A síndrome pós-aborto será debatida em conferência da Arquidiocese de Salvador (BA) nos dias 17 e 18 de março com a presença da professora e mestre Isaura Cunha, pós-graduada no Weston Jesuit School of Theology e assistente pastoral na Diocese de Boston (EUA).
O presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Vida e a Família, Dom João Carlos Petrini, bispo de Camaçari (BA), em entrevista ao A12.com falou sobre a síndrome pós-aborto, explicando o que significa esse transtorno e como a Igreja pode ajudar quem sofre com o problema.
A12 - O que é a Síndrome pós-aborto?
Dom Petrini - Com a expressão "síndrome pós-aborto" entende-se um conjunto de situações de sofrimento psíquico que pode variar desde a depressão até transtornos psicológicos e piquiátricos mais graves e que aparecem depois da prática do aborto. Estudos realizados por psicólogos e psiquiatras nos Estados Unidos indicam inclusive com que porcentagem esses problemas se apresentam. Podem ser percebidos imediatamente depois da prática do aborto, mas também depois de anos. No fundo, a mulher toma sobre si e carrega sozinha a responsabilidade de rejeitar a vida que está em formação no seu ventre. Ela passa por uma situação de violência que envolve muitas pessoas: o genitor da criança que é abortada, o contexto de familiares e amigos que fazem pressão para ela decidir-se pelo aborto, o médico e outras pessoas que o realizam. Trata-se de uma violência sobre o bebê mas em grande medida sobre ela também. No entanto, ela carrega a responsabilidade do fato. Todos os argumentos ideológicos e políticos ou "concretos" que pretendem legitimar a prática do aborto não conseguem evitar que, em algum momento, a dor da consciência da mãe venha à tona. O desconforto assim experimentado e, às vezes, algum tipo de perturbação psíquica são denominados "síndrome pós-aborto".
A12 - Como a Igreja pode ajudar as pessoas que sofrem dessa síndrome?
"A situação de quem se envolveu com a prática do aborto exige uma atenção maior, um caminho espiritual que permite chegar até a reconciliação sacramental".
Dom Petrini - Existe na Igreja o Sacramento da Reconciliação que oferece o perdão. Mas, a situação de quem se envolveu com a prática do aborto exige uma atenção maior, um apoio especializado com o suporte de profissionais (psicólogos, psiquiatras), além de um caminho espiritual que permite chegar até a reconciliação sacramental, preparada com diversos passos e vivenciada de maneira profunda e verdadeiramente restauradora. A Igreja, já desde 1984, elaborou o Projeto Raquel, um caminho de cura centrado na misericórdia divina que acolhe a pessoa e a ajuda a reconciliar-se consigo mesma, com o bebê morto e com Deus, recebendo, por fim, o perdão que renova a vida.
A12 - Qual o papel da família nos casos de síndrome pós-aborto?
Dom Petrini - A família na qual é cultivado o hábito de partilhar a vida, na qual um está atento à situação do outro (saúde, doença, trabalho, esperanças, desilusões, etc.), onde cada um percebe que existe alguém que se importa com ele, pode ter uma função muito importante. Pode reconhecer que por trás da dor de cabeça e de outras queixas existe um problema mais profundo que merece ser enfrentado e resolvido por meios adequados e pode ajudar a pessoa que está sofrendo a procurar o Projeto Raquel, onde poderá encontrar, em ambiente de total sigilo, a ajuda necessária para olhar para dentro do seu coração e para receber o abraço de Jesus Cristo e, assim, a cura esperada.
A12 - Em Salvador (BA) haverá essa conferência qual importância de discutir o tema com padre, médicos, religiosos, assistentes sociais, seminaristas e agentes de pastoral?
Dom Petrini - A Conferência que será realizada na Universidade Católica do Salvador, com a presença de pessoas que estão intimamente envolvida com o Projeto Raquel, tem como finalidade trazer o tema da síndrome pós-aborto a público, pois existe uma tendência a silenciar o sofrimento que se experimenta como consequência da grande violência que a prática do aborto envolve, para não atrapalhar a militância que considera o aborto uma conquista de liberdade, ignorando outros fatores desta realidade. Além disso, pode ser uma ocasião para que diversas pessoas fiquem conhecendo o Projeto Raquel e encontrem caminhos de resposta a problemas pessoalmente vividos ou reconhecidos em pessoas da própria convivência.
Longe das questões ideológicas e políticas, procura-se dar atenção a quem sofre, "derramando óleo nas feridas" que afetam muitas pessoas.
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