Por Redação A12 Em Mundo Atualizada em 27 NOV 2017 - 09H46

Civilização está em desajuste com limites do planeta

É de James Lovelock, criador da Teoria de Gaia, a citação a seguir, recolhida de sua obra Gaia – Alerta Final (p.83): “Nossa civilização industrial contemporânea está irremediavelmente desajustada para sobreviver em um planeta superpopuloso e com poucos recursos, iludida pelo pensamento de que invenções brilhantes e progresso nos darão a calçadeira que nos ajustará ao nosso nicho imaginário”.

Pode-se admitir que, no afã de desfrutar uma condição de vida considerada boa e razoável - o que se trata de legítima aspiração imanente de todos - talvez nossa civilização ainda não tenha se dado conta de que, sequiosa em alcançar o progresso humano a qualquer custo, por esse motivo, desde muito, já tenha colocado a corda em seu próprio pescoço. E pior: não obstante a evidente situação de crise ambiental ora em avançado curso, talvez nossa civilização nem mesmo tenha desenvolvido com suficiente clareza a percepção de que o aperto dessa corda, dia após dia, corre em consonância com o modo de vida humano que se encontra totalmente desajustado frente aos limites planetários; limites esses, é importante que se diga, que servem para restringir o ímpeto do crescimento da economia linear (extrai-produz-consome-descarta), mas que são ignorados pelo establishment em nome da busca constante de lucros, dada a direção do mercado devidamente favorecida pela dominante ideologia do próprio crescimento.

Sem espaço a dúvidas, isso tudo está alinhavado ao modelo de produção industrial que sobrevive ao se expandir à custa da deterioração ambiental; para tanto, rompe as fronteiras planetárias (vide figura a seguir). Nesse pormenor, vale dizer que, de nove espaços operacionais seguros para a manutenção da humanidade, quatro deles (mudanças climáticas, perda de integridade da biosfera, acidificação oceânica e ciclos biogeoquímicos – fósforo e nitrogênio) que regulam a estabilidade e resiliência da Terra, já foram ultrapassados (identificados com a cor vermelha), para prejuízo do equilíbrio da Terra.

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O nó górdio de toda essa problemática reside essencialmente no modo de agir (notadamente, o consumo) da população, e nem tanto no número excessivo de indivíduos pressionando os recursos do planeta - hoje, são 7,5 bilhões; em 2050, serão 9,5 bilhões de habitantes vivendo num único planeta.

Shutterstock
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Em relação ao modo de consumir das populações, vale atentar, por exemplo, para as diferenças de Pegada Ecológica (PE), ou seja, nossos rastros no mundo em termos de consumo de água e terra medido em hectares globais (gha). Um hectare global significa um hectare de produtividade média mundial para terras e águas produtivas em um ano. Enquanto a (PE) do brasileiro é, em média, de 2,4 gha/per capita, a dos estadunidenses e canadenses somados, também na média, chega em 9,4 gha/per capita.

Dessa observação, ilustra-se o seguinte argumento: estabelecida numa situação que exige crescente produção material para atendimento de necessidades e desejos consumistas cada vez mais sufocantes de certas populações, principalmente as que apresentam elevada (PE), contabilizando portanto os recursos naturais biológicos renováveis (grãos e vegetais, carne, peixes, madeira e fibras, energia renovável etc.), segmentados em Agricultura, Pastagens, Florestas, Pesca, Área Construída e Energia e Absorção de Dióxido de Carbono (CO2), a economia global, desde o avanço do industrialismo (meados do século 18, nos países de industrialização clássica, e a partir do século 20, nos países de industrialização tardia) inaugurou alguns “modelos econômicos e sociais” que, grosso modo, confluíram para consolidar de forma pontual uma sociedade de consumo de massa, desajustando-se assim, no todo, o equilíbrio da Terra.

Colocada em pratos diferentes de uma mesma balança, tem-se que, de um lado, encontra-se o peso do modus operandi da economia global que conflita, pelo lado oposto, com as limitadas condições de recursos naturais e energéticos que a natureza é capaz de oferecer. Inegavelmente, o peso maior tem recaído em considerável prejuízo à natureza que, como dissemos, não tem sido capaz de suportar a pressão humana imposta, sobretudo, pelo avanço da produção econômica global.

Se não bastasse apenas o rompimento de fronteiras planetárias, é certo que, ao longo dos últimos tempos, e sem muito esforço, o engenho humano tem conseguido a estúpida proeza de ainda colocar em situação de risco de extinção parcela significativa da rica biodiversidade de espécies. Serve de exemplo: 30% dos anfíbios, 25% de coníferas, 25% de recifes de corais, 25% do estoque de peixes, 21% de mamíferos e 12% de aves, evidenciando-se assim um correlato desajuste civilizacional junto ao mundo ecológico.

Lamentavelmente, tem sido esse o comportamento de nossa civilização, referenciando-se num completo desajuste de sua relação junto ao meio ambiente, local de onde os homens tiram tudo aquilo de que precisam para sobreviver.

* Marcus Eduardo de oliveira é economista e ativista ambiental

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