Por Eduardo Góis Em Jornal Santuário

Recrutamento: desafio de empresas é não se prenderem a conceitos arcaicos

Ano novo muitas vezes é sinônimo de vida nova, de tentar novas experiências, de arriscar, conseguir um novo trabalho, uma promoção para dar uma guinada na vida, isso é sonho de muitos. Mas nem sempre é fácil, e por diversos motivos.

Uma das maiores dificuldades na hora de se conseguir um novo emprego é o preconceito, pois apesar de a sociedade apresentar cada vez mais diversidade entre as pessoas, ainda é muito difícil se conseguir uma colocação, principalmente quando há um olhar carregado de impressões sobre as pessoas que, por exemplo, possuem tatuagens pelo corpo ou uma aparência fora do que é considerado normal, além do preconceito da cor, religião ou sexualidade.

Foto de: Arquivo Pessoal

luiz_gabriel_tiago_foto_arquivo_pessoal

Luiz Gabriel Tiago é diretor da
SGEC Brasil - Sr.Gentileza Educação
Corporativa. No mundo empresarial,
ele é conhecido como "Sr.Gentileza",
e a empresa é a única no país
especializada em "Gentileza no
Trabalho". Tem em sua rotina
ministrar treinamentos, palestras,
envolvendo gestão de pessoas e
equipes, assim como processos de
seleção. Autor dos livros Como driblar
a raiva no trabalho e Gentileza no
Trabalho, pela Editora Ideias & Letras

Para a doutora em psicologia e especialista em gestão de pessoas, Deborah Riggenbach, ainda existem gestores que, ao avaliar os candidatos durante um processo seletivo, dão ênfase à diversidade superficial, ou seja, ao que está visível aos seus olhos, como tatuagens, piercings, cortes e cores de cabelo, sexualidade, raça, modo de se vestir, deficiência, dentre outras características. “Em geral são empresas baseadas em métodos arcaicos de gestão de pessoas, pois, não observam que a diversidade de comportamentos, ideias e hábitos é que alavancam o potencial criativo e competitivo de uma organização”, explica.

De acordo com Deborah, tais aspectos não têm relação direta com a competência profissional. “Em organizações da área da tecnologia e design, têm crescido a valorização de pessoas rotuladas como ‘diferentes’. Sobretudo, um processo seletivo deve ser pautado nas competências necessárias para um cargo, ou seja, no conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes que o cargo exige e que são encontrados nos candidatos. O preconceito no processo seletivo faz com que muitas empresas percam a oportunidade de melhorar o seu potencial de inovação, deixando de contratar verdadeiros talentos”, conta.

Apesar disso, segundo a doutora, toda organização tem o direito de escolher o candidato mais alinhado às características de um cargo, desde que estejam focados os critérios exigidos pela função. “Observo que os preconceitos no processo seletivo decorrem da falta de capacitação dos gestores sobre o que significa uma seleção com foco em competências e técnicas seletivas. Muitos deles acreditam que qualquer pessoa pode selecionar um candidato e que este processo é baseado na intuição e nas primeiras impressões que ele tem de uma pessoa”, ressalta.

A mudança acontecerá

Cada vez mais os gestores têm mudado sua forma de pensar em relação à diversidade de pessoas no trabalho. As novas gerações, que hoje estão assumindo cargos de gestão, não têm, de modo geral, focado a aparência e o preconceito em um processo seletivo, mas sim as competências de cada indivíduo.

Na avaliação de Deborah, organizações da área da tecnologia e com processos voltados à inovação têm contado com todo o tipo de profissional para alavancar os negócios. “Na minha experiência prática, observo que há uma tendência entre os gestores das chamadas geração baby boomers e alguns da geração X de terem dificuldades para aceitar as diferenças. Em algumas regiões com culturas mais tradicionais também pode ser observada tal dificuldade em empregar pessoas que não tenham a aparência física alinhada à cultura da empresa. Ainda que a tendência seja de nos próximos anos a diversidade ser dissolvida, ou seja, que o preconceito seja minimizado, sempre teremos pessoas com dificuldade em aceitar o que é diferente, de acordo com o seu ponto de vista. Assim, torna-se um desafio para os profissionais da área de gestão de pessoas sensibilizar estes profissionais para as tendências das organizações modernas, inovadoras e humanizadas”, detalha.

Dentro desse contexto, a psicóloga aconselha que para evitar discriminação em um processo seletivo, o ideal é que o candidato primeiramente procure empresas com as quais se identifiquem. É interessante que se busque informações sobre a organização com amigos, nas redes sociais e website da empresa, por exemplo.

Foto de: Arquivo Pessoal

dra_deborah_foto_arquivo_pessoal

Dra. Deborah: "Empresas que apresentam algum tipo de
preconceito, são baseadas em métodos arcaicos de gestão
de pessoas, pois, não observam que a diversidade de
comportamentos, ideias e hábitos é que alavancam o
potencial criativo e competitivo de uma organização"

Ela lembra que é importante atentar-se ao Artigo 443-A, previsto na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT): é proibido -  tanto na divulgação de uma vaga, quanto na seleção de um candidato - utilizar práticas discriminatórias cabendo ação indenizatória do candidato contra a empresa. A discriminação fere princípios estabelecidos pela Constituição da República Federativa do Brasil CF/88 que prevê o direito de igualdade no tocante a direitos e deveres individuais e coletivos. 

Especialista em comportamento no trabalho, Luiz Gabriel Tiago, explica que talvez não se trate de preconceito, e sim, estilo ou perfil de um determinado grupo de pessoas. “Geralmente os adeptos de tatuagens, piercings ou alargadores, são profissionais de áreas mais dinâmicas, como, comunicação, marketing ou publicidade e não encontram dificuldades em se colocar no mercado de trabalho. Algumas áreas podem se adequar à essa tendência e rever seus conceitos, mas deve-se levar em consideração que quem lida diretamente com o público tem de estar disposto a ter uma apresentação mais clássica e que não chame tanto a atenção.”

Para ele, é preciso a sociedade reaprender a conviver com o “diferente” e tolerar preferências, porém, o caminho de volta também é importante. “As pessoas que são mais despojadas ao ponto de alargar os lóbulos ou usar um piercing no nariz, por exemplo, devem respeitar aqueles que não curtem o estilo. Ser gentil na nossa sociedade é ter valores e acreditar neles”, finaliza.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0
Reportar erro! Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou
de informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Eduardo Góis, em Jornal Santuário

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.