Por Pe. César Moreira, C.Ss.R. Em Igreja

O que é preciso saber sobre a crise hídrica

A crise hídrica que atingiu boa parte do Brasil e, a princípio, imaginada como grave - particularmente no Estado de São Paulo - embora sanável, deixa muita gente espantada.

Qual a realidade dos fatos? Trata-se de uma crise mais dura do que outras já acontecidas? A população vai sofrer consequências por mais tempo e passar por maior sacrifício? A causa da falta de água é apenas a estiagem ou há outros fatores que tornam a situação mais difícil e que já deveriam ter sido sanados há mais tempo?

Fazer tais perguntas e ter as respostas necessárias é direito de parte das pessoas e é dever de parte das autoridades. Sobre o assunto, ouvimos o senhor Secretário de Saneamento e de Recursos Hídricos de São Paulo, Dr. Benedito Braga.

Foto de: Pedro França/Agência Senado 

crise hidrica/Pedro França/Agência Senado

 

Padre César Moreira: Obrigado, senhor secretário, por prestar o serviço de esclarecimentos para a população, especialmente para os internautas do portal A12.com! Como pode ser caracterizada a crise de água deste ano? E por que tem preocupado de modo mais intenso a população?

Secretário Dr. Benedito Braga: Atravessamos o pior período de estiagem dos últimos 84 anos em toda região sudeste. Seus efeitos podem ser claramente percebidos pela população, tanto urbana quanto rural, em especial nas áreas de grande concentração, como o caso do Alto Tietê.

Apesar do bom volume de chuvas das últimas semanas, a situação de nossos mananciais ainda preocupa e não podemos descuidar da gestão dos recursos hídricos, como também a população não pode se desmobilizar nas ações de redução de consumo e uso racional da água.

Padre César Moreira: Além da estiagem, que outras causas agravaram a situação? Essas causas têm sido combatidas com o devido cuidado e a tempo? Concretamente, quais os problemas relativos aos serviços nessa área? São continuados? Têm sido tratados devidamente? A acusação de omissão de longos anos em fazer obras que resultem em segurança para a população é válida?

Secretário Dr. Benedito Braga: No Plano de Gestão de Recursos Hídricos da Macrometrópole, há diversos estudos e soluções de arranjos para a melhoria do abastecimento na região. Alguns desses planos previstos, em função da seca, estão sendo antecipados, como a interligação das Bacias do Paraíba do Sul e PCJ, a utilização de parte da água da represa Billings, as construções das barragens de Pedreira e Duas Pontes, além das ações de remanejamento de parte da população abastecida pelo Sistema Cantareira para outros mananciais, diminuindo assim a dependência deste. Antes da estiagem, o Cantareira produzia cerca de 33m³/s, hoje, com essas medidas, já são 14 m³/s.

A Sabesp adotou sistemas de bônus e ônus que contam com ampla participação da população no sentido de reduzir o consumo e utilizar a água de maneira mais consciente. Além disso, a Companhia divulga em seu site os índices dos principais mananciais que opera e os horários e locais onde ocorrerão reduções de pressão como medida para mitigar a perda de água e poupar os referidos mananciais.

Padre César Moreira: Vi a informação que em 1940, há 75 anos, pois, a produção da água na capital paulista era bem maior (3.970 litros por segundo) para 1 milhão e 300 mil pessoas, com média de 256 litros por habitante/dia. Hoje são 30.240 l/s hoje para 11,8 milhões de pessoas, com média de 221 l /pessoa,dia). Isso é fato? A diminuição implica em menor necessidade ou a vida fica mais prejudicada com essa média atual?

Secretário Dr. Benedito Braga: Segundo dados de 2014, a Sabesp atende cerca de 20 milhões de pessoas, e produziu cerca de 62,15 m³/s, o que, em uma conta simplista, significa cerca de 268 litros por dia para cada um desses habitantes.

De qualquer modo, é importante frisar que a ONU sugere, como uso racional e sustentável, o consumo diário de 110 litros por dia por habitante. A Sabesp tem, portanto, fornecido mais do que o dobro do recomendável pela Organização. É preciso um trabalho de conscientização para que possamos utilizar esse bem natural da melhor forma possível, sem desperdício.

Padre César Moreira: Existe desperdício de água por parte da população? Por que isso acontece? Ouço dizer que o maior desperdício se dá pelos vazamentos. É fato? Em que lugares são mais comuns? Como evitá-los? E os vazamentos nos espaços públicos? Têm sido sanados?

Foto de: Divulgação Sabesp

sistema_cantareira/divulgação sabesp

Sistema Cantareira - Bacias hidrográfica dos rios Piracicaba,
Capivari e Jundiaí.

Secretário Dr. Benedito Braga: A Sabesp está investindo R$ 6,7 bilhões em seu Programa de Redução de Perdas de Água, a maior iniciativa do Brasil nessa área. O programa começou em 2009 e vai até 2020.  

O programa da Sabesp realiza a troca de ligações domiciliares, hidrômetros e redes de água. Também são pesquisados vazamentos não visíveis em 150 mil quilômetros de redes, o que equivale ao dobro de extensão de toda tubulação de distribuição de água existente em todos os 364 municípios que são operados pela companhia.

Nos últimos 10 anos, a companhia reduziu suas perdas em 6,3 m³/s, água suficiente para abastecer 3 milhões de pessoas. Vale lembrar que o índice de perdas total não depende somente   da companhia. Ações como a regularização de imóveis irregulares e loteamentos clandestinos, de responsabilidade dos municípios, são também muito importantes para reduzir as perdas de água no sistema de abastecimento.

Com o programa de redução de perdas, a Sabesp já alcançou o patamar de perda física de 19,5%, indicador menor que o de países desenvolvidos como França ou Itália. Vamos continuar avançando para reduzir ainda mais. 

Padre César Moreira: Qual a expectativa para o futuro próximo em relação à água? Ela ficará mais rara, mais cara? Que fazer para evitar situações dolorosas?

Secretário Dr. Benedito Braga: Uma crise como a que estamos vivendo traz como dado positivo a maior conscientização da população quanto à economia de água. Nós vamos superar a crise, não tenho dúvida disso. Mas ela servirá para que, mesmo sem crise, a população mantenha hábitos de economia e uso racional permanentes.

A grande lição que os brasileiros estão aprendendo, sobretudo aqui no Sudeste, onde não estavam acostumados, é que é possível economizar sem que isso represente um grande sofrimento – banhos mais curtos, abre e fecha a torneira ao fazer a barba e assim por diante. São pequenos gestos que representam grande economia. Acho que esse espírito, em médio e longo prazo, representará um grande avanço na nossa capacidade de reservar água e de  proporcionar  a segurança hídrica para todos.

Aliado a isso, o Governo de SP já está colocando em prática obras de médio e longo prazo para garantir o abastecimento da Macrometrópole – área que engloba as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas e Vale do Paraíba, além da Baixada Santista. Trabalhamos hoje com um horizonte de 2050, isto é, trata-se de um planejamento com bastante antecedência. Saneamento e abastecimento são temas tratados com absoluta prioridade.

Colunista - Padre César Moreira

Escrito por
Padre Antônio César Moreira Miguel (Arquivo redentorista)
Pe. César Moreira, C.Ss.R.

Sacerdote, jornalista, radialista e escritor com muitos anos de atividade nos meios de comunicação social. Foi diretor geral da Rede Aparecida de Comunicação e fundou a Rede Católica de Rádio, hoje atua na área de assistência social da Província de São Paulo.

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