Vou começar fazendo um mea culpa: faz um tempo que a Bíblia que tenho em casa fica mais tempo fechada do que aberta. Ela está ali, no cantinho dela, mas não tem sido aquela minha companheira de todas as horas como já foi em outros momentos.
E talvez você me pergunte: “Mas você não lê a Bíblia?”. Leio, e até bastante. Acompanho as leituras nas celebrações, procuro assistir à Missa todos os dias (na maioria das vezes pela TV, admito) e sigo a liturgia pelo celular. Só que, pensando nisso outro dia, percebi uma diferença importante: uma coisa é a Palavra fazer parte da nossa rotina; outra é parar de verdade diante dela, dentro de casa, com calma e disposição para escutar.
Foi quando olhei para aquela minha Bíblia velhinha, que comprei com o meu primeiro salário (R$ 30, na época!) e me peguei pensando por que ela estava ali, guardada. Será falta de tempo? Será que, na correria, fui deixando esse momento para depois? Ou será que me acostumei a receber a Palavra já acompanhada de uma explicação, seja na homilia do padre, seja nos conteúdos que leio pelo celular?
Talvez alguma dessas perguntas também faça sentido na sua casa.
Convenhamos: hoje é muito fácil ter acesso à Bíblia. Dá para ouvir o Evangelho no fone enquanto voltamos do trabalho, acompanhar a liturgia pelo app, assistir à transmissão da Missa ou receber uma passagem bíblica no grupo da família. São recursos que ajudam, e muito, a manter a Palavra presente no nosso dia.
Mas há uma experiência que continua sendo muito especial: sentar em casa e abrir a Bíblia para ler juntos. É um gesto simples, que pode ganhar ainda mais significado quando lembramos de Nossa Senhora. São Lucas conta que Maria “guardava todas essas coisas, meditando-as no seu coração” (cf. Lc 2,19). Ela não apenas escutava o que Deus realizava em sua vida; procurava compreender e guardar aquilo no coração.
Talvez seja esse o espírito que podemos levar também para a nossa casa. Não é preciso criar um momento elaborado, cheio de regras ou que tome muito tempo. Pode ser uma leitura de dez minutos, uma passagem do Evangelho e alguns instantes de silêncio para perceber o que aquela Palavra tem a nos dizer. Aos poucos, esse contato vai criando familiaridade. E, como acontece em qualquer relação, a proximidade ajuda a conhecer melhor aquilo que antes parecia distante.
Se você percebeu que gostaria de retomar esse hábito, talvez o melhor caminho seja começar de um jeito que realmente caiba na rotina. Se a leitura diária parece difícil neste momento, escolha um dia da semana. Pode ser justamente o domingo, reunindo a família para ler o Evangelho que será proclamado na Missa.
Não é preciso encontrar o horário perfeito. Pode ser antes do almoço, no fim da tarde ou à noite, quando todos estiverem em casa. O importante é que aquele momento deixe de ser uma intenção que fica para depois e se transforme em algo que a família consiga, de fato, realizar.
Depois de uma oração simples, leiam o texto com calma. Não é necessário ter conhecimento teológico, saber explicar cada passagem ou encontrar imediatamente uma aplicação para tudo. Cada pessoa pode simplesmente contar o que mais chamou sua atenção, o que não entendeu ou até aquilo que a fez lembrar de alguma situação que está vivendo.
Aliás, essa pode ser uma das partes mais bonitas da experiência. Uma criança pode perceber no Evangelho um detalhe que passou despercebido pelos adultos. Alguém pode fazer uma pergunta para a qual ninguém tem resposta naquele momento. Eu mesma gosto de marcar a minha Bíblia com canetas coloridas, enquanto sei que outras pessoas preferem não fazer isso. Não existe um único jeito de se aproximar da Palavra.
É aqui que a leitura começa a ganhar outro sentido. Depois de ler o texto, vale perguntar: “O que essa Palavra tem a ver com a nossa vida hoje?”
Pode ser que o Evangelho fale sobre perdão justamente em uma semana em que existe alguma mágoa dentro de casa. Pode trazer uma reflexão sobre partilha quando a família está preocupada com dinheiro. Pode falar sobre confiança em Deus em um período de incerteza. Quando conseguimos fazer essa ligação, a Bíblia deixa de ser apenas um livro que lemos e passa a iluminar aquilo que estamos vivendo.
E isso vale também para quem mora sozinho. A leitura orante não depende de uma casa cheia. Pode acontecer no silêncio do próprio quarto, entre marido e mulher, com um amigo ou até por uma chamada de vídeo com alguém que mora longe. O importante é permitir que a Palavra encontre espaço na vida concreta.
Talvez essa seja a principal lição que tirei dessa minha própria Bíblia fechada: não precisamos esperar a rotina ficar calma para voltar à Palavra. A vida real dificilmente oferece o cenário ideal. Há cansaço depois do trabalho, preocupação com as contas, televisão ligada, cachorro latindo na janela e dias em que a cabeça está tão cheia que até parar cinco minutos parece difícil.
Aqui em casa é assim. Imagino que na sua também exista alguma versão dessa mesma bagunça. Por isso, talvez um primeiro passo simples seja tirar a Bíblia de onde ela está guardada e colocá-la em um lugar em que possa ser vista. Não como um objeto de decoração, mas como um lembrete de que a Palavra de Deus também precisa ter um espaço concreto na nossa rotina.
No meu caso, acho que era exatamente isso que aquela Bíblia estava me lembrando. A Palavra já faz parte da minha vida de muitas maneiras, mas o contato com ela também pode ser mais intencional, mais silencioso e mais próximo. Talvez eu não precise escolher entre a Bíblia física, a Missa, o celular ou os conteúdos que leio. Preciso apenas cuidar para que, no meio de tantas formas de receber a Palavra, eu não deixe de reservar um tempo para simplesmente escutá-la.
Talvez você também esteja vivendo algo parecido. Se for o caso, não precisa esperar uma mudança radical na rotina. Hoje mesmo, você pode abrir a Bíblia no Evangelho do dia, fazer um momento de silêncio e conversar com Deus a partir do que acabou de ler.
No fim, é perceber se temos permitido que a Palavra entre nas conversas, nas escolhas, nos relacionamentos e nas situações que fazem parte da nossa vida.
E esse convite combina especialmente com o tempo que estamos vivendo aqui no Santuário Nacional. “Com Maria, em comunidade, conhecer e praticar a Palavra” é o tema da Novena da Padroeira deste ano. Com Maria, somos chamados a acolher a Palavra, guardá-la no coração e deixar que ela se transforme em atitudes concretas dentro e fora de casa.
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