Por Pe. Leo Pessini Em Igreja

Embriões humanos manipulados como material de pesquisa

 

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A mídia internacional volta a dar destaque para uma polêmica pesquisa realizada na China de manipulação de embriões humanos, neste final de abril de 2015. Especialistas chineses, equipe de pesquisadores de Junjie Huang, nos laboratórios da Universidade Sun Yat-Sem, na cidade de Guangzhou, surpreenderam a comunidade científica mundial, ao editarem pela primeira vez, o genoma de embriões humanos, para combater uma doença hereditária. Este feito levantou em todo o mundo uma série de debates e questionamentos sobre a ética em pesquisa com a utilização de embriões. Segundo os críticos a técnica é insegura e questionável do ponto de vista ético. Surgem sempre neste horizonte os medos dos fantasmas da eugenia.

A experiência vem provocando reações de entendidos em biologia e genética, preocupados com os riscos que este tipo de pesquisa pode trazer, tanto quando com a ideia da ciência objetivar a “fabricação” de pessoas “perfeitas”.

A Sociedade Internacional de Pesquisa em Células-Tronco questionou este experimento e reforçou mais uma vez a apelo para uma moratória nestas tentativas de edição genética de embriões humanos. Afirmam os especialistas desta sociedade que não é possível ainda dizer que benefícios esses estudos trazem para a humanidade e defendem que tais procedimentos devem antes de tudo passar, pela peneira das discussões éticas públicas. Editar o genoma nessa fase pode gerar mudanças genéticas imprevisíveis que passariam a gerações futuras, com efeitos imprevisíveis, segundo especialistas. Seria um caminho sem volta. Existe uma linha que não deve ser ultrapassada, segundo os cientistas. E ela é alterar óvulos e espermatozoides, pois eles conferem hereditariedade para as características alteradas. Existe ainda o receio de que as técnicas sejam utilizadas para fins que não visam a clara e a erradicação de doenças incuráveis.

Ocorre na China, país onde praticamente não existem diretrizes éticas que norteiam intervenções científicas nesta área. Está-se discutindo ética, mas nem do ponto de vista científico estamos certos ainda a respeito de potenciais benefícios, riscos e danos. Sem dúvida alguma, trata-se de algo precipitado.

Os pesquisadores chineses testaram em embriões (material humano), um procedimento experimental que até então, só tinha sido realizado em embriões de porcos, ratos, vacas e ovelhas. Os embriões utilizados eram não viáveis, isto é, não tinham chances de se desenvolverem em vida humana e foram coletados em clínicas chinesas de fertilização. Os autores desta pesquisa editaram o gene responsável pela beta-talassemia, desordem do sangue hereditária e genética que impede o organismo de produzir as quantidades ideais de hemoglobinas.

 

Nem tudo o que cientificamente pode ser feito, deve ser feito, principalmente por razões de biossegurança, e por implicações e riscos desconhecidos em relação às gerações futuras.

As duas mais importantes prestigiosas revistas científicas do mundo, Nature e Science, rejeitaram a publicação deste experimento, então Huang enviou o estudo para ser publicado na desconhecida Revista “Protein &Cell”. A edição genética de células embrionárias mostra-se promissora para trata doenças graves e procedimentos nesta linha já são uma realidade. A diferença é que as intervenções são realizadas em células não reprodutivas, e por isto não podem ser passadas para gerações futuras. Por exemplo a Sangamo BioSciences, realiza testes clínicos para avaliar a aplicação de edição de genoma como uma “cura funcional” para a Aids. A esperança é que a aplicação intravenosa de células T modificadas permitam que os pacientes suspendam os medicamentos antirretrovirais.

Nem tudo o que cientificamente pode ser feito, deve ser feito, principalmente por razões de biossegurança, e por implicações e riscos desconhecidos em relação às gerações futuras. Aqui falamos de responsabilidade ética, com relação aos experimentos cujos resultados ainda são desconhecidos ou inseguros e que posam colocar em cheque a vida futura da humanidade. Não se trata de cultivar uma atitude de medo ou temor, mas de nutrir uma perspectiva ética que fortalece o referencial ético da precaução e prudência. Não precisamos ter medo da ciência, quando esta tem “consciência”, isto é, anda junto e dialoga com os valores éticos.

Ousadia científica e prudência ética, se necessitam reciprocamente, devem se dar a mãos. Isto é que nos traz um horizonte de esperança, longe de ilusões, medos e ou temores e que podem nos livrar no futuro, de catástrofes que espezinham a dignidade humana e comprometem o futuro da vida humana no planeta.

assinatura padre leo pessini

Escrito por
Pe. Léo Pessini Currículo - Aquivo Pessoal
Pe. Leo Pessini

Professor, Pós doutorado em Bioética no Instituto de Bioética James Drane, da Universidade de Edinboro, Pensilvânia, USA, 2013-2014. Conferencista internacional com inúmeras obras publicadas no Brasil e no exterior. É religioso camiliano e atual Superior Geral dos Camilianos.

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