Por Pe. José Luis Queimado, C.Ss.R. Em Igreja

As tecnologias: benesses e efeitos colaterais

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O mundo das tecnologias! O que seria de nós, hoje, sem as benesses da tecnologia? A facilidade de esquentar uma comidinha no micro-ondas! A deliciosa refrescância que o ar-condicionado nos traz naqueles dias de calorão! A velocidade com que viajamos em um automóvel, em um avião ou em um trem! O lazer que a Internet nos oferece! As tecnologias da ciência que nos dão esperança de uma vida com mais qualidade, melhorando especialmente o ramo da medicina! Tudo isso é inegavelmente maravilhoso! A grande pergunta é: sabemos fazer o uso correto dessas tecnologias?

Devemos estar mais atentos aos graves efeitos colaterais que o mau uso das tecnologias pode causar. Se percebermos, por exemplo, que ficamos totalmente inertes quando falta energia em nossa casa é porque os sintomas estão ficando graves. Quase tudo, hoje, está ligado à energia elétrica. Numa queda de energia, o chuveiro, o micro-ondas, o ventilador, a televisão, as lâmpadas e centenas de outros eletrodomésticos deixam de funcionar para o nosso completo desespero. Eis aí um primeiro efeito colateral grave: a dependência que a sociedade ocidental da pós-modernidade está criando com relação às tecnologias.

Outro efeito colateral é o engessamento do ser humano. As pessoas foram feitas para se movimentar, mas o advento das tecnologias nos incentivou a fazer menos esforço em tudo. Exemplos banais como o uso do controle remoto da televisão podem mostrar muito sobre a nossa realidade. Trocamos o esforço corporal pelo simples toque de botões. Os comandos de voz estão cada vez mais fortes. Somente com o esforço da voz, podemos abrir portas, ligar carros e fazer compras sem sair de casa! Nós nos movimentamos cada vez menos! Vamos ao trabalho de carro. Viajamos de avião. Encontramo-nos somente na Web, em redes sociais e aplicativos de smartphone. Não saímos de nossas poltronas! As exceções são os maquinários construídos para as academias de treinamento, visando à conquista do corpo escultural, uma das maiores idolatrias do mundo moderno!

Não poderíamos deixar de falar do esfriamento das relações humanas. Com o advento do mundo cibernético e com a evolução da Internet, nós nos tornamos, de certa forma, muito mais próximos. Posso conversar com dezenas de amigos ao mesmo tempo, nas redes sociais ou nos aplicativos de bate-papo. Mesmo assim, os relacionamentos estão mais complexos e distantes. O abraço se torna cada vez mais cinematográfico! Estamos perdendo a capacidade de dialogar, pois tudo pode ser resolvido pelo Facebook, pelo Twitterou pelo WhatsApp. Conversamos horas a fio com nossos amigos on-line, mas quando estão na nossa frente não conseguimos sequer trocar algumas breves palavras. E, para completar, quando estamos diante de um amigo com quem tanto conversamos de forma digital, começamos a conversar com outros que estão longe, deixando o amigo presencial off-line, – quanta contradição! Esta é a lógica da superficialidade: se estou longe dele, converso com ele; se estou perto dele, converso com outro!

Essas ferramentas ainda trazem outro problema: a exacerbação de todos os desejos humanos. O desejo de ter, de poder e de prazer se materializam na ostentação, nas indiretas, nas fofocas, nos crimes cibernéticos, na frivolidade, na inveja, nas mentiras e na falsidade que fervilham nessas plataformas de relacionamento. A amizade se tornou uma palavra mesquinha, pois ela pode acabar a qualquer momento! Inclusive, uma das maiores ofensas, hoje, é ser excluído do Facebook ou demorar a responder uma mensagem no WhatsApp!

Ainda falando da Internet, outro grande efeito colateral dessa tecnologia é o desprezo às leis fundamentais dos seres humanos. Em qualquer lugar, físico, que você ofender alguém pela cor da pele, pela procedência regional ou pelo sexo, um processo judicial pode ser iniciado e você pode ser severamente punido; na Internet, reina um clima de impunidade, pois ali está um dos mais fundamentais direitos do ser humano sendo usado para o crime: o anonimato. Por detrás desse artifício, milhares de pessoas cometem crimes de racismo, preconceito e incitação à violência. Os anônimos fazem isso porque têm a sensação de invisibilidade. Se o ser humano pudesse se tornar invisível, o que ele faria? Podemos ter um vislumbre dessa resposta nas atitudes dessa multidão de anônimos que se esconde detrás de um perfil falso, que é a máscara moderna! Xingamentos, humilhações e ameaças são as atitudes mais corriqueiras que vemos nos comentários deixados nos grandes sites da Internet. Com certeza, essas pessoas jamais fariam isso se estivessem olhando para o rosto daqueles a quem são dirigidos os insultos, pois o anonimato nos dá sensação de poder ilimitado. E assim será até quando se começar a punir o agressor cibernético, o que deveria se iniciar com a punição aos sites que permitem tais agressões!

Outro presente ruim que a tecnologia nos trouxe foi a diminuição da importância do ser humano. Hoje, uma empresa funciona melhor com dez grandes máquinas do que com centenas de pessoas. O avanço da robótica assusta principalmente os mais necessitados de emprego na sociedade, pois ela cria máquinas muito mais preparadas do que os seres humanos, que serão descartados aos milhares. As pessoas serão meras mercadorias, vendendo os seus corpos, se quiserem sobreviver à revolução das máquinas.

Enfim, que a tecnologia nos trouxe incontáveis benefícios, ninguém pode negar! Mesmo aqueles que são críticos ferrenhos a esses avanços não conseguem viver sem computador, sem luz elétrica ou sem telefone. O bom uso das tecnologias vai auxiliar o ser humano no seu aprimoramento. Deus partilhou o dom da criação conosco, por isso somos sempre inventores e inovadores! Mas não podemos nos esquecer de que todas essas tecnologias foram feitas para o ser humano, e não o ser humano para essas tecnologias, como diria Jesus Cristo! Pensemos numa faca, ela é maravilhosa, pois facilita a nossa vida na cozinha, mas também pode matar alguém! Portanto, o problema não está nas tecnologias, mas sim em quem faz o mau uso dela!

Padre Queimado articulista colunista

Escrito por
Pe. José Luis Queimado, C.Ss.R. (Arquivo Santuário Nacional)
Pe. José Luis Queimado, C.Ss.R.

Redentorista, formado em Filosofia e Teologia. Pesquisador das Sagradas Escrituras e História. Acumulou experiência nas Missões Populares e no Santuário Nacional de Aparecida.

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