ANO LITÚRGICO A
A palavra: dos ouvidos ao coração!
Se, como Jeremias, nos sentíssemos irresistivelmente seduzidos por Deus; se tivéssemos sede dele e só nele nos saciássemos “como terra sedenta e sem água”; se, como Jesus, que, sentindo a angústia mortal da missão, nem sequer imaginou romper com Deus, “Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, que vossa vontade seja feita!” (Mt 26,42). Não pensaríamos como Pedro “as coisas dos homens”, mas “as coisas de Deus”. “As coisas de Deus” são o coração de Deus, as atitudes divinas que Jesus assumiu implantar no coração da humanidade. É renunciar a si mesmo e tomar a cruz como único projeto de vida, pois Deus é amor, ou seja, o coração de cada uma das três Pessoas plenifica-se no ser e existir, não para si, mas para os dois outros.
Jerusalém era a capital do Povo e, dominada pela elite religiosa – anciãos, sumos sacerdotes e mestres da Lei – que nada tinha de divino, mas se apresentava como agindo em nome de Deus. Assim, Jesus se via no dever de ir até lá e, a que preço fosse, desmascarar aquela religião e, consequentemente, o projeto político-social que tentavam implantar.
A exata contramão das “coisas de Deus”: nem imaginar renunciar a si mesmo, assumir a cruz-amor-serviço, o perder, gastar, viver a vida pelo outro, mas buscar o próprio proveito sem o mínimo escrúpulo.
E são “as coisas de Deus” que aquelas autoridades, entregando Jesus ao poder romano, buscam apagar para sempre, crucificando-as com Ele na cruz. Mas o Pai mostra-se acima de todo possível poder, ressuscita Jesus e garante que essa é a vida que aprova na terra, a qual sempre coroará com pleno êxito. Ter o mundo inteiro, mas sem aquele divino projeto, é buscar o nada, é de fato perder a vida.
Experiência plena em Jesus, mas já vivida por Jeremias, que sente na missão profética uma “fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro”. Vem-lhe a tentação de esquecer a missão e de não mais falar em nome de Deus. Mas sente dentro de si “um fogo ardente” a penetrar-lhe “o corpo todo” e retoma e leva até o fim a missão que recebera.
São Paulo lembra que mais que sangue de animais, Deus espera “um sacrifício vivo, santo e agradável”, a oferta de nós mesmos, nosso “culto espiritual”. Que não nos conformemos com o mundo, com “as coisas dos homens”, mas nos transformemos, renovando nossa maneira de pensar e julgar, assumamos “as coisas de Deus” no seguimento sempre mais estreito de Jesus: “Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz” e vamos juntos até o fim.
Pe. Domingos Sávio, C.Ss.R.
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