03/02/12 - TRATAMENTO EM MASSA
Postado em 03/02/12 ás 09h15
Imitando o exemplo de países que se uniram às indústrias farmacêuticas e aos empresários para combater doenças antigas e negligenciadas existentes em regiões pobres do mundo, o Brasil vai adotar tratamento em massa de infecções parasitárias. Especificamente, três situações serão enfrentadas: de pacientes com tracoma, helmintíase e esquistossomose. E com nova estratégia. A todos que estão em risco nas regiões mais afetadas serão dados remédios, sem qualquer exame prévio para confirmar a contaminação.
O secretário de vigilância do Ministério da Saúde justifica o modo apressado de agir, dizendo que não dá para tratar um problema desses, como se estivéssemos na Finlândia. Ele acrescenta que hoje, em condições ideais, pelo menos 4 consultas são feitas até que a pessoa com sintoma de vermes no intestino seja medicado. Por falta de condições de aplicar o mesmo processo em lugares pobres e atrasados, o paciente fica sem o cuidado necessário. Em outros países em desenvolvimento, o tratamento em massa é praticado faz tempo.
O aspecto essencial em toda essa questão não pode ficar esquecido: doenças parasitárias estão ligadas à falta de saneamento básico, à carência de água tratada e à omissão no combate à pobreza. Dar remédio rapidamente sem que sejam mudadas as condições de vida dos pacientes é deixar de transformar a realidade. É evidente que cuidar da saúde exige pressa em determinadas circunstâncias, mas não dispensa o ataque às causas das doenças. Repetir o óbvio a esse respeito vale como acusação aos responsáveis pela saúde pública
02/02/12 - O FIM DA POBREZA NO BRASIL
Postado em 02/02/12 ás 11h19
Os presidentes da República das últimas décadas foram explícitos em assumir como prioridade do governo o fim da pobreza no Brasil. E, justiça seja feita, as iniciativas tomadas surtiram efeitos, o que não quer dizer que o problema ficou menor. O desafio continua e há muito por fazer. Pesquisas e estudos ajudam a ver a realidade e mostram que para extinguir a classe E, a mais baixa na escala social, é preciso mexer no perfil dos seus membros de modo direto e com urgência.
A classe E, formada por 7 milhões de brasileiros em situação de extrema pobreza, se identifica assim: a metade dos seus membros têm até 15 anos de idade; um terço deles são analfabetos; 66% estão no Nordeste; e 40% vivem no campo. Detalhe: a região Sudeste, a mais rica do país, tem 12,5% deles. A receita para mudar esse quadro é conhecido: universalização do ensino básico, o que já parecia resolvido; e investimento em programas sociais. Parece fácil atingir essa parcela da população e acabar com o problema.
Mas não é tão simples assim. Novo modo de vida tem acontecido, porém lentamente, à medida em que programas sociais, aumento do salário mínimo e crescimento econômico fazem parte da vida dos mais pobres. Tais fatores não superam todas as dificuldades sem a necessária mudança que virá pela educação, pela adesão a novos hábitos, pela transformação cultural. Estudo começado e continuado, profissionalização, emprego ainda são conquistas que outras classes buscam. Vai demorar para os saídos da classe D chegarem lá.
01/02/12 - ATAQUE CONTRA DOENÇAS NEGLIGENCIADAS
Postado em 01/02/12 ás 14h17
Confesso que eu não conhecia as DTN, Doenças Tropicais Negligenciadas. Não pelo menos com esse nome. Elas são mais facilmente identificadas se chamadas de Doença de Chagas, hanseníase, esquistossomose, entre outras. Pois não é que treze das maiores indústrias farmacêuticas do mundo, o Banco Mundial, alguns governos e empresários se uniram para um grande ataque contra essas doenças. Elas atingem pelo menos 1 bilhão de pessoas, a maioria das regiões mais pobres do nosso planeta, onde faltam saneamento, água e comida.
A iniciativa tem a chancela da Organização Mundial da Saúde que vai dar as diretrizes para a ação conjunta. Juntos, os parceiros farão um investimento de U$785 milhões para o desenvolvimento e a pesquisa de novos medicamentos, além de ajuda nos diagnósticos e na distribuição de remédios para os doentes. Duas observações necessárias: O nome correto desses males deveria ser apenas Doenças Tropicais. O sobrenome “Negligenciadas” refere – se às suas vítimas que estão historicamente abandonadas.
Segunda observação necessária: de um lado, é louvável a iniciativa das multinacionais de medicamentos que em geral fazem produtos rentáveis, como os indicados para queda de cabelo ou emagrecimento e agora investem em algo para os mais abandonados. De outro lado, porém, suas pesquisas não são em vão porque lhes interessa que os habitantes de países pobres se desenvolvam e ampliem o mercado para seus produtos. No mundo capitalista é assim mesmo: até salvar vidas ganha a conotação do lucro futuro.
31/01/12 - A BAIXA CONSCIÊNCIA POLÍTICA
Postado em 31/01/12 ás 13h58
É comum se dizer que o brasileiro, em rodas de conversas em ambientes descontraídos, gosta de falar de política e de futebol. A afirmativa parece condizer com a realidade, embora outros assuntos também façam parte das prosas em rodas sociais de todos os níveis. Mas nas atitudes pessoais nota – se uma contradição: conversar sobre política não significa participação nem comprometimento diante das responsabilidades no cuidado com a coisa pública. Parece que a maioria das pessoas se contenta em falar mal dos políticos.
As eleições, principal manifestação do regime democrático e que acontecem a cada dois anos, tem participação expressiva porque o voto no Brasil é obrigatório. Mas o processo de escolha dos representantes deixa muito a desejar, principalmente quando se trata de escolher os membros do poder legislativo. O interesse efetivo de conhecer candidatos é inexpressivo. A compra e venda de votos é bem maior do que se tem notícia. A omissão diante de desmandos de governantes reafirma a todo momento posturas passivas e anti cidadãs.
Efeitos da baixa consciência política são conhecidos. Exemplos: a carência de lideranças e de renovação dos quadros de candidatos aos cargos, mais uma vez confirmada pelas eleições municipais desse ano. A insistência em manter o voto obrigatório, o que prova o medo do não-comparecimento dos eleitores por falta de interesse. Educação política alcança se na família, na escola, nas comunidades sociais e religiosas, na prática da cidadania, no exercício da responsabilidade pública, na vigilância sobre os governantes. Mãos à obra, pois.
27/01/12 - O JOGO DO PODER
Postado em 27/01/12 ás 11h17
Quem tem dificuldades em acreditar nos políticos ou quem não gosta de acompanhar o mundo da política terá mais uma razão para isso se leu nos jornais o seguinte: “Para manter afilhado, deputado do PMDB desafia Dilma’. Como é fácil notar, o fato mostra como se dá o jogo do poder entre os vencedores nas urnas. O governo, ou seja o executivo, precisa dos partidos para aprovar seus projetos no Congresso e precisa dos aliados até para ganhar a eleição. No rateio dos ministérios e cargos, não faltam cobiças nem desavenças.
O fato tem como personagem o deputado Henrique Alves, do Rio Grande do Norte, líder da bancada do PMDB na Câmara. Ele desafiou o executivo, isto é, a presidente, a demitir o afilhado que colocou como Diretor Geral do Departamento Nacional de Obras contra a seca. Trata–se do Sr. Elias Fernandes, responsabilizado no relatório da Controladoria Geral da União, pelo desvio de R$ 192 milhões no seu departamento. O deputado não queria saber do seu apadrinhado ser demitido nem do PMDB perder o posto.
O discurso do deputado foi rude: “O governo vai brigar com metade da República? Com o maior partido do Brasil, que tem o vice-presidente, 80 deputados, 20 senadores. Vai brigar por causa disso?” E cobrou demissões de membros de outros partidos por acusações igualmente pesadas. Ainda bem que a presidente, que já fez alguma faxina em ministérios, cortando acusados de corrupção, demitiu o apadrinhado do deputado. Até quando o critério para preencher os cargos não será a competência e a decência, mas ser de tal partido?
26/01/12 - INTERNAÇÃO OBRIGATÓRIA
Postado em 26/01/12 ás 11h50
O senso comum prevalece na pesquisa feita pelo Datafolha sobre a internação obrigatória dos viciados em crack. Nove em cada dez consultados entendem que os dependentes devem ser internados para o tratamento, mesmo que não queiram. A lei, de 2001, que trata de doentes mentais também segue a mesma indicação do bom senso, exigindo, porém, a recomendação de um médico e que o fato seja comunicado ao Ministério Público. São cuidados mais que razoáveis para se evitar abusos.
O tema da internação obrigatória ganhou destaque com o combate ao crack, promessa de campanha da presidente Dilma, que começou na cracolândia, em São Paulo, e teve atuação da Polícia Militar. O ministro da Saúde defende a internação involuntária e o faz com o apoio de psiquiatras. Já, o Conselho Federal de Psicologia é contra por duas razões: por se confundir o recolhimento forçado dos viciados com tratamento. E por se fazer da internação um ato de limpeza das ruas da presença constrangedora dos dependentes.
O tema é polêmico e os argumentos nem sempre são racionais, sobretudo quando a questão diz respeito à liberdade, direito sagrado da pessoa. A forma de se resguardar o bom senso é fazer distinções. Como: internação obrigatória não é para todo viciado. Deve se restringir aos que estão na fase aguda, em que se perde a condição de analisar a própria vida. E mais: a duração deve ser estabelecida, entre duas e quatro semanas, como em geral se recomenda. E ainda: buscar a adesão voluntária ao tratamento. Sempre o que interessa é a recuperação do dependente.
25/01/12 - O FIM DAS SACOLAS PLÁSTICAS
Postado em 25/01/12 ás 15h54
Chega ao fim o uso das sacolas plásticas nos supermercados do Estado de São Paulo. Elas serão substituídas por outras cuja decomposição é mais rápida e causam menos prejuízo ao meio ambiente. Trata – se de iniciativa louvável, de alcance pedagógico, embora esteja longe de significar uma revolução ecológica. Além disso, a troca de recipiente para transportar os produtos tem um custo maior a ser pago pelo consumidor e tem outras implicações. O desemprego nas empresas produtoras da sacola vilã, por exemplo.
A substituição será feita por sacolas biodegradáveis. Elas podem passar pelo processo de compostagem, que consiste na decomposição do material orgânico e que produz fertilizantes para a agricultura. A troca das sacolas deve fortalecer a indústria brasileira de compostagem, hoje a mais atrasada das cadeias de reciclagem. Também é preciso dizer que no lugar do plástico entra o milho, produto do qual sairão as novas sacolas. Trata – se de usar derivado de um alimento para transportar outros, com o custo que isso acarreta.
É bom conhecer os vários aspectos de iniciativas ligadas ao meio ambiente para impedir que elas sirvam de oba-oba de grupos que mostram apenas um lado da realidade. Há muito a se mudar na cultura e no modo de agir a favor da ecologia, mas isso só será possível com a reeducação por que devem passar várias gerações de brasileiros. A troca de sacolas de supermercados não pode ser um ato isolado cuja conta o consumidor até paga desde que force o poder público e os maiores responsáveis pela destruição da natureza a fazerem muito mais.
24/01/12 - A CONTINUADA LUTA PELA TERRA
Postado em 24/01/12 ás 12h20
Fazia algum tempo que fatos ligados à continuada luta pela terra não ganhavam destaque nacional, o que pode dar a falsa impressão de que problemas de ocupação/invasão de terras acabaram. Lógico que não acabaram nem existem apenas em lugares afastados dos grandes centros. A reintegração de posse de uma área de 1 milhão e 300 mil metros quadrados, em São José dos Campos, cidade de destaque no interior de São Paulo, prova que muito se tem a fazer em relação à posse e ao uso da terra também em regiões desenvolvidas.
O “quase” bairro do Pinheirinho tem ruas, quadras, igrejas e praça, resultado da iniciativa de cerca de 6 mil moradores que ocuparam o imenso terreno em 2004, quando foi decretada a falência do grupo Selecta do conhecido e problemático investidor Naji Nahas. Houve pedido de reintegração de posse, mas a ordem não foi cumprida. Em
Uma disputa jurídica entre magistrados estaduais e federais que aumentou a expectativa dos moradores pôs mais lenha no embate. Articulação de reação se fez sentir na semana passada que levou grupo de homens a formar pequeno exército, armados de porretes, escudos de latão e capacetes de motociclistas à espera da polícia. Cenário de guerra apontava para confrontos. A invasão foi inesperada na madrugada de domingo. Felizmente não houve combate violento. Mas ficaram pela cidade sinais da luta pela terra que ainda terá outras batalhas.
20/01/12 - JOVENS APOSENTADOS POR INVALIDEZ
Postado em 20/01/12 ás 10h24
Não há novidade na informação, triste e desagradável, de que a invalidez por acidente de trânsito cresce de modo alarmante no Brasil. Em 2005, eram 31 mil casos. Em 2010, foram 152 mil. Em 2011, em nove meses, já eram 166 mil. Também não há novidade no fato de que a maior parte dos desastres envolve jovens em idade produtiva, o que significa prejuízo representativo para a Previdência Social. Ou seja, para todos os contribuintes. Nem é preciso dizer, ainda, que a maioria dos acidentados – 70% dos casos em 2011 – usava moto.
Óbvio que das estatísticas, a menos dolorosa é a econômica, uma vez que invalidez ou morte acarretam sofrimentos que não podem ser medidos só em dinheiro. As explicações para a disparada nos acidentes de trânsito são conhecidas: aumento da frota de carros, cujas vendas chegaram a mais de 2 milhões e 600 mil no ano passado; aumento da frota de motos que triplicaram nos últimos anos. Além, evidentemente, da constante irresponsabilidade de motoristas e de motociclistas que não obedecem à lei.
Entre as preocupações diante do problema, que só tende a se agravar, destaca – se a necessidade absoluta de políticas de trânsito adequadas às novas realidade. E mais: não interessam teorias e hipóteses a respeito do assunto. Interessam atitudes corajosas em aplicar medidas duras para punir e reeducar condutores de carros e de motos. A demora em tomar iniciativas desse tipo torna as autoridades igualmente responsáveis diante desse modo de matar e de morrer.
19/01/12 - OS CUSTOS DA SAÚDE NO BRASIL
Postado em 19/01/12 ás 16h13
Embora a Constituição brasileira garanta que a “saúde é direito de todos e dever do Estado”, as famílias gastam mais que os governos nessa área. O fato implica na constatação dolorosa, mas real de que os custos da saúde pesam duplamente sobre os brasileiros: pelos impostos que pagam e pelo gastos particulares que são obrigados a assumir para cuidar de si e dos seus. Os dados disponíveis são de 2009 e mostram que as famílias gastaram 27% mais que a administração pública, ou seja, que os governos federal, estadual e municipal.
O padrão de financiamento da saúde no mundo indica que os cofres públicos bancam 70% do total de despesas, ficando 30% para particulares e para outras fontes de recursos. No Brasil, os governos cobrem apenas 43,6% dos custos. Em termos de investimentos, por aqui também há defasagem. Em países avançados, os gastos estão acima de 11% do PIB; no Brasil eles chegam a 8,4%. Por mais, pois, que se propague em campanhas eleitorais e nos feitos dos governantes aumento de dinheiro e melhoria dos serviços, a defasagem é um fato.
Os sofrimentos de boa parte da população em ser atendida pelas instituições públicas estão longe de ter fim. Reportagens da imprensa mostrando casos dolorosos em vários estados do país ajudam a resolver pontualmente as carências sem que a estrutura seja mudada. Nem é à toa que as críticas concentram - se na falta de gerenciamento competente no setor, o que depende dos governantes. Famílias gastarem mais que o poder público numa área essencial como a saúde condena administradores públicos. Principalmente em países como o Brasil
