
Após o violento ataque contra judeus que estavam rezando em uma sinagoga em Jerusalém, em novembro passado, é grande o temor por uma nova onda de episódios de enfrentamento entre israelenses e palestinos. Com os ataques motivados por questões religiosas, teme-se o aumento dos problemas políticos e territoriais já existentes na Terra Santa.
Nessa realidade, qual é a vocação da Igreja na Terra Santa?
Foto de: reprodução.

Padre David Neuhaus, Vigário Patriarcal
junto dos católicos de língua hebraica.
Para compreender essa realidade, a Rádio Vaticano entrevistou o padre David Neuhaus, Vigário Patriarcal junto dos católicos de língua hebraica. O vigário explica que a Igreja tem se mantido ao lado de todos, mantendo uma posição solidária e, ao mesmo tempo, sendo testemunha da verdade que “não é ambígua” e que vê a situação de sofrimento e opressão vivenciada por todos os lados. Leia a entrevista na íntegra:
Rádio Vaticano – Qual é a vocação da Igreja na Terra Santa?
Padre David Neuhaus – A Igreja está muito enraizada dos dois lados. A Igreja antiga, que fala árabe, e que deve viver em solidariedade com o povo palestino nos momentos difíceis desta luta pela independência, pelo reconhecimento: esta Igreja, esta parte da Igreja que fala árabe deve ser profundamente solidária com o povo palestino, mas dizendo sempre a verdade e apoiando a posição cristã no que diz respeito à violência e a tudo o que for ilegítimo nesta luta pelos direitos, pela igualdade. No outro lado, há uma Igreja muito mais pequena, muito mais fraca, que vive na sociedade hebraica, que fala hebreu, que reza em hebreu, esta parte da Igreja deve também dizer a verdade. E a verdade é sempre a mesma, a verdade não é ambígua. A verdade é a verdade da situação, do sofrimento, da opressão, da discriminação, da ocupação, do terrorismo, do uso ilegítimo da violência. E aqui, nesta outra parte da Igreja, também em total a solidariedade com o povo judeu, neste momento em que as relações entre a Igreja e o povo judeu são excelentes, as melhores desde há dois mil anos, esta outra parte da Igreja deve também falar da situação com a mesma linguagem cristã. E isto, para que possamos fazer nascer uma nova realidade, no respeito mútuo porque somos todos fiéis da mesma Igreja. Penso que está aqui uma pequena semente que pode mudar a situação, se tivermos paciência e fé porque perguntamos constantemente: “Mas o que se passa na Terra Santa? O que nós podemos fazer?”. A primeira coisa a fazer é rezar, sabendo que tudo concorre para o bem porque Deus é quem guia a História. Por agora, é esta a vocação da Igreja: usar a sua palavra para mudar o que os homens pensam. E aqui, com uma voz que pede justiça e paz para todos, pois estes são os valores da Igreja. Procuramos os que, na comunidade palestina e na comunidade israelita queiram a justiça e a paz para, juntos, trabalharmos para mudar a nossa sociedade.
"...é esta a vocação da Igreja: usar a sua palavra para mudar o que os homens pensam".
Rádio Vaticano – Quais foram os ecos da visita do Papa Francisco à Terra Santa? Quais são os seus frutos?
Padre David Neuhaus – Penso que há algo de muito importante: o Papa mostrou como a religião pode promover a justiça e a paz. Aqui, a religião é manipulada pelos nossos dirigentes políticos e ideológicos para mostrar que Deus está do meu lado e que Deus está em luta contra o outro lado. O Papa mostrou bem aquilo em que a Igreja acredita e o que promete; Deus é a Verdade e Deus ama cada um de nós. O Papa foi ao encontro de ambos os lados e teve gestos simbolicamente muito fortes para perguntar: Onde está Deus, nesta situação? É lá, onde nós procuramos o perdão que devemos procurar a reconciliação. Foi esta a força da sua mensagem durante e depois da sua visita. Onde está Deus? Por isso devemos encontrarmo-nos com a certeza de que somos todos filhos amados de Deus e que Deus não tem preferência por nenhum. Talvez Ele tenha escolhido alguns para que anunciem este amor a todos. Somos todos filhos de Deus e quando começamos a rezar devemos ter consciência de que não podemos fazer com que Deus diga o que nos agrada: “Deus está do meu lado na luta contra o meu inimigo”. Mas em oração sabemos que aquele que considero meu inimigo é na realidade meu irmão. A palavra “irmão” aparece constantemente nos discursos do Papa na Terra Santa. Quando se dirigiu a Bartolomeu, chamou-o de “meu querido irmão bem-amado”, e aí não havia divisão, só fraternidade. Por isso, mesmo com os muçulmanos, mesmo com os judeus, mesmo com os chefes palestinos, mesmo com os chefes israelitas, esta é uma palavra que pode mudar pelo menos a nossa maneira de pensar. Assim o Papa reforçou a Igreja na sua vocação de proclamar claramente qual é a nossa vocação.
"'Deus está do meu lado na luta contra o meu inimigo'. Mas em oração sabemos que aquele que considero meu inimigo é na realidade meu irmão".
Rádio Vaticano – Como vê a Igreja neste momento o futuro de Jerusalém?
Padre David Neuhaus – A propósito de Jerusalém, a Igreja durante muitos anos evocou sempre o estatuto de cidade “fora do conflito”, logo de “cidade internacional”. E talvez seja essa, por agora, a melhor solução. Mas nestes últimos anos, a Igreja tomou em consideração o fato de que pudesse talvez haver um acordo. No início dos anos noventa, pensamos que talvez tivesse chegado o momento. Na atual situação, a Igreja insiste que Jerusalém seja uma cidade internacional, em que cada um seja respeitado e onde os direitos e os fiéis de cada religião sejam respeitados. Penso que neste ponto a Igreja em vez de ficar fechada numa concepção rígida da situação, deve querer que Jerusalém cumpra a sua vocação. Lembramo-nos de magníficos discursos, mas também de um documento de João Paulo II sobre Jerusalém e a sua vocação. Não podemos nos esquecer de que Jerusalém é importante para os judeus, importante para os cristãos, importante para os muçulmanos. Deus quis assim, isto não aconteceu sem a vontade de Deus. Portanto Jerusalém deve continuar a ser uma cidade que espalha a sua mensagem; todos são meus filhos e todos devem encontrar nela a sua casa espiritual e religiosa.
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