Aniceto Lizasoain Lizaso

MÁRTIR NO CORAÇÃO E NO CORPO

Aniceto nasceu em Iruñeta, Navarra, aos 16 de abril de 1877. Tinha aproximadamente 12 anos quando ingressou no Seminário Menor Redentorista de El Espino, com o desejo de ser padre. O pouco que se sabe desses doze anos anteriores à sua entrada no Seminário foi o que o pároco de Iruñeta conseguiu colher dos colegas de Aniceto ainda vivos em 1944, quando padre Lucas Pérez escreveu-lhe pedindo informações sobre a infância de nosso mártir: “Era um bom menino, obediente, piedoso, respeitoso com seus pais e os mais idosos, bom companheiro nos jogos, que eram sempre decentes, e sempre demonstrou muita vocação ao estado religioso”.

Podemos dizer que o irmão Aniceto foi o irmão dos dois martírios: o do coração e o do corpo. O primeiro foi devido ao fato de, tendo iniciado os estudos com o ardente desejo de ser sacerdote, ter sido chamado a desistir já muito próximo de alcançar a meta.

Fez a profissão religiosa como corista em 15 de outubro de 1896. Em seguida, foi para Astorga e iniciou os estudos maiores; cursou toda a Filosofia e grande parte da Teologia. Já bem próximo de conseguir seu sonho, veio a decepção: os Superiores lhe comunicam que, “por debilidade de cabeça”, não podia receber as Ordens maiores. Davam-lhe a opção de voltar para o mundo ou ser irmão coadjutor se quisesse permanecer na Congregação.

Em 20 de março de 1903 chegou a Nava del Rey. Na sua boa vontade de aceitar o que, humanamente falando, era um rebaixamento, descontrolou-se seu sistema nervoso. Temendo que a coisa piorasse, mandaram-no para uma temporada de descanso a um povoado onde seu irmão era pároco. Partiu em maio. Quando voltou em outubro, notaram que estava bem mais tranqüilo e, assim, podia continuar como irmão coadjutor.

O impacto, entretanto, foi tão violento que o acompanhou vida afora pelos trinta e três anos que ainda havia de viver. Ou seja, o martírio do coração só o deixou quando as balas de um fuzil lhe deram o martírio de sangue. O segundo!

Nas diversas comunidades por onde passou prestou excelentes serviços, pois era homem seguro, fiel, de boa índole e muito piedoso, e interessava-se por tudo o que de alguma forma dizia respeito à Congregação. Mesmo se tendo como certo que, por amor à vocação, se resignou à decisão dos Superiores, a idéia e o desejo de chegar ao sacerdócio nunca o abandonaram. Os Superiores não cederam porque o problema não havia sido levantado por eles, mas  diagnosticado por médicos.

Desde que saiu de Astorga, a Comunidade em que mais tempo residiu foi a do Perpétuo Socorro, em Madri. A  última vez que para ali foi destinado foi em 1923. E aí ficou até a morte. Sempre em constante atividade, boa vontade em tudo o que fazia, temperamento espontâneo e até alvoroçado em dados momentos, comunicativo e social, passava com facilidade da simplicidade à ingenuidade: assim era irmão Aniceto.

Quando teve de deixar o convento, devido aos distúrbios provocados pela revolução, irmão Aniceto passou as primeiras semanas na casa de dona Emília Alcázar. Segundo o testemunho de dona Emília, levava uma vida profundamente edificante, entregue à oração e à leitura de livros piedosos, sobretudo Prática do amor a Jesus Cristo, de Santo Afonso. Dedicou-se também a escrever suas memórias. Mas foram vinte ou mais as vezes em que essa casa foi objeto de vistoria durante os três anos que durou a guerra em Madri. Mais que compreensível então que se procurasse lugar mais seguro para ele.

Essas repetidas buscas e, por fim, a ordem dos Superiores convenceram-no a abandonar aquele abrigo e ir para a pensão de dona Maria Membiela, pessoa muito ligada aos Redentoristas. Logo que ali chegou, entretanto, também a pensão de dona Membiela começou a ser alvo de constantes buscas. Irmão Aniceto passa então para uma casa vizinha, de propriedade de uma russa, julgando que isso afastaria as vistorias. Mas foi justamente ela quem o entregou nas mãos dos milicianos. Passando eles pela rua, disse-lhes: “Tenho aqui um hóspede que ‘essas’ me entregaram, e deve ser um frade”. ‘Essas’ eram dona Membiela e sua sobrinha Arsênia.

Imediatamente os milicianos entraram e deram ordem de prisão ao irmão, que, entretanto, lhes pediu permitissem que fosse ao banheiro. Fez isso com a intenção de rasgar seu diário, pois podia comprometê-lo. Diante da longa demora do irmão, e ouvindo o barulho de papéis que se rasgavam, os milicianos arrombaram a porta e arrancaram das mãos do religioso algumas folhas de papel ainda inteiras, o suficiente para incriminá-lo. Entre elas, uma carta que guardava com muito apreço dirigida a ele pelo secretário de Afonso XIII.

Desta casa levaram duas vítimas, pois juntamente com irmão Aniceto detiveram um Cordemariano, o padre Portero. Dom Enrique Castillo, da sacada da pensão de dona Membiela, viu quando jogaram o irmão no carro, em mangas de camisa e com as mãos atadas atrás. Pouco tempo depois voltaram e D. Enrique ouviu-os dizer que já o haviam liquidado e tirado dele três mil pesetas que levava no bolso. Foi quando levaram presas também dona Membiela e sua sobrinha. Elas foram submetidas a vários interrogatórios e ameaçadas de seguir a mesma sorte dos religiosos. Nesse ínterim, a pensão ficou aos cuidados de outro Redentorista, o padre Eudaldo Sáenz, que ali estava hospedado e se fazia passar por sobrinho da proprietária. Teve arte para dissimular sua condição e não ser descoberto pelo faro dos “caçadores” da Frente Popular.

Não foi possível precisar a data de morte do irmão Aniceto. Juntando-se todos os dados levantados, pode-se dizer com bastante segurança que foi entre os dias 17 e 18 de agosto de 1936.

Irmão Aniceto manteve-se otimista até o fim. Aos que o visitavam nos últimos dias dizia: “Estou bem, já ofereci minha vida a Jesus Cristo”.

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