Por Pe. César Moreira, C.Ss.R. Em Igreja

Entrevista: ‘Como nasce um escritor?’

Embora eu já esteja com bom tempo na estrada da vida e goste de livros, eu nunca tinha participado da inauguração de uma biblioteca. Fiz a experiência ao preparar e realizar a abertura da nossa "Caixa de Livros", como é a tradução ao pé da letra da palavra grega "biblio (livro) teke (caixa). Foi uma festa bonita que não reuniu apenas intelectuais.

Também estavam presentes pessoas mais ou menos convictas das vantagens da leitura e até crianças e adolescentes que participaram de encenações sobre o tema. Uma dessas foi tirada de Monteiro Lobato e mostrava a formação de palavras e de frases até chegar ao livro e à literatura.

Aproveitando a alegria de oferecer livros para quem passar a frequentar a biblioteca do nosso Centro de Assistência Social, inaugurada no dia da Língua Portuguesa, 10 de junho de 2015, entrevistamos um autor de apenas 22 anos que teve o seu livro apresentado. Ele chama Victor Montenegro. Seu primeiro livro publicado é "Inimigos do Estado - O sequestro da rua Ávila" que está na nova biblioteca. E você pode ler. Sinto que estamos diante de um futuro bom escritor.

livros

Padre César Moreira: Victor, por que um livro tão cedo? Ou faz tempo que escreve? Como começou? Que o motiva a escrever?

Victor Montenegro: Bem, o livro foi uma fuga para mim, quase como um diário. Comecei a escrevê-lo aos 15 anos, durante o ensino médio em 2009, por meio de um sonho com amigos e pessoas queridas, como o Max, a Fernanda e o Andrey. Eu não sabia exatamente o que seguir, o que ser, qual área desejada. Este sonho foi tão real...! Eu senti a necessidade - e a obrigação - de transcrever o ocorrido. Como eu não era tão bom com o português, baseei-me em um livro australiano, do autor John Marsden, denominado "Amanhã, quando a guerra começou", um livro sobre guerra e jovens do campo.

Eu queria expressar todos os meus sentimentos, o que eu podia e não podia, o que eu muito queria, até uma melhor amizade com o Max Godoy. A minha maior inspiração foram meus amigos, eles me davam forças para acreditar que eu podia narrar uma história sem mesmo saber como narrar e como levar a diante. A cada livro eu modifico minha inspiração, sem deixar a maior delas: o amor. Como a história ganha corpo - com minha alma já embutida - cada volume precisa de um motivo para chegar ao papel, a vida das personagens modificam e eu não posso parar no tempo preso com um único meio inspirador.

Padre César Moreira: Do que trata seu primeiro livro? Qual o gênero literário? Por que alguém o deverá ler?

Victor Montenegro: Minha obra reflete um pouco da minha vida e o meio à minha volta. Esse é o ponto-chave. O primeiro volume aborda uma questão vivencial e espiritual, sobre o valor da amizade e as perdas/tristezas que sofremos em nossas vidas; qualquer um pode se identificar com ele, é simples, é direto é íntimo do leitor. A trama se passa em uma cidadezinha do interior paulista chamada Village. Nela, moram seis jovens amigos do terceiro ano colegial que se encontram para o último ano letivo, dentre eles, Victor, Max, Fernanda, Danniela, Bruna e Andrey.

Após férias ruins, o jovem protagonista Victor Bragança, que conta a história através de seu diário e que possui o dom da sensitividade, se reúne com seus amigos e pressente algo de muito ruim, algo tenebroso, mas, acreditando na força dos amigos, dispersa a ideia. Logo, a escola é vítima de um grande sequestro e Victor se vê envolvido em todas as artimanhas do inimigo, o arrogante e perverso Oliveira.

O rapaz tenta a todos os esforços salvar seus amigos do perigo dentro do prédio. Ele tem que escolher entre derrotar o inimigo ou resgatar e libertar quem mais ama. Identifico muitos gêneros nesta primeira obra, como Infanto-Juvenil, Romance Policial, Romance Espírita e Drama.

Acredito que quem goste de ler, de se entreter em novas histórias vai se interessar. Indico a obra a todas as pessoas, principalmente àqueles que tem fé em algo maior, àqueles que acreditam no poder da amizade assim como eu, àqueles que lutam contra pessoas ruins e sempre tentam ver o lado bom da força, e também àqueles que se sentem fracos e tristes, para que recuperem suas forças e sintam o poder imenso que possuem dentro de seus corações. 

Padre César Moreira: É difícil escrever um livro? Quais as dificuldades? Dá muito trabalho? Qual a parte mais difícil?

Victor Montenegro: Todo início é cheio de desafios, se não, não teria sentido. É trabalhoso demais começar do zero, mas o mais difícil é manter, porque necessita-se de muita criatividade e intenção para levar adiante a vida das personagens, para não deixar um assunto acabar e para não perder a sequência dos fatos.

Eu costumo dizer que criei filhos, que criei um universo paralelo rs. É um trabalho pessoal, como um artesanato, e fazer os processos de criação e de divulgação sozinho é complicado, pois estamos em uma sociedade tecnológica e pouco se interessa em criar hábitos de leituras. Buscar uma editora é o processo mais cansativo, pois há milhares de pessoas concorrendo por uma ideologia de uma empresa específica.

Padre César Moreira: Qual o processo para se escrever o livro? Como começar? Dá para saber se será bem aceito e terá muitos leitores?

Victor Montenegro: O mais importante que tem que ser fixado na mente é: não desistir jamais. Eu comecei a escrever como um diário, para ficar para mim, eu não cogitava a ideia de ser escritor. Escrevo em um caderno para atas, pois a inspiração flui mais corrida e direta quando pego caneta e papel, há muita magia neste processo para ser quebrada - particularmente - por uma máquina.

Cada um que queira desenvolver sua história tem que saber qual o meio mais atrativo, folha, computador, cadernos de anotação, diários. Deve-se sentir em um ambiente confortável, relaxado, sentado de maneira mais prazerosa possível e esquecer de celular e apetrechos externos que vão tirar a concentração; será a pessoa e só. Pensar em coisas boas facilita o processo de interação indivíduo-narrativa.

A narrativa deve conter as seguintes indagações: por que vou escrever? para mim ou para um público? que público será este? que mensagem quero passar? coloco assuntos pessoais ou abordo temas do cotidiano? Se a história responder a essas perguntas, será certamente um bom começo e então o resto é com ela.

 

O leitor é uma das chaves que nos movimentam, já que escrevemos para eles e por eles, nossa função é essa.

O leitor é uma das chaves que nos movimentam, já que escrevemos para eles e por eles, nossa função é essa. Como todo comércio, há uma fidelização com o "cliente" se a obra estiver bem escrita, se ela satisfaz o próprio narrador, se há uma boa divulgação, o que é mais importante de tudo.

Todo escritor espera ser uma J. K. Rowling rsrs. Espero ter muitas pessoas assíduas pelas aventuras que proponho. No entanto, o sucesso depende do empenho do autor em junção do engajamento publicitário e gráfico da editora. É um fator imprevisível. Espero que eu tenha muita felicidade apenas.

Padre César Moreira: Houve preocupação em se dirigir a um tipo de leitor especificamente? Que reação espera do leitor ao ser seu livro?

Victor Montenegro: Não, não. Foquei em minha autorrealização como ser humano e se eu estava satisfeito com o que escrevia, eu continuava. Só é feliz e realizado aquele que se realiza. Não poderei compreender a cabeça de todos estes leitores, então, basta me compreender para transmitir este sentimento. É uma comunicação misteriosa e um enlace mútuo.

Eu espero que o leitor se surpreenda, se divirta com as trapalhadas de Victor, se comova com os sentimentos dele, se envolva e vá a este universo paralelo ajudá-lo, pois, no decorrer da trama, ele precisará de muitos amigos na batalha final rs.

Quero que o leitor tire lições para sua vida, independente de como está escrito, quero ajudá-lo a olhar diferente para seu meio, para seu interior e sua rotina.

Traduzo o livro em que todos passam por dificuldades inúmeras vezes, o que define quem permanece no chão e quem levanta é sua força de vontade de acreditar, mesmo que os desejos não "batam" com sua Consciência Interior. É um livro que serve de lição para mim mesmo.

Padre César Moreira: Qual sua expectativa de aceitação e saída do seu livro? Ele lhe trará alguma vantagem financeira? Da pra sobreviver de escrever livros?

Victor Montenegro: Espero que eu alcance os mais longínquos horizontes, que estas palavras sinceras alcancem pessoas perto e precisadas de um ombro amigo. Estarei feliz com o reconhecimento pouco a pouco, degrau a degrau.

Curso graduação em jornalismo. Devo admitir que com nenhum dos dois, no começo, dá para ter uma vantagem financeira espetacular que vá mudar minha vida num estalar de dedos; são duas carreiras desgastantes e "sutis" em lucros, mas são de um reconhecimento enorme quando bem empenhados.

Alio as duas carreiras para me estabilizar no futuro, fazer o que amo e o que está mais próximo ao que amo, duas carreiras que levam palavras e informações/conhecimentos às pessoas, colaborando na cultura. Quero sobreviver com as duas profissões rs.

Colunista - Padre César Moreira

Escrito por
Padre Antônio César Moreira Miguel (Arquivo redentorista)
Pe. César Moreira, C.Ss.R.

Sacerdote, jornalista, radialista e escritor com muitos anos de atividade nos meios de comunicação social. Foi diretor geral da Rede Aparecida de Comunicação e fundou a Rede Católica de Rádio, hoje atua na área de assistência social da Província de São Paulo.

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