ANO LITÚRGICO A
A palavra: dos ouvidos ao coração!
Deus nos lembra que seus pensamentos e caminhos estão tão acima dos nossos “quanto está o céu acima da terra”. Mas propõe-nos que deixemos a impiedade, voltemo-nos para Ele, assumamos seus caminhos. A Igreja nos recorda que Ele resumiu “toda a sagrada lei” no amor a Ele e ao próximo, caminho que nos leva à vida eterna plena.
E Jesus mostra o quanto, de fato, nosso coração é diferente do coração do Pai. A começar, Ele não aceita que alguém esteja fora de sua “vinha”, desocupado, não contratado, excluído. E sai, Ele mesmo, a contratar, seja a que hora for, enquanto houver tempo para isso: “de madrugada”, às nove horas, ao meio-dia, às três da tarde e até às cinco. Com os da madrugada, combina “uma moeda de prata por dia”, e com todos os contratados, o que fosse justo.
Eis outro jeito seu: na hora do acerto, Ele quer que comece com os últimos contratados, e que todos recebam a diária, isto é, uma moeda de prata, a quantia justa que fora combinada. E eis nossas gritantes e mesquinhas diferenças: os primeiros contratados revoltam-se porque os demais estavam sendo igualados a eles, os únicos a suportarem “o cansaço e o calor o dia inteiro”, os únicos que se viam merecedores de paga. Egoísmo altamente excludente!
Esses descontentes poderiam ser os judeus, o vocacionado Povo de Deus, desde o início contratado, diante de outros povos, e, sobretudo, dos cristãos, contratados só a partir de Jesus. Sentiam-se grandes e em uma grandeza que queriam só para si, excluindo os demais.
Eis a diferença divina fundamental: “Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti”. Por mais que alguém trabalhe, ninguém é pago, porque não tem com que comprar essa participação na “vinha”. Nada temos a exigir de Deus.
Depois de termos feito tudo, não passamos de servos inúteis, é por graça que somos salvos (cf. Ef 2,8). Deus nos dá a salvação. É o direito de que Ele não abre mão: poder fazer o que quiser do que é seu. Ser sempre gratuito no amor que nos dedica e sem acepção de pessoas. Dar a todos o que mais anseia que seja nosso: participar de sua “vinha”, de sua vida divina aqui, e plenamente a partir de um dia com Ele no céu: “Serei seu Deus para sempre... a salvação do povo sou eu!”.
Paulo fala de Jesus, mas certamente não excluiria o Pai: para ele, o viver era de tal modo o Cristo e o Pai, que experimentá-los era indiferente na vida ou na morte: ter a Eles era tudo, na vida ou na morte. Nada lhe faltaria. Que essa possa ser a experiência também sua e minha. Amém.
Pe. Domingos Sávio da Silva, C.Ss.R.
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