Por Pe. César Moreira, C.Ss.R. Em Igreja

Universidades Católicas: a presença marcante da Igreja na atividade educacional (parte II)

 

estudantes

Conforme o diário católico italiano Avenire, em 2011, as centenas de universidades católicas espalhadas pelo mundo tinham de 3 a 4 milhões de estudantes matriculados.

A informação me faz pensar no Brasil com suas instituições similares. E, para satisfazer a minha curiosidade e a dos internautas, escolhi entrevistar sobre o assunto um intelectual italiano que na apresentação do seu mais novo livro "Antropologia, religiões e valores cristãos" conta a história das universidades católicas brasileiras. .:: Leia aqui a 1ª parte da entrevista ::.

Confira agora a 2ª parte da entrevista com o professor Lino Rampazzo:

Padre César Moreira: Existe um debate histórico entre ciência e fé. Em que consiste esse debate? E que acrescenta?

Professor Lino Rampazzo: “Ciência” e “fé” pertencem a “duas ordens de realidade que, não raro, tendem a se opor”. E o texto de João Paulo II acima citado indica o porquê desta oposição: o “método” diferente. A ciência tem como método a investigação da verdade; a fé aceita uma mensagem que contém já pronta a verdade, aliás, “tem a certeza de conhecer, já, a fonte da verdade”.

Não há dúvida de que os métodos são bem diferentes. Existe, porém, para os cristãos, a seguinte convicção: Deus é a origem da natureza e, ao mesmo tempo, da revelação, manifestada particularmente em Jesus de Nazaré. O cientista, de um lado, estuda a manifestação de Deus na natureza, por meio da investigação racional, e o homem de fé (que pode também ser cientista) aceita, ao mesmo tempo, a outra revelação de Deus, que se realizou em Jesus Cristo. E Deus, origem de toda a realidade e totalmente perfeito, não pode contradizer-se.

Como consequência desta convicção, desde os primeiros séculos da sua história, houve, na Igreja, a preocupação de integrar a cultura e a fé. Assim, o apologista Justino, na primeira metade do século II d.C., desenvolveu a tese de que o Logos (= a sabedoria de Deus) estava presente em Moisés, nos filósofos pagãos e tinha-se encarnado em Cristo.

Hoje, o desenvolvimento dessa mesma tese leva à procura de integração entre a ciência e a fé, que encontra na Universidade Católica seu lugar privilegiado.

A procura desta integração, naturalmente, encontra seu espaço seja na Universidade Católica, como nas Evangélicas, devido à comum matriz cristã.

Por este motivo as Instituições de Ensino Superior (IESs) confessionais, na procura do bem-estar do ser humano integral, abrem um espaço para a formação humana, espiritual, religiosa e cristã, no pleno respeito das convicções filosóficas e religiosas de cada professor e de cada aluno.

Gostaria de lembrar, neste momento, a afirmação do Papa João Paulo II quando inicia  a escrever a encíclica sobre a fé e a razão. Ele assim se expressa: "A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade". Poderia comentar dizendo que, como o pássaro não pode voar com apenas uma asa, mas precisa de ambas, assim no caminho rumo à verdade, o homem precisa de fé e de razão. A título de exemplo, foi a partir da visão da fé cristã que a humanidade incorporou os princípios da dignidade da pessoa humana, da igualdade entre os homens, da fraternidade. Estas "leituras" da realidade, a partir da fé, enriquecem o caminho do homem rumo à verdade.

O Papa João Paulo II, no citado documento "Ex corde ecclesiae", mostra a fecundidade recíproca do diálogo entre a teologia e as outras disciplinas, nestes termos: "A teologia  dá um contributo a todas as outras disciplinas na sua investigação de significado, ajudando-as não só a examinar o modo como as suas descobertas influirão sobre as pessoas e sobre a sociedade, mas também fornecendo uma perspectiva e uma orientação que não estão contidas nas suas metodologias. Por seu lado, a interação com as outras disciplinas e as suas descobertas enriquece a teologia, oferecendo-lhe uma melhor compreensão do mundo de hoje e tornando a investigação teológica mais adaptada às exigências de hoje." (N. 19).

Padre César Moreira: Bom número de brasileiros não têm acesso ao ensino superior por falta de recursos. Como a universidade católica convive com esse drama?

Professor Lino Rampazzo: Tem que haver como que um "malabarismo" entre os custos que a universidade católica deve arcar (pense-se nos salários dos professores e dos muitos outros funcionários, ou à manutenção dos ambientes) e a colaboração para que brasileiros com recursos limitados tenham acesso ao ensino superior. A "filantropia" que têm muitas destas universidades se expressa na concessão de um número considerável de "bolsas" para estudantes mais necessitados. Poderia dizer, que dentro dos muitos "limites", há um esforço significativo das universidades católicas neste sentido.

Padre César Moreira:  Algumas universidades católicas são chamadas de PUC. Por que isso? Em que são diferentes das outras?

Professor Lino Rampazzo: Atualmente, no Brasil, há sete universidades católicas, que são também “pontifícias” (as “PUCs”): Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Campinas, Belo Horizonte, Curitiba e Goiânia. As universidades católicas pontifícias mantêm uma ligação ainda mais estreita com a autoridade central da Igreja por meio da Congregação para a Educação Católica.

Padre César Moreira: E os dois novos livros. A quem são dirigidos?

Professor Lino Rampazzo: Os dois novos livros, que o Sr. citou na introdução desta entrevista, ambos editados pela Paulus, são uma tentativa de "diálogo" entre a fé e a razão. Limito-me a indicar os temas neles analisados.

Em "Antropologia: religiões e valores cristãos",  procurei refletir sobre o SER (antropologia), o CRER (religião) e o AGIR (ética).

A abordagem antropológica, depois de uma reflexão sobre os vários níveis de conhecimento, apresenta as diferentes manifestações do ser humano (corpo, conhecimento, vontade, linguagem, vida em sociedade, cultura, trabalho, divertimento, religião) e a problemática sobre seu “ser”, sua “autotranscendência” e sua dignidade de “pessoa”. A esse respeito, procuro também mostrar que o conceito de "pessoa" nasceu dentro da teologia cristã e depois enriqueceu a ética e o direito.

A reflexão sobre religião, depois de uma breve análise sobre o "sagrado", indica os elementos fundamentais de seis sistemas religiosos particularmente significativos: Hinduísmo, Budismo, Religião de Israel, Cristianismo, Islamismo e Ritos Afro-Brasileiros. Além disso, reflete sobre o interesse místico-religioso do homem pós-moderno.

Por fim, aos homens de hoje que procuram uma civilização alternativa é apresentada a proposta de alguns valores éticos: a bioética, o valor da sexualidade e da família, a ética na vida socioeconômica e na comunicação.

Esta obra destina-se, particularmente, aos estudantes das Universidades Católicas como subsídio para as disciplinas de cultura religiosa e ética.

Na obra "Princípios Jurídicos e éticos em Santo Tomás de Aquino", que escrevi juntamente com o Prof. Ms. Marcius Tadeu Maciel Nahur, procuou-se analisar o pensamento de Tomás de Aquino sobre os temas da Justiça, do Direito, da Injustiça, da Lei e da Propriedade Privada. Destinatários  deste livro são particularmente os estudiosos da área do Direito. A Editora Paulus, colocou, pois, esta publicação dentro da Coleção de "Filosofia do Direito".

São Tomás viveu no século XIII (1225-1274), mas até hoje continua sendo uma referência. A título  de exemplo eis duas citações de pensadores atuais: Umberto Eco e Jürgen Habermas. O primeiro escreveu: “Quando me vejo assim tão perdido diante de questões de doutrina, recorro à única pessoa em quem confio, que é Tomás de Aquino.” (ECO, U.; MARTINI, C. M. Em que creem os que não creem? Rio de Janeiro: Record, 2001, p. 50).

 E Habermas, por sua vez, assim se expressou: “Sou um admirador de Santo Tomás de Aquino. Ele representa uma forma do espírito que podia responder por si mesmo por sua autenticidade...Hoje já não existe uma rocha de tal envergadura no baixio do mar das religiosidades desvanecentes.” (HABERMAS, J. Israel o Atenas: ensayos sobre religión, teologia y racionalidad. Trad. Juan Carlos Velasco Arroyo. Madrid: Trotta, 2001, p. 189).

Ressalto: seja Umberto Eco, como Habermas,  não são pensadores católicos; mas, mesmo assim, do ponto de vista racional, consideram muito significativa a contribuição do filósofo-teólogo Tomás de Aquino, que continua ensinando nos nossos dias.

Colunista - Padre César Moreira

Escrito por
Padre Antônio César Moreira Miguel (Arquivo redentorista)
Pe. César Moreira, C.Ss.R.

Sacerdote, jornalista, radialista e escritor com muitos anos de atividade nos meios de comunicação social. Foi diretor geral da Rede Aparecida de Comunicação e fundou a Rede Católica de Rádio, hoje atua na área de assistência social da Província de São Paulo.

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