Por Pe. Leo Pessini Em Igreja

Uma ética de solidariedade antropocósmica!

Vivemos em tempos de profunda crise ecológica e perplexos nos perguntamos sobre o risco da vida desaparecer da face da terra no futuro. Neste contexto emerge um grito forte de todos os cantos da humanidade da necessidade de mudança da qualidade de relação do ser humano frente a todos os seres viventes e meio ambiente.

ambiente

Esta relação tem sido simplesmente desastrosa no mundo ocidental. O aquecimento global, fenômenos adversos da natureza, taiscomo tsunamis, maremotos, entre outros, são hoje uma evidência de que o ser humano tem parcela de responsabilidade (chamado “fator antrópico”). Estes fenômenos adversos não são “tão naturais” como se apresentam a primeira vista, afirmam hoje os cientistas da área. Urge que implementemos um novo paradigma de cuidado e respeito da casa comum de toda a humanidade.

A Encíclica Laudato Si do Papa Francisco fala da necessidade de “conversão ecológica”, de mudança de estilos de vida, começando em nível pessoal e comunitário, chegando até o nível de políticas públicas. Necessitamos de uma “ecologia integral e humana”, aponta o documento Papal.

É precisamente neste contexto que cresce também na humanidade a sensibilidade de proteger e cuidar dos animais não-humanos. Isto é um sinal de evolução ética de nossa civilização, algo bom portanto, mas não podemos cair no outro extremo. Se primeiro era somente o ser humano que contava, agora é somente os animais não humanos, ou o meio ambiente que importam!. A ética no mundo ocidental, tradicionalmente se preocupou somente com os seres humanos, deixando de lado os outros seres vivos e o meio ambiente. Estes não eram vistos ou considerados como uma questão ética. Hoje com os conhecimentos que adquirimos sabemos que tudo o que existe em nosso planeta, está interligado numa grande “teia da vida”, e nós humanos somos apenas um elo nesta grande teia da vida.

Esta crescente sensibilidade de cuidado e proteção em relação aos animais e com o meio ambiente, por vezes se choca com o desprezo e indiferença crescente com vidas de seres humanos. Estes por causas de guerras, pobreza e falta de perspectivas de futuro e do mínimo necessário para se viver com dignidade, são obrigados a emigrar em situações riscos terríveis de vida como ocorre hoje no mediterrâneo em direção à Europa!

O que dizer de nossa “nobre” humanidade, quando encontramos um bebê ainda vivo descartado silenciosa e anonimamente numa lata de lixo e sendo encontrado, quando um solidário cãozinho late forte chamando a atenção pela inesperada descoberta de algo precioso!

Ou então quando defendemos ferrenhamente a vida das baleias, e sequer lembramos ou nos preocupamos da vida dos pobres pescadores...Ou então, que dizer dos valores que comandam esta sociedade, quando vemos animais de estimação sendo tratados como personagens Vips, em hospitais e hotéis de cinco estrelas e crianças nas favelas brincando em meio a esgoto a céu aberto e quando necessitadas de cuidados de saúde, em prontos-socorros de hospitais públicos, não tendo leitos, são colocadas no chão em prontos-socorros e não raras vezes morrem! “ Os cachorrinhos estão sendo melhor cuidados e tratados que os nossos bebês e crianças”, vociferou uma mãe angustiada e em prantos abraçando o corpinho de seu filhinho acidentado morto, que não conseguiu receber cuidados médicos no pronto-socorro do hospital público, de seu bairro!

Enfim, necessitamos urgentemente implementar uma nova ética de respeito e cuidado, neste âmbito de relações entre os seres vivos, humanos, animais não humanos e meio ambiente. Poderíamos chamar de “uma ética de solidariedade antropocósmica”! Esta é a perspectiva de valores que abre o caminho para uma ecologia “integral e humana”.

assinatura padre leo pessini

Escrito por
Pe. Léo Pessini Currículo - Aquivo Pessoal
Pe. Leo Pessini

Professor, Pós doutorado em Bioética no Instituto de Bioética James Drane, da Universidade de Edinboro, Pensilvânia, USA, 2013-2014. Conferencista internacional com inúmeras obras publicadas no Brasil e no exterior. É religioso camiliano e atual Superior Geral dos Camilianos.

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