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Revista de Aparecida

A arte, o Natal e Cristo em cada um de nós

Deus se faz humano e nasce em uma gloriosa noite em Belém, vindo ao mundo pelo mistério da Encarnação

Escrito por Pe. Marko Ivan Rupnik, SJ

10 DEZ 2022 - 10H43 (Atualizada em 21 DEZ 2022 - 14H53)

Victor Hugo Barros

A obra de arte, como a própria arte cristã, é um reflexo da própria Liturgia. “As imagens, as cenas de que a arte trata, devem ser tratadas liturgicamente. E o que significa liturgicamente? Significa uma visão de conjunto, a liturgia nunca leva em consideração (somente) um detalhe”, afirma o Pe. Marko Ivan Rupnik, SJ.

Artista e teólogo dos mosaicos da Fachada Sul do Santuário Nacional, como já o foi da Fachada Norte, ele explica a conexão da Liturgia, da Arte em sua totalidade, inseridas no contexto da gloriosa cena da Natividade, quando os anjos anunciaram: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11).

Pe. Rupnik: Posso dizer brevemente algumas coisas sobre essa imagem da Natividade. A arte na liturgia deve expressar as figuras iluminadas a partir de dentro. Já no Concílio de Trullo (Concílio da Igreja realizado em 692, em Constantinopla) e depois, no Segundo Concílio de Niceia, e especialmente nos comentários dos primeiros Padres que participaram do Segundo Concílio de Niceia, isto é importante: a arte na Igreja traduz a Palavra, mas essa tradução da Palavra para a imagem é feita de forma litúrgica.

Não apenas que a Palavra seja traduzida para a imagem, mas esta imagem deve ser vista liturgicamente. O que isso significa? Essa arte é possível após a Encarnação porque antes não era possível. Agora é porque Cristo se tornou homem. Agora as imagens, as cenas de que a arte trata, devem ser tratadas liturgicamente.

E o que significa liturgicamente? Significa uma visão do conjunto, a liturgia nunca leva em consideração um detalhe. Nunca. A liturgia está sempre antes do todo. E é feito assim como o ano litúrgico. Você não pode dizer: "A liturgia termina com o Natal". Não, isso não é verdade. "A liturgia termina com a Páscoa". Isso também não é verdade. Mas estão sempre juntos. Então, se eu quiser fazer uma imagem do Natal, eu tenho que ter muito cuidado. Por quê? Porque eu tenho que mostrar a Encarnação nesta imagem. E por que Deus Pai enviou o Filho, o que Deus, quer com essa Encarnação? Qual é o significado? Por que ele se encarnou? Então, eu tenho que mostrar tudo.

Se Deus encarna-se, ele o faz pela Salvação. Pois o Salvador nasceu e é proclamado para vós. Então, se tomarmos o episódio da Natividade, da Palavra de Deus e da luz litúrgica, Cristo nasce como Salvador, para a salvação, “Hoje nasceu para nós o Salvador, que é Cristo, o Senhor”.

Agora, ele é colocado na manjedoura. Nós, nessa imagem, vemos a Mamãe que o enrola em faixas e o coloca na manjedoura. Temos que mostrar o que significa manjedoura: é o lugar onde há comida para animais. Na verdade, o homem estava vestido com pele de animais após o pecado. E como pecou? Comendo. Então, há uma comida que leva à morte.

Na verdade, o homem está morto. Como diz Isaías, o burro e o boi conhecem seu dono, mas Israel não conheceu, não compreendeu (cf. Is 1,3). Significa que o mistério da Encarnação não é simplesmente um berço, que pode ser quase uma fábula. É teologicamente inconsistente. A imagem deve dizer que a palavra é a visão litúrgica do todo. Então, Cristo é o alimento. E de fato, Ele dirá: Eu sou a comida de verdade e a bebida de verdade. Aquele que come minha carne e bebe meu sangue viverá para sempre, e eu o ressuscitarei.

Fizemos a manjedoura como um cálice porque o cálice é o sangue, é seu sangue. Mas é também a Páscoa. Ele mesmo diz a dois discípulos: "Sois capazes de beber o cálice que eu vou beber?". E faz alusão diretamente à sua paixão. Tanto que no Getsêmani (Horto das Oliveiras) ele pede ao Pai: "Afasta de mim esse Cálice".

Então nós, para manjedoura, tomamos um cálice como o lugar de sua bebida, de sua vida: Quem beber e comer essa vida viverá para sempre e não morrerá mais. Assim enfatizamos que manjedoura significa salvação, pois Jesus nos nutre com sua vida. Ele oferecerá vida.

Ele oferecerá: a ferida que desenhamos no cálice lembra a ferida de Jesus. Em João, na morte de Cristo, quando traspassaram seu lado, derramaram sua vida, simbolizada na água e sangue, o símbolo dos sacramentos da Igreja. Portanto, Ele é a comida, o alimento da vida eterna.

Victor Hugo Barros
Victor Hugo Barros
Detalhe da ferida presente na manjedoura


Existem as faixas caídas que encontramos na tumba vazia, ou seja, Cristo ressuscitou. Não está mais lá dentro. Tanto que a mãe, com uma mão, indica as faixas caídas porque não há mais corpo. A outra é uma mão oferente, oferecendo ao mundo o Salvador. Mas Salvador é precisamente Cristo, Filho de Deus, tanto que José admira o verdadeiro Pai e o Filho de Deus, este sim o verdadeiro Pai. ele tem em suas mãos a raiz de Jessé que secou, e agora novamente começa a florescer.

Ele é Filho de Deus, nascido da mulher, e a Carta aos Hebreus insiste muito no início para dizer que ele é verdadeiramente homem em todos os aspectos, exceto no pecado. Tudo, na verdade, ele sofreu pessoalmente: tem medo da morte, gritou para ser libertado da morte, tudo ele provou. Mas, por que a Carta aos Hebreus faz isso?

É que Ele é o Novo Sumo Sacerdote, misericordioso, que se oferecerá apenas uma vez. Não como antigos sacerdotes, que ofereciam continuamente. Porque o sangue de cabras, de touros, como diz a Carta aos Hebreus, não pode mudar a existência do homem. Mas ele, apenas uma vez, com seu sangue, fez uma oferenda de sua vontade, e entrou no templo. E o verdadeiro Santuário é ele, que fez o sacrifício, que uniu a humanidade ao Pai.

Portanto, ele, vestido de Sacerdote, aparece acima da manjedoura porque este é o significado do Natal. Tanto que no final do tempo do Natal, a Páscoa é anunciada. Porque são inseparáveis.

Victor Hugo Barros
Victor Hugo Barros
Jesus, sacerdote, retratado na cena da Natividade


Se no Natal, não mostramos que na humanidade de Cristo, em seu sacerdócio, o amor do Pai se manifesta, um amor louco pelo homem, então não apresentamos o Natal, mas sim, um conto de fadas. E Ele não se tornou homem para aproveitar a vida por aí, mas para levar o homem para o Pai.

Portanto, para o Natal, se a mãe colocasse na Manjedoura as faixas, que são as faixas do túmulo vazio, a pergunta mais bonita que um pai ou mãe poderia fazer aos filhos, seria: "Querido José, querido Mário, de quem são essas faixas que estão caídas aqui?"

 A criança, se é batizada, se tem um pouco da fé de seus pais, dirá: "Essas faixas são nossas, são minhas também. Porque Cristo nasceu para que eu pudesse voltar para o céu". Cristo tornou-se homem para que eu pudesse me tornar divino. Ele desceu do céu para a terra a fim de que eu pudesse deixar a terra rumo aos novos céus e à nova terra, que Cristo ressuscitado inaugurou. E então a Manjedoura faz sentido. Porque eu como uma comida que dá vida eterna.

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