Por Redação A12 Em Opinião

É pior "sentir-se" feliz ou "sentir-se" livre?

O escritor inglês Aldous Huxley imaginou, com grande talento e inquietante verossimilhança, um Estado que regula as relações sociais não para garantir que todos sejam livres, mas exatamente para o contrário: garantir que ninguém se atreva sequer a pensar por conta própria.

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Seu livro mais célebre é o aplaudido "Admirável Mundo Novo", a descrição de uma sociedade desumanizada, controlada por um governo mundial único e segmentada conforme um rígido sistema de castas, cujos membros são reduzidos a meros executores de funções decididas pelo Estado. Não há mais religião nem filosofia nesse "admirável mundo novo". Há somente o pensamento único imposto pelo Estado totalitário. Não há mais família, nem casamento, nem paternidade e maternidade. Todos são gerados mediante produção em série, em laboratórios de fertilização artificial; a palavra "mãe", aliás, desperta repulsa nas pessoas desse mundo "perfeito", por evocar uma realidade primitiva e nojenta em que a nossa espécie se reproduzia como os animais irracionais. Não há mais amor. Mas há sexo livre: as relações sexuais são um exercício físico ou um passatempo como qualquer outro,desvinculadas de qualquer resquício de afeto ou significado. Não há tristeza, supostamente: todos têm acesso a uma pílula artificial que provoca a sensação de prazer e serenidade, mantendo a todos sempre mansos e sob perfeito controle contra questionamentos ou rebeldias. Vive-se para o agora, obedecendo a uma programação predeterminada, sem nenhuma transcendência, nenhum sonho, nenhum projeto pessoal de vida, nenhum protagonismo, nenhuma liberdade.

Foto de: reprodução. 

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O escritor inglês Aldous Huxley.

Menos conhecido que "Amirável Mundo Novo", mas também repleto de convites à reflexão sobre a nossa própria realidade, é o último livro escrito por Huxley: "A Ilha".

A ilha em questão se chama Pala e nunca foi colônia de país algum: por isso, não sofreu influência de nenhuma religião externa nem foi explorada como fonte de matérias-primas. Seus líderes governam a ilha pensando apenas no bem comum e no justo uso dos poucos recursos disponíveis no território. Os ilhéus vivem uma vida pacata e em harmonia com a natureza, sem vínculos com instituições nem códigos complexos de regras sociais. A população da ilha é incentivada a se libertar de todo condicionamento capaz de manipular os indivíduos.

Vítima de um naufrágio, chega a Pala o jornalista inglês Will Farnaby, que, na verdade, trabalha para um magnata do petróleo. A visão de mundo de Will Farnaby entra em choque com a filosofia dos habitantes da ilha, que procuram viver o presente com seus prazeres e limitações, sem se preocuparem com explicações metafísicas para o sentido da vida. O choque cultural entre os ilhéus e Will Farnaby é acompanhado por um ingrediente adicional na trama: Pala tem um príncipe educado no exterior, que se deixa seduzir pela ideia de “modernizar” a ilha com a exploração do petróleo.

É interessante observar, por trás da ideia da não-influência externa e, portanto, de uma suposta "liberdade genuína", a exclusão das visões religiosas de mundo e a ausência do legado cultural da humanidade como espécie. É como se todo o tesouro de conhecimentos, aprendizados, experiências e questionamentos da humanidade simplesmente não valesse nada para os ilhéus pelo simples fato de ser "coisa de fora"; como se não fôssemos todos uma única e mesma humanidade com uma longa estrada já trilhada em comum. Os habitantes de Pala, assim como a sociedade do "Admirável Mundo Novo", também vivem só para o hoje, ainda que por motivos e em contextos diferentes. Cabe questionar, porém, se os palaneses são mesmo "mais livres" que os desumanizados súditos do governo mundial único. Será que a liberdade consiste em não ter referências? Em não fazer parte de uma história humana? Em despreocupar-se do passado e do futuro como se eles não existissem ou em nada nos dissessem respeito?

A partir desta pergunta sobre o que diferencia uma sociedade supostamente livre, como a da ilha, de uma sociedadesupostamente feliz, como a do admirável mundo novo, podemos nos perguntar em quais contextos, como sociedade, nós nos parecemos mais com A Ilha e em quais nos parecemos mais com o Admirável Mundo Novo. E mais importante ainda: podemos nos perguntar se queremos mesmo nos parecer com alguma dessas duas sociedades. 

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