Por Mariana Mascarenhas - Redação A12 Em Brasil Atualizada em 19 MAR 2019 - 09H28

Como a sucessão de notícias ruins gera a indiferença


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Treze de março de 2019: mais uma data a ser lembrada negativamente pela sociedade brasileira. Nesse dia, não só a maioria dos veículos comunicacionais cobriu, de maneira ininterrupta, mais uma tragédia que assolou o país – o massacre realizado em Suzano (SP), por dois ex-alunos da escola estadual Raul Brasil, cujo rastro deixou dez mortos –, como também, e mais assustadoramente ainda, suas imagens foram divulgadas nas redes, logo após o acontecimento. Estirados sobre poças de sangue, os corpos dos atiradores, que também pereceram em sua tétrica representação, passaram a ser, sem a menor cerimônia, compartilhadas via Whatsapp, sem contar com a infinita quantidade de vezes que as cenas do tiroteio, reproduzidas pela câmera de segurança da escola, foram repetidas.

Convém lembrar que neste ano, e num curto espaço de tempo, outras tragédias também ganharam os holofotes da mídia brasileira: o rompimento da barragem em Brumadinho (MG), o incêndio no CT do Flamengo no Rio de Janeiro (RJ), a morte do jornalista Ricardo Boechat, em São Paulo (SP).

Pode-se perguntar: o que tais acontecimentos têm em comum? De modo especial, sua incessante divulgação pela mídia. Todavia, o que se viu em Suzano se diferencia por um aspecto: exibiu-se, incontáveis vezes, não apenas o resultado da tragédia, mas o exato momento em que os atiradores chegaram à escola e dispararam contra alunos e funcionários, como se tudo não passasse de uma cena de filme de TV.

Afinal, o que essa tragédia teria de diferente? Por que o massacre de Suzano nos deu a impressão de ter sido reproduzido ainda mais que as outas tragédias? Para o pesquisador e especialista em imagens, Prof. Dr. Jack Brandão, trata-se de uma questão de proximidade com as vítimas: “Se partirmos de Brumadinho, cujo cataclismo foi exponencial, perceberemos que a falta de imagens que demonstrassem a dor da maioria daquelas vítimas anônimas teve um impacto menor em relação à consternação que se sentiu pelos garotos do Flamengo; mas o fato de ainda serem desconhecidos minimizou a comoção, como a que foi percebida logo a seguir, pela trágica morte do jornalista Boechat”. Já no caso de Suzano, segundo o pesquisador, embora a maioria dos brasileiros não conheça aqueles que morreram, foi possível visualizar as vítimas sendo executadas. Além disso, como havia crianças entre elas, a comoção acaba sendo ainda maior, já que muitos se colocam no lugar de seus parentes.

Ainda de acordo com Brandão, tal comoção torna-se cada vez mais efêmera, justamente pela repetição das imagens e pela sucessão de seus desdobramentos trágicos. “Se, num primeiro momento, somos sensíveis a elas, no outro já não somos mais. Afinal, a propagação desmedida de notícias e imagens trágicas habituam nosso olhar a elas. Pior que a inércia reflexiva observada frente a imagens de desgraças [...] é o fato de que, se num momento são paralisantes, em outro, são catalisadoras”.

O pesquisador, em sua obra 'Imagem: Reflexo do Mundo e do Homem?', ainda acrescenta que “ao nos depararmos com imagens fortes, estas podem, seguramente, nos anestesiar e nos tornar inertes diante delas; mas que, após o choque inicial, não nos importamos de ver mais e mais; pelo contrário, queremos isso, a ponto de elas não nos atingirem como antes”. Se tomarmos Brumadinho como exemplo, perceberemos que, para se manter o interesse na notícia, somos condicionados a querer outras imagens que nos deem mais elementos, numa compulsão devoradora, a ponto de perdemos o controle.

É, nesse momento, segundo Brandão, que se perde “completamente, a emoção inerte e compassiva que houve naquele primeiro momento de choque. Isso porque somos seres iconotrópicos, ou seja, somos atraídos, compulsivamente, às imagens, como as plantas à luz; e, diante, de sua abundância, tornamo-nos seus devoradores vorazes”.

Na obra, por exemplo, Dr. Jack Brandão traz uma série de fotografias que demonstram como algumas atrocidades do passado já não nos atingem mais, talvez pelo fato de estarmos distantes temporalmente delas. No entanto, como ele ainda ressalta, o excesso imagético proporcionado pela mídia, em nossos dias, faz com que não ajamos dessa maneira apenas com as imagens extemporâneas, mas, de modo especial, com as situações do presente, como foi ressaltado.

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Mariana Mascarenhas (Mariana Mascarenhas)
Mariana Mascarenhas - Redação A12

Mariana da Cruz Mascarenhas é Jornalista e Mestra em Ciências Humanas. Atua como Assessora de Comunicação e como Articulista de Mídias Sociais, economia e cultura.

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