir do seu corpo, do seu ser.
O santo é humano e na sua caminhada vai configurando o seu ser ao ser de Deus, entregando-se. É alguém que tem coração bom, que ama muito, é capaz de consumir sua vida a outrem. Está em contato com a realidade, não é alguém que despreza o mundo, todavia despreza as injustiças e as contradições deste mundo.
Busca superar as dimensões de pecado, aquilo que desvia do seu alvo, Deus mesmo. Está sempre em confronto com as suas estruturas perversas, lutando contra elas. Um exemplo eram os Padres do Deserto que chamavam essas forças de demônios.
À procura do Caminho
Então, podemos afirmar que o santo é alguém inquieto, que vive em constante êxodo, põe-se a caminhar todos os dias à procura de Deus.
A carta de São Paulo aos Romanos apresenta-nos pistas para trilhar o caminho de santidade: amor fraterno, zelo e diligência, fervor de espírito, ser serviçal ao Senhor, alegre na esperança, forte na tribulação, perseverante na oração; socorrer os necessitados, ser hospitaleiro, abençoar os perseguidores, alegrar com os que se alegram, chorar com os que choram, relacionar-se com os outros e não se deixar levar pelo espírito de grandeza e a humildade (Rm 12, 10-16b). Esse encontro de vontades: humana e divina, é pascal, converte, renova e recria.
Nas páginas iniciais da Criação, encontramos: “façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança” (Gn 1,26). Se somos a imagem e semelhança de Deus, significa que somos potencializados a sermos santos, com Ele, Nele e para Ele no mundo.
Então, santidade não é coisa inventada, está na índole do próprio ser humano e é possível a todas as pessoas e faz parte da aventura humana aqui nesta terra.
O cristão chamado a ser santo no mundo
Até antes do Concílio Vaticano II, santidade era coisa reservada ao papa, aos bispos, aos monges, religiosos e sacerdotes. Era um estado de perfeição, para poucos. Hoje, a Igreja relembra-nos que a santidade é universal. Isto quer dizer que os leigos/as devem e p
5. Místicos: pessoas bêbadas de Deus
Postado em 07/06/11 ás 09h16
No artigo anterior mostramos a importância da Espiritualidade na vida laical. Neste, compreenderemos o que é mística, quem é o místico e o que isso tem a ver com a realidade de homens e mulheres batizados e que exercem seu trabalho e realizam sua vocação no mundo.
É comum, nos dias atuais, encontrar expressões como estas: “Luzia tem uma mística”, “João tem um jeito místico”, “a mística do mercado”, “a mística da música”, a mística da informática...” usa-se a palavra aos quatro ventos, sem expressar o seu sentido profundo.
Os exemplos citados expressam simplesmente a idéia de que mística é abraçar uma realidade de modo apaixonado, criando um certo mistério e devotamento naquilo que se faz, contagiando as pessoas ao redor. Isso pode acontecer em nível de idéias pessoais, ideologias causas sociais, instituições financeiras, religiosas... Porém é um sentido superficial.
Mística, o que é?
A palavra mística tem origem grega – múó (calar-se, fechar a boca ou os olhos, emudecer, balbuciar) mystikós (relativo àquilo que deve ser mantido em segredo, sobretudo no que diz respeito ao sagrado ou culto sagrado entre iniciados, nas religiões antigas).
Nesse sentido, está relacionada a uma profunda experiência do sagrado ou de Deus, sobre a qual não se pode expressar de modo preciso com palavras. É uma realidade que vai além do estritamente racional e para ser expressa usa-se certos símbolos e imagens (esposo(a), matrimônio espiritual, caminho, castelo interior).
É preciso ficar claro que a mística não é alternativa para substituir o Evangelho, muito menos formar pequenos grupos fechados que não estão em sintonia com a caminhada eclesial, apegados a certos fenômenos visionários, de bilocação, etc. A experiência mística nunca poderá ser forjada e forçada, ela encontra-se na dinâmica da graça de Deus. Se é graça de Deus é dada a todos, portanto, todos temos a oportunidade de sermos místicos.
O(a) místico(a): alguém que experimenta Deus
O (a) leitor(a), desde o artigo anterior, e também neste, está deparando-se com uma palavra que sempre se repete – experiência. Ela é composta de três palavras: EX: origem, 'movimento para fora, tirado de, 'fora de', movimento de... para, êxodo, saída, percurso; PERI: contorno, ao redor de, abraço; ENTIA: seres, realidades.
Assim toda experiência é um movimento, um êxodo de Deus que abraça o ser humano, envolve-o e o plenifica no amor. E essa experiência traz um saber sobre Deus – sabedoria (sabor de...).
Na experiência Deus aparece e se esconde. Ele é mistério e se mostra através das mediações. Mistério, em grego Miein, mys/ múó: esconder (semelhante ao rato). Assim, Deus é aquele que está escondido e, ao mesmo instante, revela-se. A pessoa mística experimenta Deus. É aquela que busca penetrar no coração de Deus e agir pelo coração de Deus.
Ao longo da história, criou-se certo preconceito com relação à pessoa mística, especialmente na sociedade pós-moderna. O místico muitas vezes é compreendido como alguém fora da realidade, ultrapassado, contra as mudanças e progressos da sociedade. Esta idéia é errônea e reducionista.
O místico, com profunda humanidade, olha a realidade com os olhos de Deus, sem fugir dela, interpreta-a e capta os movimentos e os rastros do Deus caminhante na história e comunica-O ao mundo, onde está inserido. É alguém profundamente sensível que capta o amor de Deus a todos os seres humanos e busca ver o mundo com olhar profundamente humano e divino.
É um seguidor de Jesus e quer refletir em sua vida as ações do próprio Jesus – tirar as pessoas de sua indigência, perdoar, uma vida íntima com o Pai e entregar-se à vontade de Deus, especialmente pela oração e pela leitura assídua da Palavra de Deus.
É alguém aberto ao projeto de Deus, isto é, deixa-se modelar pela ação do próprio Deus, na liberdade, sem nunca perder a sua humanidade. Uma pessoa mística é caracterizada por ser profundamente humana no trato com as demais, especialmente os mais fracos.
E por fim, é um instrumento da graça de Deus. O (a) mística nunca se enaltece, pelo contrário, são humildes por ser este canal de graça no meio da sociedade e dos demais seres humanos.
Ao longo da história encontramos muitos místicos: Gregório de Nissa, Bernardo de Claraval, Francisco de Assis, Inácio de Loyola, Teresa de Jesus, João da Cruz, Teresa do Menino Jesus e alguns místicos da atualidade: Edith Stein (leiga e mártir) D. Helder Câmara, D. Luciano Mendes, Madre Teresa de Calcutá, Tomas Merton, Roger Schutz, Dietrich Bonhoeffer, Margarida Alves (trabalhadores rurais), Chico Mendes (ecologia), Chiara Lubich, Zilda Arns e tantos leigos (as) que vivem radicalmente a sua fé, inseridos (as) em nossas comunidades. E por que não você, caro(a) leitor(a)?
Uma graça a todos!
Este caminho não é um privilégio apenas de religiosos (as) e sacerdotes, mas de todo o cristão. Significa que o leigo pode ser um místico, a partir do seu modo de viver e agir na sociedade.
Geralmente se tem a idéia de que mística e santidade é algo para iluminados ou que já nasceram destinados a serem santos. A mística e a santidade constroem-se ao longo da vida. Os santos só foram santos porque deram um salto qualitativo na sua humanidade – deixaram de ser uma lama sem forma para serem modelados pelo grande Oleiro, Deus. Romperam com suas trevas interiores para o encontro da
Grande Luz e do Grande Caminho. O itinerário da santidade e da mística é processual, não é do dia para a noite... e exige rotas, sinalizações, é semelhante a alguém que vai fazer uma viagem, tem que ter um ponto de partida e de chegada e os meios que o fará chegar ao seu objetivo.
Em tempos pós-modernos a mística é um desafio, mas é algo essencial. Um leigo engajado, místico, é um presente de Deus, pois não compactua, por exemplo, com um sistema político que exclui, não é omisso diante da desonestidade da empresa e da comunidade eclesial que trabalha.
Obviamente isso não é fácil, pois vivemos na era da inversão de valores. Ser justo, honesto, bom é não ser bem visto, mas levar vantagem e tirar proveito de tudo é ser modelo de esperteza. A atual sociedade quer uniformizar bons e maus e isto é perigoso. A pessoa mística vê além e denuncia esta realidade e busca construir, onde está atuando, um novo jeito de ver a vida, a partir dos valores evangélicos.
Nada disso &eacut
4. Nossa forma íntima de se comunicar com Deus: a oração
Postado em 04/04/11 ás 09h55
A definição mais usual de oração é a de diálogo com Deus. Realmente o é, no entanto, deve-se levar em consideração a qualidade desse diálogo. Deve sê-lo de maneira que atinja as nossas vísceras e provoque comunhão entre o nosso ser e Deus.
Intimidade com Alguém invisível
Ao partir da definição de oração como diálogo com Deus, podemos nos perguntar: como dialogar com alguém que não vemos diante de nós de algum modo? Temos necessidade de presença, de voz, de símbolos, de imagens, de algo para nos apoiar e nos certificar que estamos dialogando com alguém, e com Deus não podemos vê-lo, escutar sua voz...Queremos certezas, mas ao lidar com o divino, elas se esvaem, restando-nos uma espécie de dúvida ou de crise diante do mistério.
Talvez seja pelo nosso desejo excessivo de certezas absolutas que não podemos captar o modo de Deus falar ao nosso coração. Somos ansiosos por respostas imediatas, realidade própria do humano e nem sempre essa resposta acontece como queremos. A experiência do mistério divino responde-nos de forma diferente.
Obteremos respostas do diálogo com Deus e ele nos fala e de modo sutil. Captar o que Deus nos fala insere-nos numa outra experiência, a da intimidade. Intimidade significa adentrar no mistério de si e do outro, e isso só é possível pelo amor. Experiências humanas como a do namoro, dos casais e de amizades expressam esta realidade. Intimidade e amor levam à comunhão e na comunhão cessa a palavra.
É nesse processo que surge a oração. A oração é a ousadia humana de entrar no coração de Deus, e na nossa pequenez, deixar que Ele acampe em nosso coração. Neste momento, não existe mais a barreira da palavra, a solidão e o silêncio se tornam presença e certeza mistérica de um encontro de amor.
Portanto, é a intimidade que nos faz captar e compreender o que Deus nos fala, não como voz, mas como presença. É na intimidade que codificamos esta presença de Deus e podemos afirmar: Deus falou comigo!
Oração e fidelidade
Se podemos captar a sutileza de Deus por meio da intimidade, do amor e da comunhão devemos conservar esta dádiva por meio da nossa fidelidade a Ele, por meio da nossa dedicação amorosa, respeito e compromisso diário com a nossa oração.
Ser fiel a Deus é amá-lo como todo o nosso coração, com toda a nossa alma e com todas as nossas forças (Dt 6,4), recordando que o seu amor é forte para conosco e a sua fidelidade dura para sempre (Sl 117/116,2), mesmo quando somos infiéis. Assim mesmo, Ele nos conduzirá ao deserto e nos falará ao coração (Os 2,16).
O nosso desejo e a fidelidade de Deus conosco nos tira o medo e nos faz arder o coração. Metaforicamente seremos como a mariposa hipnotizada pela luz. Sempre nos faltará algo... teremos sempre uma saudade de Deus até o dia que nós o veremos face a face.
O nosso gesto fiel se dá pela nossa oração cotidiana, a partir da meditação da Escritura, da oração pessoal e da celebração comunitária, sobretudo da Eucaristia. Essa nossa fidelidade se expressa em dedicar um tempo às coisas de Deus. “Quando fores rezar, entra em teu quarto, fecha a porta e reza a teu Pai em segredo, e teu Pai, que conhece todo segredo, te dará a recompensa” (Mt 6,6).
Portanto, oração é deixar que Deus penetre nossos mistérios, nossos segredos, nossa intimidade. Esta será nossa recompensa, porque ao deixá-lo visitar nossa intimidade podemos conhecê-lo.
A visita de Deus em nossa tenda nos provoca de modo que saímos a contar o que experimentamos aos outros e a não nos conformarmos de reter tal evento somente para nós. Não compartilhar a vida oracional e seus frutos é intimismo e é a morte da oração. Mateus 18, 19ss recorda-nos esta dimensão comunitária da oração:
“Também vos digo: se dois dentro vós, na terra, pedirem juntos qualquer coisa que seja, esta lhe será concedia por meu Pai que está nos céus. Porque, onde dois ou três estão reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles”.
Não esmorecer
Aliada a nossa intimidade e fidelidade está a perseverança. Sem ela acabamos por nos perder nas encruzilhadas do desânimo, da nossa displicência pessoal, das nossas desculpas ou das nossas noites escuras.
A perseverança nos impulsiona e nos dá dinamicidade à vida oracional, fazendo-nos trilhar nosso itinerário espiritual não como obrigação imposta, mas pela dádiva que é este espaço comunicativo com Deus. E por sê-la toca nas nossas profundezas impulsionando-nos a este encontro com o divino.
Em At 2, 42ss recorda-nos: “eles perseveravam na doutrina dos apóstolos, na vida em comunidade, na fração do pão e nas orações”. O texto que remete às primeiras comunidades cristãs nos chama também para que façamos o mesmo cotidianamente por meio da Escritura, do partir o pão eucarístico e o da nossa vida e da oração pessoal comunitária.
Perseverar na oração não deve ser um fardo para o cristão e sim algo que sempre o ajude a aprofundar sua vida íntima com Deus e com a comunidade de fé, com a força do Espírito.
A luz do Espírito
A Igreja sempre invoca o Espírito para iluminar os acontecimentos na vida litúrgica, eclesial, teológica, etc. Esta presença é sinal de renovação, de criatividade, de lançar-se na aventura dos caminhos de Deus e do impulso à comunidade orante.
Se a comunidade reunida experimenta a força fecunda que gera vida nova no seu coração, isto nos serve de inspiração para não nos esquecermos deste nosso companheiro que nos guiará nos caminhos da oração.
A presença do Espírito é fundamental na nossa vida orante. Invocá-lo ajuda-nos para que consigamos entrar nesta comunicação íntima com Aquele que nos quer sempre perto Dele. Ao mesmo tempo, fortalece a nossa fidelidade e sustenta nossa perseverança.
Este Espírito Santo suscitará em nós um “pentecostes”, fazendo-nos descobrir novas linguagens para os nossos métodos de oração e impelindo-nos a sair dos muros intimistas que nos fazem criar um “deus” a nossa imagem e semelhança e a não experimentarmos o Deus que nos criou à sua imagem semelhança para sermos criaturas anunciadoras do seu amor, da sua presença e da sua fidelidade.
loans in 24 hours3. Permaneça conosco, Senhor, pois cai a tarde e o dia já declina!
Postado em 16/03/11 ás 11h09
No mês de setembro a Igreja dedica-o à Bíblia, relembrando à comunidade cristã a importância para o cultivo da vida espiritual tanto individual, quanto comunitária. Neste texto, buscarei refletir sobre o encontro de Jesus com a comunidade de Emaús, quando partilhavam a Escritura.
Escrituras, comunidade e partir o Pão
O relato de Lucas 24, 13-35, conhecido como os discípulos de Emaús é belíssimo. Relata a esperança humana despedaçada, sem rumo, em busca de sentido e o reconhecimento pela comunidade da pessoa de Jesus.
Após o diálogo sobre os últimos acontecimentos, os discípulos são interpelados pelo Mestre: Insensatos e lentos de coração para crer tudo o que os profetas anunciaram! (v.25) A chamada de atenção é porque ainda não haviam assimilado em suas consciências o que de fato fora a vida de Jesus.
O texto é rico em detalhes, mas interessa-nos um momento crucial. Permanece conosco, Senhor, pois cai a tarde e o dia já declina. Entrou então para ficar com eles (v. 29).
A comunidade desiludida que ouviu a Escritura (=o próprio Cristo) ainda nãotinha tomado consciência plena da missão de Jesus. Ele era ainda o estrangeiro. Mas o coração ainda duvidoso, ardente, desconfiado, convida-o para permanecer.Foi no encontro relacional que os olhos deles se abriram para compreender o significado daquela realidade.
É da releitura que fazem, ouvindo de Jesus, de toda a caminhada da história de libertação e de salvação, começando por Moisés e pelos Profetas que entendem a Ressurreição de Jesus e a libertação de si próprios.
E é na Páscoa, que celebram juntos, depois de caminharem ao lado do Mestre, que chegam a reler este acontecimento, testemunhando a revelação de Jesus e à afirmação de que Jesus está mais vivo do que nunca.
Eles crêem que essa morte não foi em vão, mas caracteriza-se como um novo sopro vital. Re-significam a morte de Jesus e aquilo que parecia ser o abandono de Deus não o foi, pois a ressurreição era a prova de que Deus estava com Ele.
Não obstante, o mundo não O entendeu, porque foi capaz de condenar e matar o Justo, de tal maneira que Ele morreu como um blasfemo, alguém que compreendeu e falou erroneamente de Deus. Contudo, Deus-Pai se lembrou Dele e deu-Lhe o máximo de vida, de modo que coloca o mundo em julgamento.
Desse modo, a ressurreição é a última palavra de Deus sobre a morte. Renasce neles a esperança e estes não têm mais medo.
Os discípulos sentem a força do Espírito Santo e começam a refazer o caminho de Jerusalém à Galiléia, onde Jesus iniciou sua missão, e a reinterpretar sob um outro prisma, bem como a perceber a maneira como Jesus viveu.
Relêem a vida histórica de Jesus e percebem que Ele transformou a vida das pessoas. Agora, o Cristo pascal se revelava para eles na itinerância da fé e, paulatinamente, ia sendo compreendido à luz da vida que desceu à mansão dos mortos.
Assim, a ressurreição compromete a comunidade discipular. Eles renascem para uma vida nova e isto requer deles a maximização da fé-esperança e um olhar prospectivo, de tal modo que eles começam a falar de várias maneiras sobre Jesus, tendo como núcleo o evento pascal.
Repartir o pão e partir...
Os discípulos, isto é, a comunidade reconhece Jesus no partilhar do pão. Recorda a capacidade generativa de produção de vida, na Vida que não mais tem fim.
A partir daí, podemos perguntar: e nós, como estamos a praticar nossa partilha: cotidiano de vida – estudos, trabalhos, relações humanas e como reconhecer Jesus no partir do pão, se muitas vezes não há pão? Ou como reconhecer Jesus no pão que não é partilhado e fruto da exploração?
É preciso olhar os crucificados que a história tem produzido nas mais diferentes contradições históricas…os sem-pão que passam fome porque muitos o comem até regurgitarem. Frente a este escândalo é preciso voltar ao núcleo de nossa fé à Escritura que tornar-se-á letra morta se não for lida, rezada, meditada, contemplada.
Jesus pôs-se à mesa com eles, lugar da relação, tomou o pão, abençoou, depois partiu-o e distribuiu-o. Então seus olhos se abriram e o reconheceram; ele porém, ficou invisível diante deles. (vv. 30s). E o ápice é o reconhecimento do Senhor no partir do pão.
Partir tem duplo significado: o pão que se reparte, divide-se, parte em direção ao irmão, ao sem-pão, reforçado pelo verbo distribuir.
Agora o Mestre fica invisível, não precisam mais de uma suposta presença física. Quem o faz, perdeu as escamas dos olhos e tem a segurança de dizer: permaneça conosco, Senhor, pois cai a tarde e o dia já declina!
Este já foi capaz de romper com a escuridão, com todos os medos e reconhecer Jesus. No partir do pão os discípulos renunciaram ao projeto de serem privilegiados, e aprenderam do Mestre o Lava-pés (Cf. Jo 13, 1-17).
A volta para Jerusalém
O texto apresenta-nos, após o reconhecimento, um movimento: levantaram-se e voltaram para Jerusalém. Acharam os onze reunidos e disseram que o Senhor havia ressuscitado e aparecido a Simão (v. 34). Por que voltam a Jerusalém? No início do texto estavam a sessenta estádios (11 km) de Jerusalém, mantinham certa distância...
Voltar a Jerusalém significa superar a fé primeira, ingênua, e recuperar todas as esperanças perdidas, ir ao centro do poder opressor e reafirmar que a vida venceu a morte e reafirmar a fé na ressurreição.
Jerusalém matou os profetas e Jesus. Sub-repticiamente o texto quer afirmar que o Crucificado é o ressuscitado e que de modo algum, a ressurreição tira-lhe esta característica.
Imprime um caráter de realismo e densidade teológica ao texto, pois os discípulos ganham coragem de ir ao centro do poder da morte e de onde, com a força da comunidade, das Escrituras e da Eucaristia saem anunciando às nações, porque estão repletos, plenos do Espírito Santo (At 2,1-14).
Se cada um de nós fizer a experiência pascal dos discípulos de Emaús, nutrindo nossa vida espiritual com a palavra e com o partir do pão em comunidade, podemos dizer com confiança: Permaneça conosco, Senhor, nem tudo está perdido! Seremos sinais da sua presença transformadora de vida.
Entretanto, se o medo for maior do que a graça da ressurreição e o nosso rosto for sombrio, continuaremos a caminhar com ele na incredulidade e nem permitiremos que ele nos chame à realidade: insensatos e lentos de coração para c
2. Cuidados paliativos e espiritualidade: despedindo da vida sem dor e em paz
Postado em 22/02/11 ás 08h26
O texto que se segue é uma versão, em linguagem simplificada, de uma conferência que proferi no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, por ocasião do Dia dos Cuidados Paliativos, numa mesa intitulada “Comunicação, Espiritualidade e Luto. Aqui, determe-me-ei, somente na questão da espiritualidade.
O que são cuidados paliativos?
Em linhas gerais, os cuidados paliativos (palium = manto) são aqueles reservados a pacientes em um estágio de terminalidade de vida, quando não respondem mais às terapias médicas e a remédios, não podendo mais serem curados. Os cuidados paliativos não eliminam a causa da doença, mas aliviam os sintomas, a dor.
A estas pessoas, são reservados cuidados especializados e multidisciplinares, tais como acompanhamento médico, psicológico, social, espiritual, para que não sintam dores físicas, reelaborem suas angústias, medos e tenham conforto espiritual, entre outros e para que despeçam da vida dignamente e em paz.
Espiritualidade e cuidados paliativos
No campo dos cuidados paliativos, a espiritualidade é um palium – um manto. Se para a dor física, insuportável há os opióides, os lenitivos; para a dor psíquica ou da alma, não menos intensa que uma dor física: são necessários a acolhida, a presença, o silêncio e a espiritualidade.
Muitas vezes um paciente terminal, dependendo da sua doença, está ali no seu leito com os olhos fechados, em silêncio e parece não compreender nada mais. Outros, gritam por causa das dores, ainda que medicados.
A situação de terminalidade, ou de cuidados paliativos, requer dos cuidadores (profissionais da saúde, familiares, capelães, voluntários, etc) a aproximação solidária e compassiva.
Ao sentir-se coberto pelo manto da acolhida há uma transformação na vida de quem se encontra doente, com dor e, às vezes, na solidão. Da parte de quem acompanha, o olhar acolhedor do amor cuidador é importante.
Trata-se do encontro-acolhida do agonizante. Isto é um grande ato espiritual: aproximar-se do outro fragilizado, que sofre. Em outras palavras, é fazer o doente sentir-se pessoa, amado, acolhido e não que é um peso, mas presença agonizante, frágil com os seus medos, e que pode ser encorajado no momento mais crucial da vida.
Neste sentido, diante do mistério do sofrimento e da morte, muito mais que explicação, é necessária a presença.
O ser que amamos está exposto a todas as vicissitudes da vida e como participante da natureza, também da morte. Devemos permanecer juntos com este ser que amamos, independente das mudanças que ocorrerão diante dos nossos olhos, independentemente da minha angústia ao vê-lo definhar.
“A condição de fragilidade não pode tornar caduca a promessa de eternidade do amor mútuo” (Marcel, Gabriel. Il mistero dell’essere. Roma: Borla, 1987, p. 320-321), base do cuidado e da espiritualidade.
Seguindo Gabriel Marcel “Por um singular fenômeno, a outra pessoa se é assim interposta entre mim e a minha realidade, me faz sentir de qualquer modo estrangeiro a mim mesmo, não sou mais eu quando sou com ela.
Ao contrário, pode suceder que eu me renove interiormente, sentindo a outra pessoa presente; esta presença se torna agora reveladora, faz sim, isto é, que eu seja mais eu mesmo de quanto o serei sem ela” (Il mistero dell’essere, p. 189)
Do ponto de vista do mundo do enfermo e em cuidados paliativos, a pessoa enferma encontra-se em uma situação de desordem, de fragilidade. Encontra-se diante de alterações corporais, que afetam a imagem de si, trazendo a baixa estima, a dor.
Desse modo, os cuidados paliativos vêm como a possibilidade de reorganizar o caos, buscando colocá-la em certo estado de equilíbrio, dentro do possível. Todavia, talvez muito mais do que o corpo sofredor, dolorido que pode ser medicado, ali está uma alma angustiada, com suas interrogações, medos, incertezas, rancores, fracassos, bondade, solidariedade.
Nesse quadro, a espiritualidade torna-se um manto, um conforto, a possibilidade de resignificar a vida, no confronto com a finitude, ensinando a ars moriendi ( = arte de morrer).
A espiritualidade se apresenta como possibilidade de organizar o caos, confortar o paciente tirando-o da esterilidade provocada pela própria doença ou pelo declínio das próprias condições bio-físico-psíquicas e revitalizar a esperança.
Não se trata de esperança de melhoras físicas, mas interior, de enfrentamento paciente – não passivo – com o último momento da vida, quando o alfa e o ômega da existência humana se encontram, hora de confronto com o caos e de transformá-lo como possibilidade do encontro definitivo consigo.
Marcel afirma que o corpo é o nosso modo de ser no mundo (Il mistero dell’essere, p. 191). Na situação de cuidados paliativos, o corpo é quase uma ausência, um não-corpo, e a sua presença se percebe pela dor.
Numa dimensão interior, a espiritualidade vem como possibilidade de suportar a dor, fazendo a pessoa enferma mergulhar na verdade de si mesma, e de dentro de si, extrair da sua fragilidade, do seu caos, a força para se tornar corpo presente que se abre como metáfora da paciência impaciente para despedir-se da vida e partir em paz.
Outra função dimensão espiritual é a empática, sobretudo da parte dos que cuidam. Diante de mim, está um ser, uma presença que me provoca, que me angustia, que me interpela. No mistério do outro agonizante, emerge em mim uma pergunta pela vida, que se renova e que se definha e me faz tomar consciência de minha presença no mundo.
A espiritualidade é terapêutica para os profissionais da saúde, para a família e para o paciente. É importante, porque se trata de valores humanos, relações e recorda-nos que a história humana é uma história de salvação.
Salvar tem correlação com saúde. E saúde, compreendo vida humana que tem um sentido para além de um ato biológico.
Além disso, ajuda a amenizar os complexos de culpa: da culpabilidade dos profissionais da saúde porque se sentiram/sentem incapazes de salvar a vida; dos familiares que muitas vezes pensam não terem feito o máximo de si ao seu ente querido e ao doente de reconciliar-se consigo.
O encontro de rostos
O encontro profissional mutidisciplinar-paciente é sempre um encontro de rostos. O rosto dos médicos(as), enfermeiros(as), voluntários(as), religiosos(as) que traz em si a compaixão: aproximar, ver, cuidar, curar, dispensar cuidados, com o rosto agônico que traz a experiência de vida e que agora sofre.
Na linguagem de Emnanuel Lévinas, nesse encontro, “o ser que se manifesta assiste à própria manifestação e portanto faz apelo a mim. Esta assist&
1. Alguns elementos de reflexão acerca da espiritualidade contemporânea
Postado em 02/02/11 ás 10h58
Ao refletirmos sobre a espiritualidade contemporânea, podemos afirmar que o Concílio Vaticano II foi o grande responsável por apresentar caminhos novos e não se deve esquecer a presença do Espírito Santo e da História. No centro da História verificam-se presença, buscas, necessidades e aspirações do homem e mulher de hoje: “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). Desse modo, a espiritualidade contemporânea caracteriza-se pelo sintonizar-se com o Espírito Santo que está presente na História em vista de uma resposta a essas buscas e aspirações. Se o ser humano acolhe o Espírito e dá uma resposta positiva temos a espiritualidade. A espiritualidade é, portanto, a presença do Espírito na História.
Sinais dos tempos. Sinais de Deus
A espiritualidade contemporânea implica não fugir dos sinais presentes no mundo. Afinal, o que são estes sinais? São realidades que acontecem na História, na nossa sociedade de forma generalizada e freqüente, que caracterizam uma época e pedem uma resposta. Então, para captar tais eventos nos diferentes momentos históricos e naquilo negativo, às vezes, é necessário um espírito de escuta.
Para detectar os sinais e desempenhar a sua missão de Mãe e Mestra, “a Igreja, a todo o momento tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, às interrogações eternas sobre o significado da vida presente e futura e de suas relações mútuas (GS 4). Este é o processo de discernimento. Auscultar é verificar atenta e concentradamente sinais para discernir. Discernir significa separar ou penetrar na realidade dos sinais até a profundidade, fazendo acontecer uma seleção e uma conclusão: interpretar, articular, atualizar – tudo isto é feito numa cultura concreta. É nessa cultura concreta com profundo silêncio e humildade que se pode captar os sinais de Deus.
Mudanças de perspectivas
A publicação da Encíclica Ecclesiam suam (1964) – Os caminhos da Igreja abre novos horizontes. Nessa carta, Papa Paulo VI afirma que a Igreja deve caminhar dentro do mundo moderno. O Papa pede à Igreja que ela seja atual e atualizada. Convida-a verificar-se, a questionar-se, a discernir-se, a auto-examinar-se, converter-se. Nessa verificação, ele pede para que a Igreja se reforme e depois que se atualize e dialogue com o mundo moderno. Esse diálogo requer solidariedade compassiva.
Da parte dos teólogos, começam a fermentar as bases bíblicas do diálogo; a Trindade – que não é diálogo interno, mas transborda-se no Filho Jesus e, como ponto marcante, a Encarnação. A Igreja deve prolongar o diálogo trinitário com o mundo. A Igreja deve levar o Depósito Fidei (Depósito da Fé) ao mundo, dialogar com a realidade humana, com aqueles que acreditam em Deus, os que adoram ao Deus único e com os protestantes.
Como proposta, a GS 1 propõe a solidariedade compassiva, e a espiritualidade não pode abster-se deste diálogo com o mundo.
Averigua-se que o mundo está em constantes transformações e crises. A crise é sempre um caminho que dá nova configuração. Há a crise como descontinuidade de quem vai buscar a espiritualidade. Isso a levou a uma anomia.
Naquele contexto, as situações de guerra que o mundo atravessou dão uma configuração nova. Começa-se a reinterpretar o mundo, o ser humano e a Bíblia que passa a ser não somente um livro de especulação, mas também de oração. Pio XII afirma que era necessário continuar os estudos bíblicos, mas ensinar o povo a rezar com a Bíblia.
Há um acesso aos Padres da Igreja e uma busca da Lectio Divina (leitura orante). Surge o movimento Ecumênico, liderado pelo cardeal Mea.
No pré-Vaticano o movimento ecumênico dizia que a Igreja Católica era o centro. No Vaticano II, na Unitatis Redintegratio, Cristo é o centro. Todas as Igrejas devem voltar a Ele.
Uma espiritualidade engajada
Todos estes eventos ocorridos internamente dentro da Igreja, na sua tentativa de ler os sinais dos tempos e os sinais de Deus, faz surgir uma espiritualidade engajada, sensível, concreta que começa a refletir sobre as realidades terrestres e a propor uma nova realidade para a Igreja.
Teilhard Chardin afirma que o mundo tem uma santidade; Schileebeckx de que fora do mundo não há salvação e Karl Rahner Deus se autocomunica conosco. Outros teólogos como Yves Congar refletiam sobre a necessidade de reforma da Igreja; o papel dos leigos na Igreja e o ecumenismo e Chenu, o grande intérprete do tomismo afirma que a teologia é a fé com status de ciência nos ajudam a compreender a dimensão eclesial. Do lado protestante Jürgen Moltmann – Deus se compadece do ser humano e do mundo. Essas mudanças convidam o teólogo a ser cristão e a ser parceiro do ser humano.
Concluindo
As transformações mundiais em todos os níveis provocaram a Igreja para que se atualizasse e pudesse falar a linguagem do homem e mulher de hoje. Esta atualização trouxe grande contribuição para a vida espiritual dos fieis. De um dualismo sagrado e profano passa-se a perceber a ação de Deus que age neste mundo, o local que provoca o cristão a repensar e a reelaborar o seu agir convertendo-se a cada dia. A espiritualidade contemporânea não visa somente a realidade individual, mas também comunitária. E é nesse mundo – individual e comunitariamente – que o cristão nutre a sua espiritualidade, contribui com a transformação da sociedade e pode ler nela os sinais dos tempos e os sinais de Deus.
loans in 24 hours
