Por Wallison Rodrigues Em Música

O canto que a vida (en)canta

O universo que nos cerca é musical... De sons simples e naturais – como o cantar dos pássaros, as ventosidades sonoras que nosso organismo emite, entre muitos outros – aos sons rebuscados e criados (como um concerto de violas, a bateria, entre outros). Segundo, Fonseca (obra: Quem canta? O que cantar na liturgia? p.45) é uma linguagem que expressa a vida humana em várias dimensões. Por exemplo, existe uma obra de Arnaldo Antunes, intitulada “Música para ouvir”[1], expressa muito bem este assunto, vale a pena conferir.

 

"...bom seria que cada comunidade tivesse “repertórios litúrgicos”, que além de levar em conta a música ritual que expresse o mistério de Cristo, também pudesse brotar de suas próprias raízes culturais..."

A vida canta... Mas, qual é o canto que a vida canta? Ou seria a vida que encanta o canto? Apresenta-se curioso o fato, referindo a música e depois propriamente ao canto litúrgico, é que muitas vezes, o encaramos como bens culturais, meios de dar prestígio a uma instituição e até embelezamento às cerimônias. Mas, na verdade, devem ser entendidos como “subsídios simbólicos a ser aproveitados por comunidades concretas, de forma realmente significativa e participativa” (cf. A música litúrgica no Brasil, estudo 79/CNBB, nº144). Interessante ressaltarmos é que existem comunidades concretas, ou seja, um povo que possui uma característica, uma identidade, entre outros. Sendo assim, bom seria que cada comunidade tivesse “repertórios litúrgicos”, que além de levar em conta a música ritual que expresse o mistério de Cristo, também pudesse brotar de suas próprias raízes culturais, isto é, do “jeito de cada povo”.

Quanto a música mais próxima estiver do povo, culturalmente falando, mais viva na memória ela se faz, e este é um elemento que facilita a participação do povo. Se o canto, como afirma a Sacrosanctum Concilium, 112, é parte necessária e integrante da liturgia, porque as expressões culturais e religiosas também não haveriam de ser? – estamos entrando num tema complicado, pois temos diversas expressões culturais e religiosas que nos cercam.

O canto nasce da experiência da vida. Até mesmo nossos cantos litúrgicos, em que muitas vezes, são taxados como “feios”, “sem graça”, “muito estranhos e difíceis”... Brotam do âmago de cada experiência de fé, nascem das entranhas das comunidades. “Comunidades concretas”, onde nenhuma comunidade celebrante esta nos ares, sem raízes e traços histórico-culturais. Eis alguns exemplos:

1. O “Glória” de Pe. Geraldo Leite Bastos, de inspiração africana (1960)²: figura_2

 2. A música de comunhão para Quaresma, “Como raiar, raiar do dia”³, de Reginaldo Veloso, eivada de traços nordestinos:
figura_2

3. Ou ainda, este “Glória”, de Wallison Rodrigues, de inspiração goiana, na Folia de reis (2013):
figura_3

 Enfim, estamos falando de um canto que nasce da vida e que ganha sabor e vivacidade em nossas celebrações, quando é cantado na própria vida. Quando não somente nossos lábios se encarregam de cantá-lo. Mas, referimos a uma boca que esta em sintonia com o coração. O documento 79 da CNBB, assim diz: “Nada a temer, nada a perder, se cada assembleia tem sua personalidade musical, como cada pessoa tem seu rosto, seu semblante, desde que se possa reconhecer, sob traços tão diferentes, o único semblante da Esposa de Cristo, a sua Igreja” (nº187).

 

"Nada a temer, nada a perder, se cada assembleia tem sua personalidade musical, como cada pessoa tem seu rosto..."

Não estamos falando de um querer agradar a todos, pois deste jeito não agradaríamos a ninguém, e ofenderíamos a própria essência da celebração. Mas, é algo que vai além, é um perceber que existe uma coerência entre assembleia e o mistério celebrado. Se isso não ocorre, cada domingo em que celebramos a Palavra e a Eucaristia é mais um em meio a tantos já “idos” e outros que ainda estão por vir. Seria uma ação ou um cantar que não traz sentido a própria vida?

 Para refletir: Você já percebeu este universo musical em sua volta? Como você vive o canto em na comunidade? Existem (pré)conceitos sobre a música litúrgica? Qual é a disponibilidade que os membros das equipes de canto/coral tem para aprenderem novos cantos? Com que força o cantar também poderia brotar da vida?

Indicação de leitura: A música litúrgica no Brasil, doc. 79, CNBB.
Disponível em: https://www.cnbb.org.br/component/docman/doc_view/340-a-musica-liturgica-no-brasil-estudo-cnbb-79

 

Abração fraterno e musical, de
Wallison Rodrigues

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¹“Música para ouvir”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=rWNUaU8lWAE. Acesso em 06/03/2015.
²CD Tríduo Pascal II, faixa 06 – Gravadora Paulus. Disponível em: https://www.paulus.com.br/loja/cd-triduo-pascal-ii-vigilia-pascal_p_2265.html
³CD QUARESMA XIV (CNBB), Faixa 07 – Gravadora Paulus. Disponível em: https://www.paulus.com.br/loja/cd-liturgia-xiv-quaresma-anos-b-e-c_p_2284.html

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