ANO LITÚRGICO A
A palavra: dos ouvidos ao coração!
Como a aurora que jamais falha, assim Deus compara sua vinda até nós. Jamais nos deixa e, entre nós, é “como as primeiras chuvas, como as chuvas tardias que regam o solo”. Vem tentar vencer nossa imensa secura. E secura daquilo que é a vida de Deus, o amor: “o vosso amor é como nuvem pela manhã, como orvalho que logo se desfaz”.
Mas não desiste, é o que sempre espera de nós: “quero amor e não sacrifícios, conhecimento de Deus mais do que holocaustos”. Em sacrifícios e holocaustos, nós lhe ofereceríamos e Ele receberia unicamente o que já é seu: touros ou carneiros, seres que Ele criou e com os quais povoa seu universo.
Sonha que lhe ofertemos unicamente o que Ele não tem, se não lhe dermos, o nosso sim à aliança de amor que fez conosco: “imola a Deus um sacrifício de louvor e cumpre os votos que fizeste ao Altíssimo”.
Jesus vive em plenitude essa divina aliança de amor: fundamentalmente não rejeita nem exclui, mas acolhe em sua mesa “muitos cobradores de impostos e pecadores”, isto é, mais que alimentos e bebidas, partilha com eles seu coração, ideais, sonhos, atitudes.
E a secura como “orvalho que cedo se desfaz”, vivem-na “alguns fariseus” que vomitam tão somente condenação e exclusão pelos que eles têm por pecadores: “Por que vosso Mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?”
E a resposta de Jesus, “viva, eficaz e mais penetrante do que uma espada de dois gumes, (que) penetra até dividir alma e espírito, juntas e medulas” (Hb 4,12), é: “Aqueles que têm” – isto é, julgam ter – “saúde, não precisam de médico, mas sim os doentes... De fato, não vim para chamar os justos” – isto é, os que se julgam tais – “mas os pecadores”.
Os fariseus apenas se têm por “justos”. Mas, na realidade, são “os doentes”, os que mais necessitam de “médico”, pois lhes falta exatamente o que para Deus é saúde, a “misericórdia”: “aprendei o que significa: ‘quero misericórdia e não sacrifício’”. Doença é aquilo de que se mostram cheios: exclusão, rejeição, condenação.
É difícil reconhecer nossa doença (coração que exclui, rejeita, condena)? É difícil aceitar a saúde (misericórdia) que Jesus nos propõe, e viver essa saúde com nosso próximo? Aprendamos com nosso pai Abraão: “contra toda a humana esperança”, firmemo-nos na esperança e na fé, convencidos “de que Deus tem poder para cumprir o que prometeu”. Pode realizar em nós e conosco o que nos propõe: encher-nos de sua própria saúde, a misericórdia!
Pe. Domingos Sávio, C.Ss.R.
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