Por ocasião da celebração da data da Independência do Brasil (7 de setembro), entrevistamos aqui no A12 o historiador e cientista político Roberto Gonçalves. O objetivo era pensar o tema da liberdade com a visão e os sentimentos de hoje. Desta vez, voltamos a conversar com o prezado amigo sobre o tema da República, proclamada em 15 de novembro de 1889, aliado às eleições gerais, ocorridas em outubro último. Vale a pena conhecer o que pensa Roberto Gonçalves.

Padre César Moreira: A República brasileira veio em boa hora? Que significou naquele momento e que significa hoje?
Roberto Gonçalves: De todos os feriados nacionais, o que menos me sensibiliza é a Proclamação da República. Em primeiro lugar, por se tratar de um golpe militar, como tantos outros que lesaram a dignidade de nosso povo, ferindo o funcionamento legal de nossas mais preciosas instituições. A versão infantil de nossa Proclamação da República se sustenta em ideais que embasaram o positivismo, filosofia que teve Augusto Conte como maior representante. O positivismo nunca combinou com militarismo, teses antagônicas nos campos sociais e políticos. De armas nas mãos, contra populações indefesas, as forças armadas do Brasil sempre se arvoraram em salvadores da Pátria. O último e mais violento golpe militar de nossas forças armadas foi o de primeiro de abril de 1964, derrotado pelas massas nas ruas, exigindo eleições diretas para Presidente da República.
O Imperador deposto, D. Pedro II, era um estadista de primeira grandeza, adorado pelo povo brasileiro. Dedicou toda sua vida ao bem do Brasil, sempre com espírito público, extremamente cuidadoso com o dinheiro público.
Um homem maior que seu tempo, exemplo para todos os homens que desejam ingressar na vida pública. O Imperador deposto e banido do Brasil, como se fosse um fósforo apagado, hoje é nome de ruas, praças, museus, escolas, rodovias em todo o País. Seu algoz, Marechal Deodoro da Fonseca, não é tão lembrado pelo povo brasileiro.
A República, nos moldes que veio, não chegou em boa hora, justamente porque impregnada do espírito militar, tanto que tivemos vários presidentes militares na história do Brasil. A República trouxe pequenos avanços, eliminando a corte e os títulos de nobreza, mas reforçou as oligarquias, principalmente as do norte brasileiro.
A diplomacia da Monarquia, fortemente liderada por Dom Pedro II, um diplomata de primeira grandeza se fortaleceu na República, principalmente na gestão Barão do Rio Branco. Mas o povo brasileiro, desde aquela época, deixou de eleger Rui Barbosa, a famosa ‘Águia de Haia’ para Presidente da República, optando por um candidato militar.
E hoje a República, sem profunda reforma política, é o regime de agregação dos poderes legislativos e judiciário pelo executivo.
Nossa República facilita a mão de ferro do executivo, dono da chave do cofre, capaz de tornar o Congresso Nacional dócil. Quanto ao Judiciário, sem palavras. Juízes do Supremo Tribunal Federal serem nomeados pelo Presidente da República é um absurdo.
Padre César Moreira: O brasileiro parece desligado, desinteressado da "coisa pública". Isso é fato ou apenas impressão?
Roberto Gonçalves: Fato, e dos mais graves. Vivemos no começo do século XXI numa nação em que 35% da população acima de 16 anos não existem como cidadãos. De cada cem brasileiros, trinta e cinco não tiraram o título de eleitor, e, se tiraram, abstêm-se de votar, e, em votando, anulam o voto ou votam em branco. Gente que voltou aos tempos das cavernas, negando a convivência cívica com seus semelhantes, presos ao próprio umbigo, completamente desconectados da existência.
Além de não cultivar os valores elementares da humanidade, como a solidariedade, respeito ao próximo, ética no comportamento pessoal, e o maior deles: amor ao próximo.
O céu escureceu no cenário político brasileiro. É nossa triste realidade.
A palavra República, que significa exatamente a ‘coisa pública’ não significa absolutamente nada para a maioria do povo brasileiro. Entre os 65% que votam em alguém, também existe um grau de analfabetismo político muito acentuado.
Não praticam a leitura de jornais, não conversam sobre política, dizem abominar os políticos, recorrem a chavões surrados para desqualificar toda classe política, colocando todos no mesmo mar de lama, favorecendo os maus em detrimento dos bons. E as eleições tem mostrado que votam sempre nos piores, não vetando os corruptos verdadeiros, os populistas messiânicos, os atores que representam heróis que nunca foram. O povo brasileiro, e o cotidiano tem mostrado, não pensa alto em relação a seu país, ao civismo, patriotismo, comunidade, união em benefício de uma vida e um país melhor.
Padre César Moreira: As eleições gerais desse ano trouxeram alguma novidade?
Roberto Gonçalves: Não. Aconteceu o esperado. Mais quatro anos de corrupção, destruição de nossas empresas públicas, aparelhamento do Estado, impunidade deslavada, uma justiça que não prende, um povo que não cobra seus direitos de forma organizada, não se filia aos partidos políticos e por aí afora.
O discurso governista de que tirou não sei quantos milhões de brasileiros da miséria, que o partido deles é o partido dos pobres e o adversário é do partido dos ricos, através de marketing eleitoral da desconstrução, mantém a imensa massa de pobres e miseráveis fiéis no voto, propiciando a continuidade de todos os desmandos que assistimos, todos os dias, estarrecidos diante da ousadia de como assaltam os cofres públicos. A única novidade que as eleições gerais desse ano trouxeram é que não haverá novidades à vista. Vai ficar tudo está.
Padre César Moreira: O que precisa ser mudado, urgentemente, nas eleições no Brasil?
Roberto Gonçalves: Quase tudo. Em primeiro lugar a reforma partidária que reduza drasticamente o número de partidos. Seis ou sete partidos seriam suficientes para representar o pensamento de todos os segmentos da sociedade brasileira.
As campanhas devem ser financiadas pelo dinheiro público, com verbas iguais para todos partidos, evitando que o dinheiro privado, fonte permanente de corrupção, perca seu poder de aliciamento de políticos corruptos. Tempo igual para todos os partidos no horário eleitoral gratuito. Como a cabeça do brasileiro ainda deixa muito a desejar em matéria de politização, os candidatos com maior tempo na televisão levam grande vantagem sobre os concorrentes, porque produzem mentiras suficientes para enganar os incautos.
Acabar com o salário de vereador, base política da sociedade. Antes da ditadura de 1964, vereador não tinha salário, havendo melhor qualidade na representação legislativa, porque composta das pessoas mais qualificadas, nos planos profissionais e moral da sociedade.
Hoje, com o salário e as mordomias, ser vereador é o maior sonho de consumo dos "picaretas" que buscam o cargo para ganhar dinheiro e fazer negociatas com empresas que prestam serviços às prefeituras. E também vendem o apoio aos prefeitos, em troca de cargos para seus afilhados na prefeitura e outros privilégios impublicáveis.
Implantação do voto distrital misto, que deixe o eleitor mais perto do parlamentar, ao mesmo tempo em que a outra metade é indicada pelos partidos com figuras notórias da sociedade.
Padre César Moreira: Que se pode esperar do Congresso eleito em 5 de Outubro ?
Roberto Gonçalves: Quase nada. O governo manteve maioria esmagadora no Congresso Nacional, dominado através da prática mais atrasada e criminosa de fisiologismo político.
O povo brasileiro é capaz de tudo, menos de aprender a votar. No segundo turno, o candidato derrotado teve quase 49% dos votos. Num país civilizado politicamente, sua base no Congresso Nacional seria semelhante à votação que recebeu na eleição majoritária. Mas não!
O senhor povo brasileiro votou no candidato Aécio, mas votou nos deputados da base aliada do governo no Congresso Nacional. A ignorância popular, politicamente falando, provoca essas aberrações. Metade da população brasileira votou pelas mudanças, no candidato presidencial da oposição e nos deputados e senadores da base aliada, responsáveis por deixar tudo como está. Durma com um barulho desses!
O Congresso Nacional, embora com alguma renovação, é uma troca de seis por meia dúzia. E continuamos órfãos de representatividade.
Padre César Moreira: A reeleição da presidente Dilma retrata o anseio dos brasileiros? De quais brasileiros? Qual sua expectativa para os próximos quatro anos?
Roberto Gonçalves: Essa pergunta já foi respondida nas questões anteriores. Apenas para completar, devo dizer, com certeza, que o governo Dilma não retrata o anseio da maioria do povo brasileiro. Ela teve 54 milhões de votos, sendo derrotada pela maioria esmagadora do eleitorado brasileiro.
Cerca de 90 milhões não votaram na presidente Dilma. Ela é a representante das parcelas famélicas da população, dependentes da rede de proteção social do governo, criada no governo FHC.
Para os próximos quatro anos, grave crise econômica, inflação galopante, queda de empregos, crises institucionais, atritos fisiológicos com a base aliada, porque não haverá mais dinheiro para saciar a fome dos partidos que apoiam seu governo. O céu escureceu no cenário político brasileiro. É nossa triste realidade. Quem sabe um dia o povo acorda!

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