Vira e mexe os políticos se destacam por atos indecorosos, assumindo atitudes que envergonham as pessoas de bem que fazem questão de agir com decência. Uma das maldades destes senhores está ligada às alianças partidárias que se fazem com objetivo de levar vantagens nas eleições.
O fato: dois ex-deputados, presos por envolvimento no Mensalão e chefes dos seus partidos, fizeram a candidata à presidência (reeleição) cair em contradição e passar vergonha. O primeiro deles, Valdemar Costa Neto, do PR, deu ordem para seus colegas obrigarem a presidente Dilma a trocar o Ministro dos Transportes, devolvendo o ministério ao seu partido. Ela jurou que ninguém a obrigaria a fazer tal coisa. Mas....acabou fazendo. E terá o apoio do PR para as eleições.
Outro ex-deputado conhecido é Roberto Jefferson, do histórico PTB: ele também, por falta de contrapartida, fez o partido deixar Dilma e correr para Aécio, do PSDB. Ou seja, sem vantagens e sem cargos, nada feito. Quem der mais, ganha o apoio. Sobre esse cenário, veja a opinião do historiador e cientista político, Roberto Gonçalves.

Padre César: Até que ponto as alianças são necessárias e éticas?
Roberto Gonçalves - Alianças eleitorais sempre foram necessárias na história republicana brasileira, porque, agregando mais partidos com afinidade ideológica e programática, o candidato torna-se mais forte, como aconteceu com Juscelino Kubitschek em 1955, juntando PSD conservador e PTB progressista, resultando em sua vitória.
E na ocasião, foi uma aliança ética, baseada na justiça social com desenvolvimento, bandeiras que foram realmente cumpridas por JK. Hoje a história é outra e vamos falar disto nas próximas respostas.
Padre César: Que tipo de trocas são as mais comuns?
Roberto Gonçalves - Antes da ditadura implantada em 1964, os partidos faziam alianças em torno de projetos específicos, não implicando nos acordos assumirem cargos ou ministérios no governo. Hoje, principalmente após o início do período lulopetista, o partido no poder faz alianças com partidos fisiológicos, oferecendo ministérios e cargos que propiciam o acesso aos cofres públicos, geralmente dilapidados com uma fome de leão. O caso do gigantesco rombo na Petrobrás é uma referencia das trocas mais comuns que se processam na política de alianças.
O PMDB apoia o governo do PT e figuras distantes da ética, como o Senador Renan Calheiros, nomeia diretores nas estatais e daí se operam escândalos e mais escândalos, divulgados diariamente pela imprensa e barrados pela maioria governista nas comissões parlamentares de inquérito, impedindo que a oposição tente desvendar os labirintos da corrupção nascidos nas trocas mais comuns. Lutar por cargos para chegar ao dinheiro!
Padre César: Quem ganha e quem perde com as alianças?
Roberto Gonçalves - Quem ganha são os promotores das alianças. Como as alianças favorecem a obtenção de mais votos, propiciando a vitória, ganha, em primeiro lugar, quem se elegeu na política de alianças. Em segundo lugar, ganha quem fez aliança com os vencedores, passando sentar-se à mesa do monumental banquete promovido com o dinheiro público.
Quem perde, sempre, é o povo. Os mais pobres, geralmente menos instruídos e responsáveis por elegerem os piores, são os mais prejudicados com as alianças. Mesmo eventualmente beneficiados com projetos de proteção social paliativos, ficam sem o essencial, caso da educação, saúde, transporte, segurança, etc.
Padre César: O eleitor, em geral, sabe dessas alianças? Como se comporta diante delas?
Roberto Gonçalves - A maioria esmagadora dos eleitores não sabe nada a respeito dessas alianças. O eleitor brasileiro não lê jornal, não gosta de política, não pratica atividades comunitárias educativas, não vive a cidadania. É da natureza brasileira a paixão pelo supérfluo, como ficou demonstrado, recentemente, na loucura da copa do mundo. Se o povo brasileiro se dedicasse à política, com a mesma paixão com que viveu a copa do mundo,num curto espaço de tempo daríamos um jeito no Brasil.
E os políticos corruptos sabem muito bem dessa fraqueza na cultura brasileira, resultando disto um culto total à corrupção e impunidade. Como temos um povo alienado, somos obrigados a engolir uma das mais corruptas classes políticas do mundo!
Padre César: A presidente Dilma teve de voltar atrás e trocar o Ministro dos Transportes. Ela sai ganhando com essa atitude?
Roberto Gonçalves - Em princípio, sim. Atingiu seu objetivo de aumentar seu tempo na propaganda eleitoral gratuita na televisão e no rádio. E aumentar o tempo de televisão virou paranoia nacional, porque a classe política acredita piamente que o povo é absolutamente idiota, optando por aqueles que são mais vistos e ouvidos no programa eleitoral.
Muito tempo de televisão também pode ser uma faca de dois gumes, principalmente quando a matéria está mentindo. Por outro lado, a Presidente Dilma demonstrou uma fraqueza abominável. Como pode, uma presidente que foi eleita com a imagem de forte, competente, durona, ceder a uma chantagem desta natureza?
Ter de trazer de volta todos corruptos que expulsou no começo de seu governo, fase em que tentou formar a imagem de faxineira ética. Para a grande massa ignorante não teve muito efeito tal chantagem, mas para os formadores de opinião pública, eleitores mais qualificados e esclarecidos, devidamente preparados para o exercício do voto consciente, ela deu com os burros n'água.
Não somou e deverá sofrer alguma perda de votos, porque imagem queimada por atitudes, como ceder à chantagem de malandros que desejam roubar o dinheiro público, dificilmente pode de ser salva na hora do voto secreto.
6- Padre César: Como moralizar as alianças? Tem jeito?
Roberto Gonçalves - A primeira ação é fazer uma profunda reforma política. Porém, como fazer uma profunda reforma política com esse Congresso Nacional de baixo clero que temos? E sempre voltamos ao mesmo ponto que explica quase todas as tragédias da vida pública brasileira: sua excelência, o alienado povo brasileiro!
Se o povo, nas eleições de outubro de 2014, daqui a menos de três meses, votasse em deputados federais e senadores de primeira categoria, teríamos um congresso nacional de alto nível, ético, pronto para proceder as reformas políticas que precisamos para acabar com várias bandalheiras, começando pela famigerada política de alianças. Mas cadê o povo? Tudo tem jeito.
Basta o povo brasileiro se interessar pela política, começar conversar sobre política, ler jornal, ouvir pessoas esclarecidas, estudar o currículo dos candidatos e votar com sabedoria e grandeza. Eis a fórmula salvadora! Tem jeito, sim senhor! Está apenas nas mãos do povo brasileiro.

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