Por Academia Marial Em Artigos Atualizada em 09 SET 2019 - 16H58

A Theotókos de Vladimir na obra de Marko Ivan Rupnik

Este artigo tem como objetivo apresentar o ícone da Theotókos de Vladimir, expor sua história e teologia, e demonstrar sua contemporaneidade na obra do esloveno Marko Ivan Rupnik (1954).

Considerado o maior artista sacro da atualidade, Rupnik busca ressaltar a condição divina da humanidade, dimensão esquecida pelos cristãos modernos em sua visão, baseada nos Santos Padres e nos pensadores russos do final do século XIX e do século XX, tais como Vladimir Solov’ëv, Pavel Florenskij, Nicolas Berdiaev, Paul Evdokimov.

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No Brasil, temos exemplos do seu trabalho na Catedral de Castanhal (Pará, 2014), e, atualmente, está em execução a fachada externa da Basílica Nacional de Aparecida (São Paulo).

Convidado a realizar uma obra no Centro de Oncologia do Hospital Gemelli, em Roma, para um corredor próximo da sala de radioterapia, o padre Rupnik inspirou-se no ícone da Theotókos de Vladimir para realizar um grande mosaico. Segundo o padre, ao ver o lugar e imaginar como estariam se sentido os pacientes que ali se encontrassem, seu primeiro pensamento foi para essa imagem.

Sobre a Theotókos de Vladimir


Theotókos de Vladimir


A Virgem de Vladimir é um modelo misto de dois modelos iconográficos: a Virgem do Caminho, Hodoghitria, que leva o menino no braço e cuja mão indica o caminho, Ele é o Logos, o Filho feito Homem; e a Virgem da Ternura, a Eleusa, uma concepção eslava, mais russa que grega, na qual o Menino envolve com a mãozinha o pescoço da mãe como gesto de ternura.

A Virgem do padre Rupnik

Na representação da Virgem por Rupnik, seus olhos e os olhos do Filho se encontram, não diretamente, olhar com olhar, mas na distância, no mistério de Deus. Aqui procuram a resposta para tantas dores do mundo. O sofrimento visto na perspectiva de Deus se identifica com a beatitude do amor.


Theotókos de Rupnik


Segundo Rupnik, há na face da Mãe de Deus um véu de tristeza. Mas deve ser uma tristeza que não pode ser descrita imediatamente, pois não é psicológica, e isso não é fácil de representar. É preciso dar a esse véu de tristeza um ar de mistério. Por quê? Há muitos motivos, mas o mais profundo é este: depois que aconteceu o pecado no mundo, está escrito que a mulher dará à luz com dores. Não se pensa aqui apenas nas dores do parto, mas em tudo que significa a maternidade. A vida do homem está vinculada à dor. Esse é o significado dessa frase.

A Virgem tem um ar de tristeza porque vislumbra o destino de cada homem, isto é, sua paixão e morte. Mas, há algo interessante aqui: assim como Cristo é Filho de Deus, Maria lhe deu a carne, a fim de que Deus pudesse se tornar Homem; com essa abertura, Deus pôde se tornar conteúdo da sua humanidade.

O corpo do homem é uma árvore que está morrendo, tanto é que sendo jovem é flexível e frágil e quando endurece está próximo à morte. Assim é a árvore, assim é o homem. O que mudou? O corpo agora não se assemelha mais a uma árvore, mas a uma semente, essa é a diferença, eis a diferença, a semente morre, mas germina. O corpo do homem não é mais destinado à morte, mas a germinar. Assim é a passagem, tudo o que é semente, morre e germina. O corpo do homem não é mais destinado à morte, mas a germinar. Assim é a passagem, tudo o que é semente, morre e germina. Nossa Senhora está triste porque contempla o Filho em todo o seu destino, mas é o Filho quem a consola. Observem os pés da criança. Normalmente, na iconografia, a Madona é apresentada como a escada por onde Cristo sai por suas mãos para o mundo.

No mosaico, o Filho faz uma escalada para sussurrar alguma coisa que sua Mãe jamais ouvira antes: que sua carne não já germina, não apodrecerá na terra, nem a da Sua Mãe, porque na morte a pessoa sobe e não desce. O que o Filho olha? No primeiro esboço, Padre Rupnik desenhou o Filho olhando para a Mãe, depois percebeu que se enganara, o Filho olha para o Pai. Pois sai através da Mãe para o Pai.

Podemos germinar porque temos a vida que pode fazer de si um dom. No último minuto da consciência humana, no nosso espírito, cada um tem a possibilidade de fazer de si um dom, uma oferta no Filho que é a única oferta que agrada a Deus. Pode-se imaginar o quanto isso é profundo. Quando se está bem, é difícil entender, porém, para quem está ferido e percebe que se caminha para um declínio, isso importa, porque não existe nenhuma situação humana em que se obrigue a morrer. Cada situação pode tornar o morrer como dom para alguém. E isso muda tudo, e por isso Ele enxuga aquela lágrima: não haverá mais lágrimas.

Se a vida que recebemos é a vida do Filho, que possamos nos tornar dom, possamos viver como oferta, como uma semente que germina, então fica evidente que é Deus que nos consola e não nós que consolamos Deus. Nunca encontramos no Oriente cristão uma Theotókos que consola o Filho, isso nasceu no Ocidente, no Barroco; não consolamos Deus, é Ele quem toma nossa situação para si.

Cristo disse para rezar sem cessar, mas muitos rezam e não acontece nada. Em grego se entende melhor essa passagem, enchein (ενκειν) se traduz por “sem se cansar”, para que não se desencoraje, sem perder o ânimo. Rezar sempre porque se não se reza perde-se o ânimo e se desencoraja na situação em que se encontra. Isto é rezar sempre, se não a situação dramática na 8 qual se encontra pode trazer a revolta, o mal. Por que insistir? Porque se não rezo, faço sozinho, e o homem só faz mal todas as coisas. Faz segundo ele e o mundo, então entra no mal do mundo, na lógica do mundo, por isso é importante para nós, cristãos, insistir na oração, sem obstinação, mas manter um colóquio aberto como entre eles, Mãe e Filho, a exemplo de como se aproximam para falar. A oração significa vencer a solidão, compreender a si mesmo com o outro, com Cristo, ver-se junto ao outro. Então, é preciso falar com eles, continuar a falar para não cair no risco de tornar-se mau, duro, deprimido, de abandonar-se às paixões porque desistiu de tudo. O padre Rupnik enfatiza: é o colóquio que me mantém e a companhia que me mantém no bem. Se estou com pessoas boas, posso me tornar bom.

E conclui: há uma enorme diferença entre a nossa oração e a resposta de Deus. Parece que Deus sempre chega atrasado em nossas súplicas. Esse atraso permanente, para os Padres da Igreja é fundamental. Na verdade, é um carinho para nós.

Leia o artigo na íntegra. Clique aqui.


Wilma Steagall De Tommaso
Doutora em Ciência da Religião , especialista em Claudio Pastro e Marko Rupnik

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