ANO LITÚRGICO A
A palavra: dos ouvidos ao coração!
Senhor, dai que vos entendamos! Zeloso por vós e vossa aliança, Elias degola os sacerdotes que desviavam o Povo da fé em vós. Após isso, vós vos revelais a ele. Mas não o fazeis no “vento impetuoso e forte”, “no terremoto”, “no fogo” e sim no “murmúrio de uma leve brisa”, a desaprovar aquela fé ardente e vingativa do profeta.
Deus deseja a inteira humanidade em seus caminhos: que descubra o autêntico sentido para sua vida. Mas não força nem exclui ninguém. Está à porta de todos e bate, se lhe ouvem a voz e abrem, aí sim Ele entra (cf. Ap 3,20).
O Evangelho, porém, parece apresentar uma contradição, pois, em Jesus, Deus se mostra numa tempestade. De fato, contradição? De modo algum, pois tempestade em si não é símbolo que o revela. Mas está presente nela para se mostrar sempre superior e vencedor dela.
Na multiplicação dos pães, os discípulos se veem longe, até na contramão, de Jesus. Em seu apego aos próprios bens (“só temos aqui cinco pães e dois peixes”), desculpam-se como incapazes de saciar a fome da multidão, de seu próximo.
Mas, movido de compaixão, é com aqueles mesmos pães e peixes que Jesus sacia a multidão. Se os bens, mais que nossos, são de seu legítimo Dono, o Pai do céu, sempre saciam a todos e ainda sobra muito (“doze cestos cheios”) para novas partilhas.
Assim, Jesus envia os discípulos a navegar para o outro lado do mar, sua inteira travessia da vida. E sua barca se vê “agitada pelas ondas” de um vento contrário: é seu apego aos bens, é o que ainda os separa de Jesus. É a tempestade que Jesus vence.
Do mar é que vem a tempestade, e Jesus vai até eles “andando sobre o mar”, dominando a tempestade com que eles se apavoram, pensando tratar-se de um fantasma, de uma ilusão. Mas Jesus os tranquiliza: “Coragem! Sou eu. Não tenhais medo!” Pedro ainda vacila e diz: “Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre a água”. Jesus consente e “Pedro desceu da barca e começou a andar sobre a água, em direção a Jesus”. Pode sim vencer aquela tempestade do coração. Mas, ao sentir o vento, Pedro tem medo e “começando a afundar, grita, “Senhor, salva-me!” Jesus o segura e o censura: “Homem fraco na fé, por que duvidaste?” Ao subirem no barco, “o vento se acalmou”, e todos do barco prostram-se diante de Jesus e professam: “Verdadeiramente, tu és o Filho de Deus!”
Como Filho de Deus, como Deus, e presente nas tempestades da vida, não temos por que duvidar e temer um naufrágio. Temos tudo para chegar ilesos ao “outro lado do mar”.
Pe. Domingos Sávio, C.Ss.R.
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