
No dia 24 de maio de 2020, a Igreja celebrou o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Instituída pelo Concílio Vaticano II, com o objetivo de analisar melhor o extenso e complexo fenômeno da comunicação e suas diversas expressões, a data é celebrada há 54 anos. Para esta edição, a celebração traz como tema a questão da narração, baseada na mensagem do Papa Francisco que nos convida a “respirar a verdade das histórias boas”.
Logo no começo da mensagem, o pontífice nos alerta sobre a importância de cultivarmos histórias edificadoras e não destruidoras, “histórias que ajudem a reencontrar as raízes e a força para prosseguirmos juntos”.
Nos tempos pandêmicos em que vivemos, especialmente aqui no Brasil, tais palavras soam como um alento aos nossos corações que, neste momento, se encontram distantes uns dos outros e atormentados por um cenário de medo e incerteza do que nos espera. Com tantas notícias diárias sobre os milhares de infectados e mortos, vítimas de um inimigo invisível, de discussões entre autoridades governamentais e um grande descaso com o país, tornou-se difícil manter a positividade e a sanidade mental inabaladas.
Mas, como nos diz o Papa Francisco, “o homem é um ente narrador” e são, justamente, as narrativas que “podem ajudar-nos a compreender e dizer quem somos”. Sendo assim, como construirmos nossas próprias narrativas, tendo como inspiração apenas aquelas que nos fazem florescer e que não nos destruam, principalmente em meio às dificuldades? Por mais que o cenário esteja difícil e que soframos com o distanciamento, com as dificuldades financeiras, com o bombardeamento midiático, é preciso cultivar a esperança e a positividade.

Como fazer isso? Se a saudade de alguém distante aumentar, faça chamadas por vídeos, proponha um jogo ou qualquer outra atividade criativa online e, assim, amenize o distanciamento. De acordo com um estudo da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, publicado na revista Veja Saúde, a falta de contato social pode trazer riscos à saúde equivalentes ao consumo de 15 cigarros por dia, além de ser duas vezes mais danosa que a obesidade.
Por outro lado, também é preciso cultivar bons relacionamentos com aqueles com quem convivemos diariamente. Em muitos países afetados pela pandemia, houve um disparo no número de divórcios, que pode refletir como as dificuldades em lidar com diferenças, muitas vezes descobertas em um maior tempo de convivência, afetam as relações humanas. Neste momento, a conversa sincera, a paciência e a exaltação de qualidades positivas do outro podem ajudar a superar tais momentos.
Mas, também não podemos nos esquecer de um cenário muito desolador: a violência doméstica que, somente no Rio de Janeiro, por exemplo, aumentou 50%, reforçando a importância de a mulher recorrer a uma delegacia ou a uma outra ajuda qualquer, sempre que for necessário.
Outra questão que pode nos auxiliar a preservar nossa sanidade mental e a “respirar” as histórias boas é não sermos influenciados pela quantidade de informações produzidas a todo o momento. Precisamos nos informar sobre o cenário atual, porém, é importante estabelecer um horário para isso e, assim, não extrapolar o tempo gasto com tantos noticiários.
Atenção para as fake news! Checar a veracidade das fontes é algo essencial diante de tantas informações que nos chegam a todo o momento. Afinal “nem todas as histórias são boas”, como é ressaltado na mensagem do pontífice, e podem nos influenciar, negativamente. “Quantas histórias nos narcotizam, convencendo-nos de que, para ser felizes, precisamos continuamente de ter, possuir, consumir”, diz o Papa Francisco.
Assim, nesse egoísmo exacerbado do ter, presenciamos um forte individualismo naqueles que desrespeitam o isolamento, fazem festas, são indiferentes à morte do outro e, portanto, constroem narrativas devastadoras. Mas, por outro lado, há aqueles que se solidarizam com a dor alheia, se reinventam para ajudar o próximo, mesmo à distância, e passam a enxergar melhor o verdadeiro valor da vida em meio a tudo isso. São as belas narrativas que vão tecendo e solidificando as relações humanas.
Portanto, a descrição de nossas narrativas depende de nós e da forma como conduzimos nossas vidas. Aqui encerro com mais uma frase do Papa Francisco em sua mensagem:
“O homem não só é o único ser que precisa de vestuário para cobrir a própria vulnerabilidade (cf. Gn 3,21), mas também é o único que tem necessidade de narrar-se a si mesmo, revestir-se de histórias para guardar a própria vida. Não tecemos apenas roupa, mas também histórias”.
Que sejamos, então, mestres na arte de cultivar boas narrativas, especialmente em tempos de pandemia.
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