Há quem possa estranhar ser admitida, além da música vocal e instrumental, também a dança na liturgia. Mas se formos analisar os documentos da Igreja e as orientações litúrgicas, encontraremos amplas razões, sobretudo históricas e culturais, para usá-la, uma vez que "nosso corpo, sensível e dócil ao movimento, é uma fonte inesgotável de expressão. Por isso, na liturgia têm importância os gestos, as posturas, as caminhadas e a dança", conforme o documento 43 da CNBB, "Animação da vida litúrgica no Brasil" (Paulinas, São Paulo, 1989, em seus números 83, 207, 241 e 297).
Porém é preciso lembrar que a dança litúrgica, assim como o canto e a música, não é uma dança qualquer, um simples espetáculo ou exibição para a assembleia assistir e aplaudir, um elemento estranho à celebração, mas ela faz parte integrante da ação litúrgica, é uma liturgia dançada, perfeitamente integrada aos ritos e diversos momentos celebrativos. Portanto, deve ser bela, digna, sóbria, plena de harmonia e simplicidade, e sobretudo orante, levando toda a comunidade a rezar. Assim sendo, a equipe da dança litúrgica (dançarinos e dançarinas) pode exercer um verdadeiro ministério, a serviço da comunidade celebrante.
Como fenômeno universal que é, a dança faz parte da cultura dos povos. Desde o antigo Israel, ela sempre acompanhou o canto, os salmos, o louvor do povo diante do Senhor. A Bíblia está repleta de passagens onde o convite à dança e ao louvor se faz... O povo brasileiro tem fortes raízes indígenas e africanas, portanto é também um povo dançante, que usa gestos e movimentos, o corpo enfim como expressão litúrgica, para traduzir e ajudar a mergulhar no mistério. Mais do que comunicação verbal, a liturgia é ação, e como tal, usa a linguagem afetiva para expressar o Inefável.
"O canto e a dança têm um lugar próprio nas celebrações; devem ter qualidades, e serem capazes de exprimir o espírito de oração..."
Participar das Liturgias em Moçambique (África), em clima de celebração festiva da fé, foi uma experiência emocionante. Faz parte da cultura africana a dança litúrgica, de modo que nas liturgias mais solenes há sempre o grupo de dança, em geral dançarinas (mulheres, jovens e crianças) integrando a ação litúrgica de uma forma orante, perfeita, quase sublime, acompanhando as procissões da entrada, oferendas, ação de graças e louvor final, além do Ato Penitencial, do Gloria, Santo e outros. Momento muito solenizado é a ação de graças, quando a comunidade toda, contagiada pela vibração das dançarinas, se põe a dançar e a bater palmas, num ritmo próprio, leve e cheio de graça... Uma linguagem privilegiada, intraduzível!... Envolvendo o corpo inteiro, desde o olhar, das mãos aos pés, os gestos nascem suaves e delicados, numa postura de total entrega da alma a Deus. Pode ajudar-nos saber o que diz o "Diretório de Pastoral" da Arquidiocese de Nampula, através do seu pastor, Dom Tomé Makkweliha, a esse respeito: "O canto e a dança têm um lugar próprio nas celebrações; devem ter qualidades, e serem capazes de exprimir o espírito de oração; serem preparados e realizados com dignidade e devoção, de modo a criar um ambiente de oração para todos. Na Igreja, cantar e dançar é rezar. Para isso, o canto e a dança, assim como o toque de instrumentos musicais, devem ter sentido de verdadeira oração. Os instrumentos sejam tocados o mais baixo possível; são simplesmente para acompanhar o canto e não para exibições, nem devem estar acima das vozes. O ritmo dos toques e o estilo da dança devem ser diferentes dos toques e danças profanas que se realizam no mundo." Vale para nós!...
Também o "Guia Litúrgico-Pastoral" da CNBB (Edições CNBB, 2007) dedica algumas páginas à dança litúrgica, orientando como e quando deve ser feita, respeitando-se sempre o sentido ministerial dos diferentes momentos celebrativos, e recomendando ainda que "se usem vestes dignas e adequadas..."
Como não temos uma tradição de dança nas celebrações, nossos Bispos pedem discernimento, sensibilidade e prudência pastoral no uso da dança litúrgica, respeitando-se a cultura do povo, que é afinal o sujeito da ação litúrgica.
Além do livro "Música, dança e poesia na Bíblia", de Maria Victoria Triviño Monrabal (Paulus, 2006), vale a pena consultar o Estudo da CNBB 79 - "A música litúrgica no Brasil" ( Paulus, São Paulo, 1999), do nr. 206 ao 219, que faz interessantes considerações sobre a dança litúrgica, como criadora de harmonia entre o espírito e o corpo, entre a pessoa e a comunidade, entre o visível e o invisível. Parafraseando o Evangelho de João, nos diz que "o Verbo se fez dança e exultou no meio de nós!"
Fica então a pergunta, feita pelo próprio Estudo 79: E por que não a dança?...
*Ir. Miria Kolling é Religiosa da Congregação do Imaculado Coração de Maria, compositora da música litúrgica e religiosa, musicista, pedagoga, gravou mais de 30 trabalhos em LPs e CDs, como também livros sobre canto e liturgia.
FONTE: https://www.irmamiria.com.br
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