Por Roberto Girola Em Artigos

A espontaneidade negada pelo olhar do outro

Em tudo que faço, tenho a preocupação de imaginar o que as pessoas possam estar pensando de mim. Já tentei relaxar, mas não consigo deixar de ser assim. (Anônimo)

Já pensou passar o dia inteiro em uma vitrine de loja? É exatamente essa a sensação psíquica que o nosso leitor descreve, lamentando a impossibilidade de “gestos espontâneos” em sua vida, pois o olhar dos outros pesa sobre ele, o tempo todo, impedindo-o de existir livremente.

Infelizmente, esse funcionamento psíquico é mais comum do que se pensa e costuma atrapalhar a vida de muitas pessoas, inibindo a expressão da própria subjetividade diante do outro. É como se alguém tivesse que sair com um amigo chato, no qual pouco confia e tivesse que “introduzi-lo” nos diferentes mundos em que transita. O tempo todo ficaria tenso, para ver se o amigo não está “dando algum fora”.

Infelizmente não tem nada de ameno nessa situação, pois o “amigo” é o próprio eu do sujeito, que se sente inadequado diante daquilo que o outro espera dele. Por trás desse sentimento existe uma “falsa” percepção do inconsciente que cobra do indivíduo estar o tempo todo à altura daquilo que o outro supostamente exige dele. Ao mesmo tempo, ocorre uma distorção em relação à expectativa do outro, que é “exagerada” por uma instância interna que “aumenta” a sua real dimensão, assim como distorce o “lugar” que o outro ocupa no âmbito emocional do próprio sujeito.

Para o inconsciente o outro passa a ser “indispensável” o tempo todo, ocupando um lugar simbólico que não lhe cabe. Seria de fato impossível que ele mostrasse sua aprovação o tempo todo, por meio de um acolhimento incondicional do nosso existir. Se essa pode ser vista como uma fragilidade do eu do sujeito, uma falha de identidade, ela pode também ser percebida pelo inconsciente como uma fragilidade do outro, em relação à ameaça que representa para ele o próprio “existir” do sujeito.

É no processo analítico que essas distorções são aos poucos corrigidas, permitindo novas construções indentitárias, que resultam em um fortalecimento do eu, e uma expansão do sujeito, dentro dos limites que o ambiente pode suportar.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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Por Carolina Alves, em Artigos

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