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Povo negro: entre o racismo, o preconceito e a luta por liberdade

Consciência Negra

Em 20 de novembro de 1695, foi assassinado Zumbi dos Palmares, ícone da resistência do povo negro e da luta pela liberdade. Depois de tantos anos, ainda são muitos negros e negras que permanecem à margem da sociedade, sobretudo do acesso à universidade.

Diante de várias notícias de racismo, homofobia e preconceito, este tema se coloca diante de nós como um clamor. Além dos casos de homofobia, como a morte de João Antônio Donati, cujo corpo foi encontrado em um terreno baldio com um saco de plástico na boca, em Inhumas (GO), e do incêndio criminoso que atingiu o Centro de Tradições Gaúchas, em Santana do Livramento (RS), motivado por um casamento coletivo em que participaria um casal gay, crescem no país as manifestações de racismo e preconceito, até mesmo em jogos de futebol. Sem tanta repercussão na mídia, o caso de uma estudante de engenharia ambiental, no Pará, ameaçada de morte em redes sociais por ser negra, revela que o preconceito está longe de ter um fim. 

Racismo não declarado

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Conforme Douglas Belchior, blogueiro, professor nos cursinhos populares da Uneafro, precisamos fazer a leitura da realidade atual brasileira, considerando que tivemos três quartos da nossa história com escravidão, o que deixou marcas profundas na nossa mentalidade. Trata-se de um racismo estrutural, que se realimenta cotidianamente, pois é reforçado no apoio das elites econômicas, movidas pelos seus privilégios.

A partir do discurso de uma sociedade harmônica e pacífica, articularam-se fórmulas eficazes que geram barreiras para a ascensão social de negras e negros. É o racismo institucionalizado pela imprensa, pelo judiciário, pelo senso comum, pela escola etc. A legitimação simbólica e política desse discurso se dá pela reprodução de que vivemos numa sociedade multicultural e de que o cruzamento racial se deu a partir de bases integradoras. Na realidade, porém, vivemos num país de tamanha iniquidade racial, ao ponto de se passar a responsabilizar os negros pela sua própria exclusão, alegando que, se todos são iguais, com as mesmas oportunidades, os que não “progridem” é porque são preguiçosos e incompetentes.     

Rompendo barreiras

A escravidão de africanos e afrodescendentes no Brasil foi o crime coletivo mais longo praticado nas Américas, e um dos mais hediondos da história. As consequências permanecem bem marcadas. Atualmente, em nossas cidades, 53% dos homicídios têm como vítimas pessoas jovens. Desse contingente, 75% são negros. Na USP, a maior universidade da América Latina, os alunos negros não ultrapassam 2%. Para Douglas Belchior, “como resultado disso, vemos as penitenciárias ocupadas por mais negros, onde o sistema penal elege um grupo social e étnico para ser punido. Assim, a presença excessiva de negros no espaço da punição, da pobreza e da miséria não é tida como racismo. Ao mesmo tempo, a falta de negros nos espaços de privilégio também é vista com naturalidade”.

Nesse contexto, a discussão sobre as políticas de ações afirmativas e as cotas raciais precisam ser pensadas a partir do que representa o racismo na sociedade brasileira. Negros são os mais pobres dentre os pobres. As políticas de caráter universal que ignorem essas diferenças servem somente para realimentar as desigualdades. Além disso, as cotas para os negros são apenas uma parte do pagamento da enorme dívida que o Estado tem com os descendentes dos mais de três milhões de africanos trazidos à força para o Brasil e transformados nos escravos que construíram o país.

O sistema de cotas e a adoção do SISU (Sistema de Seleção Unificada) no lugar do vestibular são importantes vitórias no que diz respeito ao acesso à universidade no Brasil. Há séculos, as elites consideram esse acesso um direito exclusivo daqueles que, por “seu mérito”, conseguem ter bons resultados nas provas do vestibular. Entretanto, as provas não refletem as condições do ensino atual nem conseguem avaliar as capacidades de reflexão dos que tentam acessá-la, servindo apenas como mais um mecanismo que perpetua a exclusão de grande parte da juventude brasileira do ensino superior.

A partir da implantação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), esse quadro está se alterando. Só neste ano foram mais de 9,5 milhões de inscritos, disputando em torno de 800 mil vagas. Ou seja, assim que a juventude percebeu algumas brechas no muro que separa universidade e sociedade, não perdeu tempo e está conquistando seu direito ao ensino superior público. O caminho ainda é longo para romper com o cerco do conservadorismo e dos privilégios, mas a juventude organizada está provando que, com sua luta, a conquista de direitos é uma realidade.

Mundo Jovem - Equipe de redação do jornal Mundo Jovem, Porto Alegre (RS).

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