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O que significa dizer que Jesus “desceu à mansão dos mortos”?

Padre Evaldo César Souza, C.Ss.R, diretoria da Fundação Nossa Senhora Aparecida (FNSA) (TV Aparecida)

Escrito por Pe. Evaldo César de Souza, C.Ss.R. - Jornal Santuário

04 MAR 2022 - 07H00 (Atualizada em 07 MAR 2022 - 11H49)

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“Desceu à mansão dos mortos”: Frase retirada de nossa profissão de fé, o chamado “Credo Apostólico”, a riqueza da teologia e a da doutrina católica foram resumidas nessa manifestação pública e verbal das verdades, nas quais acreditamos e pelas quais construímos nosso relacionamento com Deus. Uma dessas verdades fundamentais da fé é a certeza de que Jesus, após sua morte, desceu ao lugar dos mortos, para redimir aqueles que ali jaziam antes de sua manifestação gloriosa no mundo.

Quando eu era criança, ficava imaginando por que os mortos morariam em uma Mansão, afinal uma casa grande e luxuosa não me parecia o lugar mais adequado para que mortos ficassem hospedados. Minha imaginação era incontrolável. Mais tarde, descobri que a palavra “mansão”, que assumiu o sentido de uma casa enorme e muito chique, na verdade é originária da língua latina, com sentido completamente distinto do uso, hoje, na língua portuguesa.

A palavra “mansão” vem do verbo manere, que quer dizer ficar ou permanecer. Do verbo surgiu a palavra mansio, cujo sentido original é parada, estadia curta em algum lugar, geralmente para passar a noite. O Credo Apostólico busca nesse sentido o modo de exprimir a realidade de Cristo, que desce à Mansão dos Mortos. Jesus, na morte, vai ao encontro dos que esperava, ansiosamente, a restauração plena de sua vida!

Leia MaisPor que Jesus lavou os pés de seus discípulos horas antes de sua morte?Para visualizar com mais clareza essa verdade de fé, é preciso ter em mente o modo como a cultura judaica compreendia a morte antes mesmo de Jesus ter nascido. O povo judeu, reservado o espaço para certos detalhes, acreditava que os mortos iam para um lugar, a morada dos mortos, onde permaneciam isolados dos vivos, aguardando o dia da restauração do Paraíso perdido. Todos iam para um mesmo lugar, ali permaneciam e passavam algum tempo.

O Cristianismo, e sua reflexão teológica, mostra que Jesus redime com sua morte todos os seres humanos, inclusive os que viveram antes do mistério da encarnação. Ao mesmo tempo, a teologia católica prega o “agora” da redenção e nossa inserção em Cristo já no momento da cruz. Então, para compreender os dias de ausência de Jesus, no silêncio de sua morte, e, ao mesmo tempo, entender o resgate dos que morreram antes do evento da Cruz, conclui-se que Jesus, nos dias de sua morte física, misteriosamente resgatou também os que antes dele haviam morrido, ou seja, na morte, ele desce até a mansão dos mortos, ao lugar da estadia dos que morreram e os resgata, para que também eles vislumbrem a grandiosidade da Ressurreição.

Esses três dias de silêncio misterioso, entre a morte e a Ressurreição, foi um tempo de graça dado por Deus aos que ansiavam, de algum modo, a restauração de suas vidas no Senhor. Obviamente, a linguagem é toda simbólica e não consegue exprimir a totalidade do mistério de Deus, que, por amor, não deixa nenhum dos homens esquecidos de sua misericórdia. O certo é que, após sua morte, no silêncio da preparação para a Ressurreição, Jesus seguiu agindo conforme a divindade nele inerente e foi capaz de reunir na esperança toda a humanidade, vivos e mortos. Hoje, nossa fé nos ensina que não temos mais uma mansão de mortos para passar nossa eternidade, mas nos espera sim uma morada eterna, luminosa e radiante, que é o próprio amor de Deus a nos abraçar eternamente!

Escrito por
Padre Evaldo César Souza, C.Ss.R, diretoria da Fundação Nossa Senhora Aparecida (FNSA) (TV Aparecida)
Pe. Evaldo César de Souza, C.Ss.R. - Jornal Santuário

Jornalista e missionário redentorista

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