Revista de Aparecida

“A permanência do anúncio da Palavra de Deus, depende do dom de receber a vida com alegria”, diz membro da Pontifícia Academia para a Vida

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Escrito por Victor Hugo Barros

02 OUT 2025 - 16H00 (Atualizada em 03 OUT 2025 - 18H03)

Acervo pessoal

A Novena e Festa da Padroeira do Brasil deste ano chama a atenção para o cuidado da vida. Para compreender melhor esse assunto, a Revista de Aparecida conversou com o membro da Pontifícia Academia para a Vida, do Vaticano, padre Aníbal Gil Lopes. O sacerdote, de 77 anos, é médico e doutor em fisiologia. Possui longa experiência universitária e na atuação de trabalhos junto à Sé Apostólica, além da atuação em comitês de saúde no Brasil.

Revista de Aparecida: O senhor é médico desde 1973. Possui diversos estudos na área e uma experiência muito vasta em atendimento médico e cuidado com a vida, tanto espiritual como humana. De lá para cá, como o senhor tem visto a relação da sociedade com a vida do ser humano ao longo dos anos?

Eu acho que esses cinquenta e poucos anos, não é? Eles representam um período da nossa história recente, onde grandes transformações sociais, eu diria conceitos antropológicos, foram se modificando. Porque nós vivemos em um período muito impactado por uma coisa que, certamente em um primeiro momento, as pessoas não compreenderam. O impacto da nossa capacidade de manter ou não manter a sociedade do ponto de vista dinâmico da reprodução.

É uma questão demográfica. Para que a nossa população, a nossa sociedade, a nossa cultura se mantenham, é necessário que a gente mantenha a população, que nós sejamos repostos. E nós, ao longo desses últimos 50 anos, passamos por uma progressiva redução de natalidade.

De tal modo que, hoje, os casais que têm filhos, quando têm, eles têm um filho, no máximo dois, três já é praticamente improvável, e muitos não têm filhos. Então, quando nós falamos em vida, talvez a primeira coisa que venha à minha mente é a questão demográfica. É ela que tem trazido grandes impactos sociais e culturais.

Se eu for olhar, por exemplo, a situação de certos países da Europa, onde a taxa de natalidade é extremamente baixa, e que a reposição da população, que vai progressivamente envelhecendo, só pode ser feita por meio das imigrações. Os imigrantes sempre devem ser muito bem-vindos, mas se eu não for capaz de manter a minha cultura, a minha cultura morre. Então, uma Europa que ao longo de séculos construiu uma identidade cultural, essa identidade ocidental, uma identidade cultural baseada em certos valores profundamente cristãos, que é o do respeito, da tolerância, hoje é uma sociedade que certamente não tem expectativa de sobrevivência.

Se eu for olhar muito mais proximamente de nós próprios, hoje a questão do envelhecimento, que é uma consequência de uma boa prática médica e de condições de vida melhores, faz com que nós tenhamos uma quantidade imensa de pessoas idosas sem quem seja capaz de cuidar delas. Então, a gente às vezes tem grandes preocupações com a vida e a gente esquece a vida nascente, não é? É a questão demográfica. Eu recordaria o santo Papa Paulo VI que, quando ele escreveu uma encíclica que foi extremamente polêmica, ele visava exatamente, ele tinha consciência do impacto demográfico de limitação de natalidade, que hoje nós tomamos como algo tão natural que é o fechamento das pessoas à reprodução.

Nós estamos aqui falando para um público essencialmente católico, através de um meio de comunicação católico, dos mais importantes de nosso país. Eu gostaria de recordar que no rito do matrimônio a gente pergunta se o casal está disposto, aberto aos filhos que Deus lhes conceder. Então, eu gostaria de, como primeira mensagem dessa nossa conversa, colocar a importância de os casais estarem abertos aos filhos que Deus lhes conceder.

Se eu pensar em termos sociais amplos, eu pensaria na permanência da cultura, das sociedades, da nossa cultura ocidental. E se eu for pensar em termos de uma sociedade muito particular, que somos nós, católicos, com a nossa fé, a permanência de nossa fé, a permanência do anúncio da palavra de Deus, depende do dom de receber a vida com alegria. É o dom da maternidade, o dom da paternidade.

Revista de Aparecida: O senhor falava exatamente sobre o nascimento da vida humana. Quando que a vida começa e quando que ela termina?

A vida humana começa no momento da concepção, de acordo com a nossa fé. É uma pergunta que se eu for fazer para pessoas que têm diferentes visões, percepções, antropologias, darão respostas diferentes, não é? Mas para nós, católicos, a vida começa no momento da concepção.

E essa é uma vida eterna, ela não tem fim. Às vezes a gente se preocupa muito com o fim da nossa materialidade e a gente esquece que a nossa vida, a sua finalidade última é para a eternidade. É claro que, na nossa situação contemporânea, com as possibilidades terapêuticas de cuidado e de prevenção de doenças, acima de tudo, a duração desta vida se alonga.

E se alonga, e à medida que isso ocorre, vão ocorrendo doenças próprias do envelhecimento. Então nós temos um grupo que vai perdendo a capacidade cognitiva, por exemplo, a partir de uma certa idade. Vão aparecendo diferentes agravos.

Nossa vida tem o seu sentido e a sua dignidade em qualquer momento, porque a nossa vida se projeta para a eternidade. O momento de morte humana, material, hoje tem sido altamente postergado, infringindo situações muito delicadas. Uma é a obsessividade pela manutenção da vida.

É o uso de tratamentos que seriam supérfluos, desnecessários, que também têm a sua implicação ética. O quanto é lícito, eticamente, eu manter uma vida em condições precaríssimas e de modo artificial. Em oposição a isso, e não em oposição, mas eu diria na mesma direção daquilo que a vida, da forma como a vida não deve ser tratada, são aquelas opções que abreviam a duração da vida.

Uma vida digna e viável, que por razões também supérfluas, muitas vezes levam à eutanásia, situações semelhantes. Existe um modo bom de se viver e de se morrer. O modo bom de se viver e de se morrer é o modo baseado, eu diria, no amor, no cuidado, na partilha de vida.

O final da vida é um momento privilegiado, no qual nós recebemos o carinho dos outros, onde hoje a medicina tem possibilidades imensas de evitar sofrimento e que deve ser um momento vivido também em família, em comunidade, porque a morte nada mais é do que o atestado de uma vida que foi vivida. Eu não posso ter medo da morte. Como dizia São Francisco, a morte, minha irmã, é aquela que me permite levar a minha vida à sua plenitude, à sua completude.

Revista de Aparecida: A Igreja Católica é contra o aborto desde suas origens. Nós temos, por exemplo, na Didaqué, por volta de 150, a expressão: “Não mates a criança no seio de sua mãe e nem depois que ela tenha nascido”. Assim como, também, o homicídio que já na Bíblia é condenado, ainda no livro do Êxodo. E, mais recentemente, a Igreja elevou sua voz também contra a pena de morte. Basta a gente lembrar que o Papa Francisco, em 02 de agosto de 2018, alterou o parágrafo 2267 do Catecismo da Igreja Católica declarando que a pena de morte é inadmissível e deve ser abolida em todo o mundo. Por que a Igreja se posiciona assim e como os fiéis devem trabalhar para não apenas acolher estes ensinamentos, mas também trabalhar para que eles sejam de fato vividos e implantados pela sociedade?

O respeito pela vida, que é o maior dom que nós temos - a vida é a maior preciosidade que Deus nos dá - é algo que ao longo dos séculos a percepção do valor da vida tem, eu diria, sido cada vez mais bem compreendida. Nós falamos que o Santo Padre colocou com clareza a questão da pena de morte, e a gente às vezes fica preocupado com isso, mas se eu for olhar nas nossas grandes cidades brasileiras, quanto vale a vida? Se eu for olhar o número de acidentes diários, fatais, de trânsito em nosso país, quanto vale a vida? Quanto vale a vida de um motoboy? Quanto vale a vida de um operário? Quanto vale a vida de alguém que trabalha no campo, alguém que trabalha em situações, às vezes, muito precárias, nas grandes cidades?

A pena de morte, existe a pena legal de morte, essa certamente a Igreja se coloca contra. Óbvio! Mas nós temos que ter uma percepção muito maior do que são as penas de morte na sociedade como um todo.

O quanto a gente desrespeita a grandeza da vida quando a gente permite, por exemplo, que nossos jovens eles entrem por caminhos de morte por meio da droga, o quanto a nossa sociedade se preocupa pouco com a educação, o que é um caminho de morte. A vida tem que ser vivida em plenitude. Muitas vezes nós nos preocupamos muito com certas situações muito particulares, muito teóricas, quando no nosso dia a dia nós abortamos esperanças de tantas pessoas, a chance de viver de pessoas que nasceram, que nunca viveram. Nós olhamos para as pessoas muitas vezes do ponto de vista utilitarista, enquanto elas têm utilidade, mas nós não respeitamos a vida delas.

Então a nossa sociedade, o grande desafio que ela tem é respeitar a vida, descobrir a vida no outro, uma vida que tenha a mesma dignidade do que a minha. Enquanto a vida do outro, a vida de um último outro não for respeitada, eu diria que a minha dignidade não existe. A nossa dignidade depende da dignidade do outro.

Talvez esse seja um discurso difícil de ser compreendido, é mais fácil dizer que a pena de morte não é permitida, que o aborto não é permitido, isso todos nós concordamos no primeiro instante, mas quando eu digo que não é permitido eu usar o outro e desprezá-lo, quando eu digo que eu não posso ser conivente com caminhos que levam às mortes desnecessárias, eu diria que a mim me impressiona profundamente o número de jovens motoqueiros que morrem por dia, o número de pessoas que vivem nas ruas drogadas, esses zumbis, “cracudos” - a população usa diferentes nomes - mas eles são filhos, eles são irmãos. Mais do que filho ou irmão de alguém, eles são filhos de Deus, são nossos irmãos no Senhor. Então a gente tem que desenvolver uma sensibilidade muito maior àquilo que a gente vai tomando como natural, que a gente não se preocupa, é natural que as pessoas se matem, é natural que as pessoas se desencaminhem, é natural que a violência de trânsito mate mais do que certas guerras, é natural que a vida seja desprezada.

E aí nós seríamos muito hipócritas, eu diria, se a gente ficasse preocupado com um grande ponto, a pena de morte, e eu não olhasse a pena de morte real que mata pessoas a cada segundo em todas essas situações, eu acho que isso o nosso povo de Deus tem que compreender. Nós não podemos tomar o outro com desdém, com indiferença. Cada um é filho de Deus. Cada um é meu irmão, é minha irmã. E não adianta eu ser um grande defensor da vida, sendo contrário à pena de morte, essa pena de morte legal, que certamente não é admissível, absolutamente não é admissível, mas se eu me indignar com ela e não me indignar com a pena de morte real que mata milhões de pessoas no meu cotidiano, eu diria que eu estou sendo cego, eu estou tentando tirar o cisco do olho do outro quando eu não tiro a trave do meu.

Revista de Aparecida: Santo Irineu de Lion dizia que “A glória de Deus é o homem vivo; e a vida do homem é a visão de Deus”. Como que nós podemos entender essa frase em um cenário onde a vida humana está tão fragilizada e reduzida?

Eu acho que essa é a conversão do coração, eu ser capaz de enxergar no outro meu irmão. Enxergar no outro mais do que meu irmão, a presença de Cristo Jesus. Eu estava com fome, eu estava com sede, eu estava nu, eu estava doente, eu era prisioneiro, eu estava abandonado.

Eu acredito no julgamento pelo qual todos nós passaremos, que é o julgamento do amor. Eu amei, eu fui capaz de encontrar o Cristo Senhor naquele mais desprezado, naquele mais abandonado? Eu sou capaz de encontrar o Cristo Senhor no assassino, no ladrão, no homem mau? Eu sou capaz de encontrar, enxergar nos olhos dessas pessoas que nós queremos muitas vezes, se eu for perguntar popularmente, as pessoas dizem que tem que se matar, a violência contra os pobres, os desvalidos, os abandonados, eu perguntaria, eu encontraria nessa pessoa o Cristo Senhor a ser recuperado? Eu buscaria neste mais alijado, mais isolado, mais desprezado da sociedade, onde as marcas do mal estão mais presentes, eu encontraria ali a pessoa que precisa ser redimida? O Cristo Senhor que precisa ser descoberto? São perguntas que a nossa comunidade tem que se fazer periodicamente. O quanto eu sou capaz de enxergar no outro? O Menino de Belém é um sinal desse outro que não tem lugar na vida.

Em algum momento da minha vida, por um tempo muito breve, eu trabalhei em presídio. Será que a gente é capaz de descobrir no rosto do presidiário, daquele que fez o mal, que foi condenado, eu sou capaz de enxergar nele o rosto do Cristo a ser trazido de volta ao nosso convívio e readquirir na sua condição de filho de Deus e meu irmão? São perguntas muito importantes que a gente tem que se fazer. Entendo eu.

Revista de Aparecida: Neste ano, a Novena e Festa da Padroeira tem como tema: “Com Maria, Mãe da Esperança, conhecer Jesus e cuidar da vida”. Como que o devoto de Nossa Senhora Aparecida pode contribuir para uma cultura de cuidado da vida?

Eu voltaria a um dos milagres fundamentais de Nossa Senhora no início da devoção, que foi o escravo que ali parou e teve a sua corrente quebrada. O grande milagre é a nossa adesão a Maria, para a imagem de Maria, com a sua proteção e guarda, sermos aqueles que se transformam em libertadores.

Libertadores do mal, de tudo aquilo que nos aprisiona, de tudo aquilo que nos faz escravos, e não homens e mulheres libertos e libertas como filhos e filhas de Deus. A presença de Maria é uma presença libertadora. Ela não só nos traz o Senhor da vida, traz ao mundo o Salvador, que nos liberta de todo o mal e nos liberta da morte, nos dá eternidade.

Maria é a porta da vida e nós não podemos ser seus seguidores, seus filhos, se nós não assumirmos, junto com Maria, sermos portas da vida, caminhos de libertação, de fraternidade. E se eu for olhar os grandes milagres ocorridos através da intercessão de Maria Santíssima, invocada sob o nome, a denominação, o título, de Nossa Senhora Aparecida, ela é nossa grande libertadora, aquela que nos dá a esperança da vida, aquela que nos mostra, como diz a Salve Rainha, o Seu Filho Jesus.

Revista de Aparecida: Por falar em celebração de Novena, como a vida espiritual pode nos ajudar a cuidar da vida humana?

A vida espiritual, ela abre os nossos olhos, aumenta a nossa sensibilidade. Porque a vida espiritual, ela tem uma única razão de ser cultivada. É que o Senhor Deus, a Santíssima Trindade, o Deus que é amor, nos envia o Espírito de amor, transforma nossos corações.

A espiritualidade tem um único caminho, um único objetivo, é nos levar a percebermos o mistério da Trindade, o mistério do amor. Levar-nos a compreender que, se eu não for capaz de amar o meu irmão, que está do meu lado, eu seria um mentiroso, porque eu não seria capaz de ver a Deus a quem eu não vejo. Se eu não for capaz de acolher e amar aquele que é a face, que Jesus nos disse que ele está presente, que é o abandonado, que é o sofrido, como é que eu verei ao Senhor, se eu não for capaz de vê-lo, a ele que vem ao meu encontro, o Emanuel, Deus conosco, que está ao nosso lado? Maria Santíssima, ela nos mostra exatamente esse caminho, o caminho do cuidado, quando ela vai em direção a Isabel, vai para servir.

Se eu pegar os grandes momentos da vida de Maria, que acolhe esse menino em uma situação de grande insegurança, que não tem onde nascer, que quando nasce tem que fugir, tem que atravessar um deserto, tem que voltar, e que tem, no final, de ser capaz de entregar o seu filho à mão dos homens, para que, sendo morto, ele possa ressuscitar e nos dar a vida. Na nossa vida, os mistérios de Maria se repetem. Em cada um desses momentos da vida de Maria, nós podemos descobrir como é que a gente age no mundo, se nós somos filhos de Maria, se nós acolhemos em nosso coração o seu amor materno, e se nós nos colocamos com simplicidade, humildade, devoção, sob o seu manto, sob a sua proteção.

Revista de Aparecida: Na prática, como passar do discurso da defesa da vida para uma prática em defesa da vida fragilizada?

A vida espiritual, ela abre os nossos olhos, aumenta a nossa sensibilidade. Porque a vida espiritual, ela tem uma única razão de ser cultivada. É que o Senhor Deus, a Santíssima Trindade, o Deus que é amor, nos envia o Espírito de amor, transforma nossos corações.

A espiritualidade tem um único caminho, um único objetivo, é nos levar a percebermos o mistério da Trindade, o mistério do amor. Levar-nos a compreender que, se eu não for capaz de amar o meu irmão, que está do meu lado, eu seria um mentiroso, porque eu não seria capaz de ver a Deus a quem eu não vejo. Se eu não for capaz de acolher e amar aquele que é a face, que Jesus nos disse que ele está presente, que é o abandonado, que é o sofrido, como é que eu verei ao Senhor, se eu não for capaz de vê-lo, a ele que vem ao meu encontro, o Emanuel, Deus conosco, que está ao nosso lado? Maria Santíssima, ela nos mostra exatamente esse caminho, o caminho do cuidado, quando ela vai em direção a Isabel, vai para servir.

Se eu pegar os grandes momentos da vida de Maria, que acolhe esse menino em uma situação de grande insegurança, que não tem onde nascer, que quando nasce tem que fugir, tem que atravessar um deserto, tem que voltar, e que tem, no final, de ser capaz de entregar o seu filho à mão dos homens, para que, sendo morto, ele possa ressuscitar e nos dar a vida. Na nossa vida, os mistérios de Maria se repetem. Em cada um desses momentos da vida de Maria, nós podemos descobrir como é que a gente age no mundo, se nós somos filhos de Maria, se nós acolhemos em nosso coração o seu amor materno, e se nós nos colocamos com simplicidade, humildade, devoção, sob o seu manto, sob a sua proteção.

Revista de Aparecida: Na história recente do pontificado, vimos o Papa Francisco e agora também o Papa Leão, chamando a atenção para a necessidade de um cuidado integral da vida, cuidando de si, do próximo e também da Casa Comum. Como que esses cuidados estão interligados e como podemos nos esforçar por eles?

Olha, você traz exatamente uma dimensão que a gente ainda não falou nessa breve entrevista, que é a dimensão da Casa Comum. Como é que eu posso construir uma sociedade, alimentar uma sociedade fraterna, se aquilo que é comum eu quero tornar isolado? E não é a questão do eu ter, é a questão do outro não ter. O outro não ter um teto, o outro não ter um abrigo, o outro não ter um emprego, o outro não ter comida.

Como é que eu me relaciono com todos os bens que Deus nos deu como comunidade? Todas as vezes que eu deixo de me enxergar como povo de Deus, em que eu crio o eu e um tu separados, um não responsável pelo outro, inevitavelmente eu destruo a Casa Comum. A gente fala da Casa Comum que tem todo um ar de um lado poético, um outro lado muito concreto. Mas se a minha casa, o meu lar, não for um lar aberto para o outro, se a porta da minha casa, a porta do meu coração, não estiverem abertos para o outro, eu me isolo. E não existe ninguém isolado. Não existe nada, não existe vida que ela não seja gregária. Desde a vida da bactéria que não vive sozinha, ela vive em colônia, até nós que não existimos como pessoas se nós não estivermos ligados à humanidade.

Uma criança não sobrevive se não for o outro. Um doente, um velho, não sobrevive se não for o cuidado do outro. Se nós não compreendermos que nós somos parte desta grande colônia humana que é a humanidade, se eu presumir que sozinho eu posso ser humano, eu não perduro, eu não existo.

Eu não existo em mim, eu existo em Deus e no povo de Deus. Então são elementos que eu acho que a gente tem que refletir muito. E o Santuário de Nossa Senhora, imaculada, Aparecida, a nossa mãe, a Casa de nossa Mãe, como o nosso povo chama, vem nos recordar que somos muito pequeninos, mas que em Deus e no seu povo nós temos a força plena do Deus que quis ser humano e estar conosco.

Revista de Aparecida: Padre, muito obrigado por essa entrevista, por dedicar um pouco do seu tempo para bater um papo tão especial neste mês de outubro. Seja sempre muito bem-vindo!

Eu que agradeço a sua gentileza em ter me convidado. Que Deus nos abençoe e Maria Santíssima nos conduza ao seu filho Jesus.

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