Palestra sobre cultura religiosa afro-brasileira de Dom José Maria Pires é publicada em Minas Gerais
O arcebispo emérito da Paraíba, Dom José Maria Pires, teve uma palestra publicada em livro lançado na última segunda-feira (18) em cerimônia realizada na capital mineira em comemoração pelo Dia da Consciência Negra.
A palestra intitulada ‘A cultura religiosa Afro-brasileira e seu impacto na cultura universitária’ foi publicada com outras introduções de outros autores.
Em sua trajetória, dom José Maria sempre lutou contra a discriminação. Conhecido como Dom Zumbi, o bispo motivou agentes de pastorais e religiosos na organização de ações em vista da população negra.
Em entrevista ao A12, Dom José Maria Pires falou sobre a temática que desenvolveu na palestra. Veja a seguir:
A12 - Sobre que realidade o senhor trata na palestra ‘A cultura religiosa Afro-brasileira e seu impacto na cultura universitária’.
Dom José - A palestra começa recordando o que foi a escravidão dos negros trazidos de África e como surgiu o preconceito de que negro é inferior e de inteligência curta. Daí a legalização e legitimação da escravidão já que negro é um ser inferior. No decurso da história, houve alguns abrandamentos aparentes. Cito dois exemplos: a Lei do Ventre livre. O filho de escrava não era mais escravo. Como a mãe era e devia cuidar e amamentar o filho de sua senhora, o filho da escrava não recebia de sua mãe os devidos cuidados o tornava-se um menor semiabandonado. A lei do sexagenário: Um escravo que carregara o peso do trabalho, aos sessenta anos já estava esgotado e não rendia mais no trabalho. Ficando livre, o seu antigo senhor não tinha mais nenhuma obrigação de sustentá-lo. Para sobreviver tinha que tornar-se um mendigo. A própria lei que aboliu a escravidão no Brasil já veio um pouco tarde porque, àquela época o número de escravos já era diminuto, sobretudo em consequência dos quilombos: organização de negros libertos para libertar negros escravos e formar com eles organizações quilombolas.
"Ainda hoje, para muitos, negro não tem cultura e sua religiosidade é desprezível. Foi a partir do Vaticano II que essa visão foi se modificando".
A12 - Como a cultura religiosa afro-brasileira é vista atualmente pela sociedade?
Dom José - A cultura religiosa afro-brasileira foi sempre vista como superstição e, por isso, combatida pela Igreja que batizava os africanos ainda no porto ao chegarem ao Brasil os navios negreiros. Ainda hoje, para muitos, negro não tem cultura e sua religiosidade é desprezível. Foi a partir do Vaticano II que essa visão foi se modificando. O Concílio fala de "sementes do Verbo" presentes em todas as religiões. A missão não deve condená-las, mas desenvolvê-las a partir das sementes já existentes nela. Daí surgiu na Igreja o apoio à organização da União e Consciência Negra como surgiu o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) com o mesmo objetivo de desenvolver as sementes do Verbo presentes na cultura indígena, como na africana.
A12 - Enumere as sementes do Verbo presente na cultura afro?
Dom José - Algumas sementes do Verbo presentes na cultura afro: o culto dos antepassados (na Igreja, o culto dos santos), o valor da mulher porque a mulher tem axé, isto é: fecundidade. Por isso, no terreiro, a mulher é que é a autoridade. O quilombo: uma organização social em que se procura produzir tudo o que é necessário para a vida. Por isso, as culturas são variadas: milho, feijão, algodão, etc. O quilombo procurava tornar-se autônomo reduzindo quase tudo o necessário para viver. O quilombo e o terreiro são as duas instituições que permitiram aos escravos sobreviver como sociedade: o quilombo como instituição social e o terreiro como local de expressão religiosa.
Biografia
Dom José Maria Pires nasceu em Córregos (MG) no dia 15 de março de 1919. Foi ordenado padre em 1941 e ordenado bispo em 1957, em Diamantina (MG). Renunciou ao cargo de bispo no dia 29 de novembro de 1995. Foi arcebispo da Paraíba no período de março de 1966 a dezembro de 1995, e membro da Comissão Central da CNBB. Recebeu em 2012, a Comenda Dom Helder, entregue a cidadãos que se destacam na luta pelos direitos humanos, e em setembro desde ano, o título de Doutor Honoris Causa, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). O arcebispo reside em Belo Horizonte (MG).
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