Por Pe. Leo Pessini Em Igreja

Inferno na terra: Queimando vidas inocentes

Estamos no Centro do Continente Africano, num país chamado República Centro-Africana (RCA), ex-colônia francesa, que se tornou independente em 1960. Bangui, sua Capital a maior cidade do país tem hoje com 701.597 habitantes. Estamos num dos países mais pobres do planeta e entre os 54 que compõem o continente Africano. Com quase 5 milhões de habitantes (4,6 milhões - 2012), com 44,8% de analfabetos, uma taxa de mortalidade infantil de 111 por mil nascidos vivos, uma expectativa de vida de apenas 48 anos. Em termos de religião sua população é composta de 66% de cristãos (católicos 20,4%, independentes 18% e protestantes 15,1%); crenças tradicionais, animistas, 15,4% e islâmicos, 14,6%. A RCA é o país em que ocorreram conflitos genocidas entre forças islâmicas Seleká (significa “aliança” em Sango, idioma oficial o país), contra as milícias cristãs radicais anti-Balaka, no início de 2014. A Igreja católica declarou que a organização anti-balakás não era crista e denunciou a brutal violação de direitos humanos de ambos os lados.

É neste contexto de pobreza extrema e de violentos conflitos tribais, que o jovem sacerdote camiliano, Pe. Bernard Kinvi, ganhou o prêmio de direitos humanos pela prestigiosa organização internacional Human Rights Watch, por salvar a vida de mais de 1500 pessoas, em Bossemptelé, a 200 km da Capital, Bangui, de religião islâmica, principalmente crianças, doentes, deficientes e mulheres, acolhendo-as nas instalações do hospital, convento e escola. Suas únicas armas para se defender foi “o seu hábito camiliano com a cruz vermelha no peito”, testemunha um repórter no front de guerra do jornal britânico Le Guardian.

Papa em visita à República Centro-Africana

O Papa Francisco, visitou este país em novembro de 2015 e inaugurou oficialmente o jubileu extraordinário da misericórdia, ao abrir a porta Santa da bela catedral de Bangui. A visita do Papa, foi muito profícua e oportuna, trazendo muita serenidade ao país, bem como gerou um clima de respeito e de paz na população, segundo ouvimos. É neste contexto que realizo em meados de 2016, uma visita pastoral à comunidade de Bossemptele, aos coirmãos camilianos, que dirigem o hospital São João Paulo II e a paróquia local. Esta cidade de 22 mil habitantes não tem asfalto, nem água encanada, e muito menos elétrica. Condições precárias de vida, que bradam aos céus!

Em nossa chegada, a comunidade de irmãs, Beneditinas de Turin (Itália) bem como nossos coirmãos estavam tristes e indignados pelo ocorrido na véspera. Uma mulher de 76 anos, fora arrancada da sua família, torturada em praça pública, com mãos e pés amarrados, pendurada de cabeça para baixo numa árvore, atearam fogo... queimando-a viva! Lá estava o cadáver desta pobre criatura exposto em praça pública e ninguém sequer ousava retira-lo, por causa da crença religiosa popular de que poderiam serem possuídos por um espírito do mal e assim serem discriminados e castigados pela comunidade. O Pe. Brys, pároco, e mais dois seminaristas, desafiando esta crença religiosa animista tradicional africana, de não tocar em mortos, vão corajosamente até a praça, tiram o corpo da árvore e levam ao cemitério, onde abrem uma vala comum, para seu “digno” sepultamento.  

Mas por que esta idosa foi morta desta forma tão violenta? Ocorreu a morte de uma criança naquele pobre vilarejo, e os pais e amigos foram até um “witchdoctor”, uma espécie de feiticeiro, curandeiro e adivinhador, que indicou aquela idosa como sendo a culpada pela morte da criança. Nesta cultura, e em muitos países africanos, a crença dita que não é interessante saber qual a causa da morte mas quem é responsável pela morte. Identificado o culpado, estes dificilmente escapam de torturas e pagam até com a perda da própria vida, como neste caso. Esta crença foi responsável pela morte daquela inocente idosa.

Os doentes em geral e aqueles que estão na fase final de suas vidas, praticamente são abandonados no momento que mais necessitam de ajuda. Um grande desafio que a Igreja tem nesta realidade em termos de evangelização e pastoral. Urge uma pastoral da saúde evangelizadora e libertadora de todas estas crenças que geram sofrimento e morte, povoadas de maus espíritos que geram tanto pavor e terror na comunidade.

Profundamente chocado com a precariedade das condições de vida, tanta carência em educação, evangelização e pastoral, profundamente tocado por esta tragédia humana e comovido pelo ato de heroísmo dos meus coirmãos e das religiosas beneditinas, não contive as lágrimas e minha indignação, perante esta verdadeira “tragédia humanitária”! Francamente pensava entre as obras de misericórdia, já estava ultrapassada aquela obra de misericórdia corporal, de “enterrar os mortos”. No entanto... perante uma morte inocente e injusta, pelo menos um pouco de “dignidade” roubada em vida, mas quando sem vida, colocada numa sepultura aberta numa cova no cemitério local. Também pensava que esta história de pessoas torturadas e queimadas vivas em praça pública seria algo da Idade Média, o que ocorria com pessoas que eram julgadas como bruxas... no entanto, isto ainda, acontece hoje neste mundo, e se não houver mais educação, evangelização e promoção humana, muitos inocentes ainda perderão suas vidas.

assinatura padre leo pessini

 

               

 

Escrito por
Pe. Léo Pessini Currículo - Aquivo Pessoal
Pe. Leo Pessini

Professor, Pós doutorado em Bioética no Instituto de Bioética James Drane, da Universidade de Edinboro, Pensilvânia, USA, 2013-2014. Conferencista internacional com inúmeras obras publicadas no Brasil e no exterior. É religioso camiliano e atual Superior Geral dos Camilianos.

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Por Polyana Gonzaga, em Igreja

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