Por Pe. Márcio Fabri dos Anjos, C.Ss.R. Em Campanha dos Devotos

A corrupção é parceira da desigualdade

Faz tempo que todo mundo sabia que a corrupção andava pelos meios políticos e também manchava outras relações profissionais, empresariais, comerciais. Hoje ela tem mais evidência política e parece que cresceu muito nos últimos tempos.

O que a gente talvez não imaginava era o problema de segurar seu crescimento e conter seus desmandos. Hoje os sinais da corrupção aparecem escancarados em nossa frente e não conseguimos um jeito eficiente de a enquadrar. Por que será que isso é tão difícil?

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É que a raiz da corrupção é profunda e contém muitas ramificações escondidas. A principal delas é a desigualdade entre as pessoas. A desigualdade é uma grande corrupção que passa despercebida. Corrompe o princípio fundamental sobre a necessidade que temos da ajuda mútua em nossas limitações e diferenças. Pois nossas fragilidades e diferenças são transformadas em chance de lucro naquilo em que os outros se acham mais fortes. Com isso corrompemos os sistemas da confiança em nossos relacionamentos, corrompemos nossas esperanças, e pode esquecer a tranquilidade e a paz na vida.

A corrupção se instala na sociedade de tal modo que o sistema corrupto em que vivemos nos parece normal. Transformamos a desigualdade em leis que nos regem. Assim é fácil de entender por que alguém recebe R$ 5.000 como simples auxílio moradia achando que é ético porque é legal. Mas a ética passa longe. Outros recebem 3 vezes menos do que isso, tendo que trabalhar um mês inteiro. A desigualdade dá ao corrupto poderoso inteligentes advogados que sabem como livrá-lo da prisão, enquanto as prisões estão cheias de gente que passa anos esperando para a primeira avaliação de sua acusação por questões bem menores.

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Isso significa que a desigualdade se organiza para defender sistemas de corrupção que se instalam na sociedade e se legalizam. Na hora de fazer o processo de contenção e reversão dos sistemas corruptos, as pessoas que decidem as mudanças são em grande parte as mesmas que vivem de privilégios e estão interessadas na continuidade dos sistemas. Do outro lado, se corrompe a cabeça e o coração de todos nós. Assim um esportista pode ganhar em um ano o que a gente não ganha em dez vidas de trabalho; mas assim mesmo torcemos numa boa achando que tudo isso é normal.

A conclusão não é de forma alguma detestar políticos, juristas, esportistas e tantas formas de serviços. Todos são necessários ao nosso bem viver. Mas precisamos ao menos sonhar com relações mais igualitárias e recíprocas. Li há pouco que na Noruega um juiz do Supremo vai para o trabalho de bicicleta. Essa não é uma proposta para o Brasil. Mas é para dizer que a corrupção é parceira da desigualdade. E principalmente para dizer que a superação de nossas desigualdades é um sonho possível. Um sonho de Deus para nós.

Artigo publicado na Revista de Aparecida edição nº194 (maio/2018)

1 Comentário

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MILTA DE MIRANDA comentou:

Hoje me sinto mais fortalecida para dizer não ao sistema que desiguala e cria sociedade pobre e muitas pessoas excluídas pelo sistema econômico e social instalado, pela forma da comunicação, da justiça que começa a """punir""" corruptos, isso nos alenta para ter coragem de falar, denunciar, e.... saber votar
meu cordial abraço. Parabens pela grande iniciativa

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