Por Redação A12 Em Espiritualidade

Fraternidade, êxodo e serviço

Um dos pontos que o Papa Francisco mais tem realçado é seu desejo de que a Igreja viva em permanente êxodo. Que seja uma Igreja em saída. Assim, o Pontífice chama todos os batizados a uma conversão missionária.

O mandato missionário recebido de Jesus Cristo (cf. Mt 28,19-20) pede uma Igreja em saída para testemunhar a alegria do Evangelho, da vida em Jesus Cristo.

Diz o Papa: “Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro”; e ainda: “Mais do que temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção”

Papa Francisco - criança

Nesse sentido, o Papa exorta os cristãos a não ter medo de entrar na trama desigual e, por vezes, sufocante do tecido da realidade social e ali agir em meio à polis, engajando-se concretamente na política.

Em suas palavras: “Devemos implicar-nos na política, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, visto que procura o bem comum.”

Inspirada pelas palavras do Papa, a CNBB lançou a Campanha da Fraternidade deste ano, que já vai avançada, tal como o tempo da Quaresma, que vive suas últimas semanas.

O tema da solidariedade e do serviço encontra-se no centro dessa mobilização nacional que procura voltar os olhos dos fiéis a uma ideia-chave que os motive a uma real conversão de vida no seguimento de Jesus Cristo e na vivência do Evangelho.

O serviço realizado na transformação da realidade na direção de mais justiça e equidade está no centro dessa conversão que, neste momento, a Igreja pede a todos e todas.

Ao fundo dessa exortação está o antigo e sempre vivo binômio já tão presente na Escritura: fé e justiça.

Esse binômio percorre toda a palavra de Deus presente nos textos sagrados, convidando incessantemente o povo a não se deixar seduzir pelos ídolos, nem tampouco ceder à tentação de tomar atitudes injustas que oprimem o outro, sobretudo os mais desprotegidos: o pobre, o órfão, a viúva, o estrangeiro.

Toda fé em Deus que não se apoie em uma radical prática da justiça, segundo a Bíblia, é falsa e idolátrica.

A Doutrina Social da Igreja e o magistério eclesial na América Latina têm enfatizado essa prioridade muito concretamente nos últimos cinquenta anos.

Assim, o documento de Aparecida, ao dirigir-se aos cristãos leigos convidando-os a serem discípulos e missionários, não os convoca apenas nem sobretudo para atividades intra-eclesiais, mas ao contrário, explicita claramente o desejo de vê-los comprometidos na ordem temporal.

Destacando o papel que a Doutrina Social da Igreja tem desempenhado na formação dos leigos do continente para animar-lhes o testemunho e a ação solidária, Aparecida diz que os leigos do continente “se interessam cada vez mais por sua formação teológica como verdadeiros missionários da caridade, e se esforçam por transformar de maneira efetiva o mundo segundo Cristo.”

 

Eclesialidade e cidadania serão, portanto, um binômio constitutivo da identidade, vocação e missão de todo cristão.

Registra-se portanto um duplo polo positivo da atuação dos leigos na história e no crescimento de sua Igreja: um, relativo à sua inserção intereclesial (“se interessam cada vez mais por sua formação teológica”); o outro diz respeito à sua atuação transformadora no mundo (“se esforçam por transformar de maneira efetiva o mundo, segundo Cristo”). Eclesialidade e cidadania serão, portanto, um binômio constitutivo da identidade, vocação e missão de todo cristão.

Embora muito seja dito sobre o papel dos cristãos dentro da estrutura eclesial (sua eclesialidade), há uma preocupação explícita em reforçar inequivocamente a índole secular da vocação laical (sua cidadania).

Cremos mesmo poder dizer que esta segunda tendência é a que vai predominar de forma explícita nestes cinquenta anos posteriores ao Concílio Vaticano II. A partir deste evento de tanta importância no século XX, os cristãos serão convocados explicitamente a formar-se para interferir efetivamente na vida pública, mais concretamente na formação dos consensos necessários e na oposição contra a injustiça.

Esse é o caminho que segue o texto base da Campanha da Fraternidade deste ano de 2015. Ao escolher como lema a frase de Jesus de Nazaré, “Eu vim para servir”, utilizando ao mesmo tempo uma imagem do Papa Francisco durante a cerimônia da Semana Santa chamada lava-pés, a Igreja do Brasil põe-se a caminho de Jerusalém, a fim de celebrar a Páscoa de olhos e ouvidos bem abertos para a realidade que a circunda.

E essa realidade é marcada pela injustiça, pela opressão, pela violência e pelos conflitos. E, por isso mesmo, chama à solidariedade e ao serviço gratuito, humilde e desinteressado. As expressões usadas pelo Papa ao dirigir-se aos católicos, instigando-os a terem “cheiro de ovelha”, a “promoverem agitação”, a transformarem a Igreja em um “hospital de campanha” dão bem a nota deste movimento que ele espera de uma Igreja que seria suicida se permanecesse imóvel enquanto a realidade grita ao seu redor.

Se Jesus, com seu Evangelho, deslocou o eixo central da religião do templo para o ser humano, a Igreja não pode fazer diferente. Seu lugar é em meio ao mundo, à sociedade, dialogando e interagindo com os problemas que afligem as pessoas que uma comum filiação ao mesmo Pai fez irmãos.

Fraternidade entre a Igreja e a Sociedade é, portanto, o caminho da conversão para esta Quaresma. A alienação é incompatível com a fé e com o seguimento de Jesus. Só a solidariedade e o serviço são salvadores, no sentido de que nos fazem cada vez mais humanos e, portanto, cada vez mais de acordo ao coração de Deus.

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio. A teóloga é autora de “Simone Weil – Testemunha da paixão e da compaixão” (Edusc).

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Reportar erro! Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou
de informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Redação A12, em Espiritualidade

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.