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Pe. Ronoaldo Pelaquin

Nasci no dia 25 de fevereiro de 1942, e até meus sete anos não me recordo de qualquer música ou de qualquer relação minha com a música. Foi então que minha irmã Teresa comprou um rádio e vitrola, daqueles de válvulas, que parecia uma cristaleira de tão grande e bonito que era. Os homens gostavam de ouvir, à noite, o “Reporter Esso”; desse programa eu me lembro bem da sigla musical de abertura. As mulheres, como sempre, preferiam as novelas, como aquela que durou dois anos, “O Direito de Nascer”. Os jovens, se gostavam de alguma coisa, devia ser do programa de calouros, programa dominical da Rádio de São João da Boa Vista, cidade onde nasci e vivi minha primeira infância. Para as crianças, não sei se havia algo especial no rádio. Só me lembro que eu ouvia música; a música brasileira da época, da década de quarenta. Não ouvia sentado e bonitinho não. Ouvia fazendo de tudo, fazendo lição de classe, brincando de figurinha, trabalhando no lenheiro do pai, ajudando a mãe na cozinha, ou desenhando na mesa da sala; eu gostava também de desenhar, além de ouvir música.

Mais do que do rádio, porém, eu gostava era da vitrola, com aqueles discos grandes, que hoje eu sei que é feito de vinil, e que tocavam em 78 rotações. Uma diferença entre o rádio e a vitrola era que eu tinha de ficar por perto da vitrola, para trocar o disco depois de cada música, porque em cada disco cabia uma só música. E como o dinheiro para comprar discos não era tanto, você pode imaginar como as músicas se repetiam! Daí que eu sabia tudo de cor.

Dizia minha mãe que eu cantava o dia todo. E que, quando cantava no quintal, que era meu lugar preferido de brincar, as vizinhas olhavam por cima da cerca para me ver cantar. Assim dizia ela.
Com nove anos, morando ao lado da igreja, comecei a ajudar missa. E então, meu cabedal de músicas, além daquelas dos discos, cresceu com as músicas de igreja. O que agradou mais minha mãe, porque aquelas dos discos falavam muito de amor.

Aos dez anos inventei de ir para o colégio, como se dizia. Era janeiro de 1953. Na véspera da partida, eu me lembro como se fosse hoje, fui ajudar, pela última vez, minha mãe a enfeitar o altar da igreja, igreja do Santuário do Perpétuo Socorro. Naquele tempo, como os padres rezavam missa todos sozinhos e na mesma hora, existiam muitos altares. E, para enfeitar todos os altares com flores, flores naturais porque plástico ainda não existia, eram muitas as senhoras devotas que ajudavam. Minha mãe enfeitava o crucifixo da entrada. Pois bem. Na véspera da partida, como estava contando, as tais senhoras devotas, que sabiam que eu gostava de cantar e que ficaram sabendo da minha partida, pediram que eu cantasse. E eu cantei. Cantei duas músicas, que não eram de igreja; eram da moda de então. A primeira foi “Índia”, de Cascatinha e Nhana, que fazia o maior sucesso. “Índia, teus cabelos nos ombros caídos...”. E a outra foi de despedida mesmo: “Adeus, adeus, adeus, cinco letras que choram, num soluço de dor...”

No dia seguinte eu chorei, durante quase toda a viagem, quase da manhã à noite, que foi o tempo que durou a viagem.

E acordei, pela primeira vez na vida, fora de casa, no seminário; Seminário de Santo Afonso. Como era costume, e eu fiquei sabendo depois, antes de se tomar café era preciso assistir à missa. Para mim não era novidade assistir à missa todos os dias, porque, como coroinha cheguei a ganhar um prêmio no final do ano por não ter perdido uma missa sequer durante todos os dias do ano de 1952. A novidade vem logo em seguida. Eu me assentei ao lado de um rapaz, maior que eu; eu era muito pequeno. Quando o padre entrou na capela, o rapaz, que se chamava Hélio, e que depois fiquei conhecendo com outro nome, Libardi, abriu na minha frente um livro grande, com as letras do canto que estavam cantando, e com uns desenhos que eu ainda não tinha visto, e que, depois, fiquei sabendo que era música; que era o jeito de se escrever música. O nome do livro era Harpa de Sião. Não pensem que tenho memória para nomes; acontece que depois, por quase todo o tempo de minha formação, nós tínhamos aquele livro aberto nas horas de missa. Por sorte aprendi logo a entender os desenhos musicais do livro.

Aos poucos me familiarizei com aquele jeito de ouvir música, olhando os desenhos, ou partitura. E eu me lembro de um caso. Conheci um menino de 10 anos, que entrou para o seminário um ano depois de mim e que me encantava. Não com a pessoa dele que não tinha nada de anormal, a não ser o fato de ser um pianista. Dez anos e já pianista! Ele com dez e eu com onze. O nome dele era Celso. Eu me sentava a seu lado no piano, e como já sabia ler partitura, passava as páginas para ele, que com aquelas mãozinhas pequenas, de dedos longos, executava peças incríveis como as Rapsódias de Liszt. Mas, uma peça mais simples era a que mais me deliciava, “Le Lac di Come”. Esse nome me traz até o som que eu escutava então, e a dança ágil e cadenciada de seus dedos no teclado. A música que descrevia o Lago de Como, na Itália, ficou gravada na minha memória como saudades. Quando fui morar na Itália, não sosseguei até que conheci o tal lago. Tive a felicidade de ver o encanto do local, e a razão por que o músico conseguiu criar uma peça tão simples, elegante e linda. Gostei do lago como tinha gostado da música.

Eu estava falando, antes, da partitura que o Hélio, hoje padre Libardi, colocou na frente de meus olhos, no meu primeiro dia de seminário. Naquele momento fiquei só curioso. Mas logo, estudando música, fiquei sabendo o que era uma partitura musical; comecei a aprender e a gostar para valer; tanto que as aulas de que eu mais gostava eram as aulas de música, e o professor com o qual eu tinha mais jeito de conversar era o professor de música, Padre Délcio Viess. Eu tirava sempre notas boas, e ficava orgulhoso.

Ia me esquecendo de contar que, um tempo depois que entrei para o seminário, pediram para eu cantar uma música no palco, numa festinha de homenagem a alguém de que não me lembro. Foi a primeira vez que cantei acompanhado de violão; e a música era: “Minha mãezinha querida, mãezinha do coroação, te adorarei toda vida...” Eu cantava e pensava em minha mãe, de quem eu mais sentia saudades na vida.

Em 1954, teve início o seminário na Pedrinha, e eu fui um dos fundadores. Por ser repetente, e mais velho que os que chegavam, recebi encargos como de chefe, de sacristão, e de maestro. Maestro era o que puxava os cantos na missa. E eu puxava.

Mas voltando ao Pe. Viess... cheguei a ser seu braço direito nas aulas de canto, ensaiando as vozes para o coral, e depois substituindo-o na direção do coral, que naquela época era grande e famoso. Antes, devo contar outra coisa que me dá orgulho, e isso aconteceu em 1955, quando Dom Macedo foi sagrado bispo. O Pe. Viess escreveu um Te Deum, e me escolheu para fazer o solo. Eu tinha, então, 12 anos. Quando comecei a cantar o “Te Ergo Quasemus”, lá no alto do coro, dizem os que viram e ouviram, que na igreja se fez um grande silêncio, e o povo virava a cabeça para ver quem cantava lá em cima. Eu não vi, porque estava vendo só a partitura da música, onde eu já sabia ler os desenhos.

E assim a música começou a fazer parte da minha vida. Durante os três anos de colegial eu fazia parte da “Schola Cantorum”, um sexteto seleto de cantores que já tinham leitura musical, e que tinham por obrigação cantar, todos os domingos, as partes móveis da missa. Naquele tempo as missas eram em latim, e, em latim, o único gênero musical permitido era o Gregoriano, ou Canto Chão. Durante a semana, nós ensaiávamos os cantos, que não se repetiam; toda semana quatro cantos novos. E nós dávamos conta. E gostávamos.

Outra coisa de que nós gostávamos e que tirava muito tempo da gente eram as festas anuais, quatro festas anuais, com teatro e com a apresentação do coral. Desse também eu fazia parte, e dava uma mão ao maestro, Pe. Viess, que ficava nervoso com frequência, a ponto de agredir a estante, para não agredir o cantor mais próximo. Cantar num coral a quatro vozes não é fácil, mas dá uma grande alegria, além de educar para a delicadeza, para o domínio de si, e para a cultura musical.

Falando em cultura musical, eu me lembro como gostava de ouvir óperas. Os discos em 78 rotações já estavam passando para 33, o que facilitava, uma vez que as óperas são verdadeiras obras, longas, mas muito bonitas. Não me recordo quantas vezes ouvi a ópera “O Guarani”; foram muitas, de cabo a rabo, ou “Da Capo al gran Finale”. Esse era um dos meus passatempos preferidos nos dias de recreio, dias livres.

Meu tempo de seminário menor passou, os encantos iniciais também passaram com a chegada do Noviciado na Congregação do Santíssimo Redentor. Mas nem por isso a música perdeu força em minha vida. Continuei fazendo parte da Schola Cantorum, e a ensaiar semanalmente as partes móveis da missa dominical.

Agora eu já tinha voz de adulto. E comecei a me preocupar com impostação vocal. Esforçava-me que esforçava, fazia exercícios e mais exercícios para impostar a voz de tal modo que não se cansasse, que tivesse mais penetração e potência. Mas não conseguia, até que um dia, sem mais nem menos, durante a recitação das Horas Litúrgicas, num momento de canto, senti que a voz soava bem no céu da boca; e de lá nunca mais saiu. Quer dizer, fiquei com a voz impostada. Não aquela impostação clássica, como vim a aprender mais tarde no conservatório de música, mas uma impostação tranquila que me valeu até mesmo durante toda a minha vida de missionário.

Cheguei ao Seminário Maior, e lá a preocupação seria bem outra que arte e música; seria filosofia e teologia. Mas confesso que não me empolguei tanto com esses estudos quanto me empolgava antes com música. Esse foi o período menos significativo em minha vida quanto à música. Cantava no coro oficial do seminário, participava da Schola Cantorum e de um coral folclórico que se chamava Uiraxuê. Ouvia muita música erudita. E só.

Os anos se passaram, e quando me ordenei padre fui indicado como educador no Seminário Santo Afonso. Aí então voltou à tona meu gosto pela música. Agora não mais como deleite, mas como ofício. E uma vez que era ofício, não bastava apenas minha cultura musical para ser um bom professor. Foi então que resolvi cursar o Conservatório Dramático Musical de Pindamonhagaba. Foi bom e interessante! Quatro anos de estudos, onde era obrigado a solfejar como parte do curso. E, como parte interessante, os alunos de canto formavam um coral que aumentava nossa carga horária, mas divertia. Uma vez, inclusive, apresentamo-nos no Teatro Municipal de São Paulo, num concurso de corais. Uma experiência que valeu a pena.

Agora vem a razão pela qual eu passei a compor música. Naquela época, a igreja vivia os primeiros efeitos e consequências do Concílio Vaticano II, na pastoral sobretudo, e na música. No Seminário Santo Afonso, onde eu era responsável pela Educação Artística e pela música, havia um conjunto musical chamado Christ’Boys, formado de guitarras, contrabaixo, bateria e órgão eletrônico; ótimos aparelhos adquiridos pelo Padre Lauro Masserani. Uma novidade cara na época, mas que, infelizmente, era usado apenas para festinhas, shows e casamentos; menos para as liturgias. Uma das razões era que a Igreja, até então, não admitia na liturgia outro instrumento que o órgão. E outra razão era que não existiam músicas adequadas, renovadas ou criadas para esse tipo de músicos. Os compositores católicos, que eram poucos, estavam como que engatinhando nas experiências musicais pós-conciliar. Foi então que eu parti também para experiências. Comecei com músicas de igreja para shows missionários. Pela aceitação dos alunos e do “cala-consente” dos professores, introduzi os Christ’Boys na igreja. Compus uma primeira missa “Pastor do Tempo”, com nome e finalidade de inovação. O ritmo e o volume do som foi o que mais chocou no início. Mas a situação de novidades na igreja favoreceu; não só favoreceu mas até pedia novas experiências. Aí resolvi fazer experiências as mais diversas. Juntei música antiga, provençal europeia, com cirandas brasileiras e deu na missa “O Menino e sua Mãe”, que as Paulinas resolveram gravar imediatamente, e ao vivo na capela do Seminário. Avancei mais na música brasileira explorando ritmos populares e folclóricos como maracatu, coco, samba, marcha-rancho, baião etc., aparecendo então a missa Pastor das Águas Vivas, que também foi logo gravada em LP pelas Paulinas com grande apreciação dos que estavam mais envolvidos na pastoral popular. Muitos ouvidos católicos recusaram as experiências. Mas acredito que até hoje, passados quarenta anos, a missa “O Menino e Sua Mãe” ainda é muito cantada no Natal, como “Pastor das Águas Vivas” é cantada na Páscoa.

É preciso fazer uma pausa aqui, antes de terminar estas lembranças, e trazer o nome de uma pessoa que foi decisiva em minha vida de compositor, o Padre lazarista Lauro Palú. Acredito mesmo que, se não fosse ele, talvez eu não teria tido coragem de compor nada. As três primeiras missas que compus, e que foram aqui citadas, foram feitas em cima de letras dele. A gente se dava muito bem na amizade e na composição. Suas letras eram diferentes das letras tradicionais da Igreja; suas ideias eram mesmo surpreendentes e estimulantes. E, mais que isso, seu entusiasmo sacerdotal e musical davam-me liberdade de ação e composição. Foi ele também que me incentivou a interpretar minhas músicas, coisa que eu não fazia até então. A ele minhas lembranças alegres como aquelas que se davam no grande auditório do Seminário Santo Afonso, durante peças teatrais musicadas por mim em cima de suas letras; ou como aquelas mais divertidas no Barracão de Festas, com fogueiras e quermesses, alimentadas com nossas músicas e os Chrts’Boys. Foi bom! Muito bom! Deus lhe pague, Lauro.

O tempo foi passando, as necessidades e a maturidade musical exigindo novas criações. Foi aí que passei a musicar salmos para uso de nossos alunos. Inicialmente sobre textos do Pe. Jocy, com sua leitura poética dos salmos. Depois com pensamentos próprios para reflexões e comemorações dos alunos.

E depois... veio de tudo e a pedido, pedido para outras missas, para celebrar os santos padroeiros e as várias invocações de Nossa Senhora, também padroeira de paróquias e dioceses; para homenagear padroeiros de escolas; músicas de ocasiões de todo tipo, até mesmo de samba enredo de carnaval.

A música passou a ocupar demais minha cabeça, a ponto de não ter sossego interior, o que me levou, por um tempo, a não escutar rádio nem toca-fitas, nem vitrolas de qualquer tipo. Foi uma pena, mas era preciso!

Não posso terminar esse longo artigo sobre a música em minha vida sem uma consideração necessária.

Tenho recebido, por parte de amigos e confrades, o título de “músico”. Muitas vezes tenho sido apresentado aos amigos de meus amigos como Padre Músico, Padre Cantor. Quanto ao fato de cantar, digo com toda a sinceridade que não sou “Padre Cantor”. Sou padre que canta quando as necessidades pastorais exigem, e nada mais. Quanto ao título de “músico”... não posso dizer nada porque é muito difícil dar uma definição a essa palavra músico. De acordo com o dicionário, músico é aquele que exerce a arte da música, aquele que trabalha com música, aquele que executa música em um instrumento ou numa orquestra... Quer dizer que se trata de um termo genérico que inclui uma ampla categoria de gente. Nesse sentido posso dizer que sou músico porque trabalhei com música em quase toda a minha vida. Quanto ao fato de executar música num instrumento ou orquestra... nesse caso não sou músico porque nunca tive coordenação motora suficiente para qualquer instrumento musical. Conheço toda a teoria musical e harmônica, conheço toda a história da música, como a técnica dos vários intrumentos, mas uso apenas do teclado o suficiente para compor, e compor linhas melódicas com um mínimo de harmonização exigida pela arte. Essa é a razão por que escrevo só a linha melódica de minhas composições como registro necessário para não se perderem. E outra consideração para você que conhece mais de uma composição minha. Você já deve ter notado que meu estilo de composição ou minha linha melódica são consequência do período de minha primeira formação musical, ou seja, refletem a música popular brasileira dos anos quarenta e cinquenta; das músicas alemãs, uma vez que as músicas da Harpa de Sião eram de procedência alemã; e do gregoriano, que você pode sentir nitidamente em várias composições minhas. Essas tendências todas unidas a minha pessoa, originaram esse meu jeito de fazer música, que agrada de preferência aos mais antigos. O que agrada também a mim, e não tenho outras pretensões.

Para concluir, fico feliz quando alguém diz que gosta de minhas músicas. Fico mais feliz ainda quando sei que elas são aproveitadas com gosto nas várias igrejas e paróquias do nosso Brasil. Agradeço a todos e de modo especial a Deus Nosso Senhor, que me deu o gosto e o dom da música, coisa divina.

Pe. Ronoaldo Pelaquin