Por Roberto Girola Em Artigos

A expectativa que o outro mude

Como mostrar para alguém que está sendo egoísta? (Nilton Melo Carvalho – Taubaté – SP)

A relação frequentemente envolve a expectativa de que o outro mude algum aspecto do seu comportamento ou, pior ainda, de sua personalidade. Poderíamos perguntar: por que resolvemos nos relacionar com alguém se, na realidade, gostaríamos de nos relacionar com alguém diferente? Apesar de parecer estranho, a expectativa que o outro corresponda às nossas demandas está ligada a uma tendência profunda do psiquismo.

De certa forma, o mundo externo, incluindo nele o outro, é na maioria das vezes “decepcionante”, seja por ele não ser o que esperávamos, seja por ele não continuar sendo o que imaginávamos que fosse. O dito popular: “A mulher casa com o homem na expectativa que ele mude e o homem casa com a mulher na expectativa que ela não mude” reflete essa tendência paradoxal do psiquismo.

O fato é que o outro nunca vai corresponder completamente às nossas expectativas e, infelizmente, ele pode “mudar”, deixando de ser quem imaginávamos que fosse. Tudo isso parece ser estranho a não ser que compreendamos que, na maioria das vezes, nos relacionamos com alguém que não é real e sim com uma construção representativa do nosso psiquismo. O problema é que essa capacidade da mente “projetar” fora de si o que ela deseja que a realidade seja acaba esbarrando no que a realidade de fato é.

A dificuldade do psiquismo de se relacionar com aquilo que um psicanalista chamava de “objetos objetivos” provém da dificuldade que a mente tem de se distanciar de sua estrutura original, em que somente existem “objetos subjetivos”. O processo de desenvolvimento que se inicia com o nascimento, particularmente intenso nos primeiros 6 meses de vida e que se prorroga na primeira infância, se tudo corre bem, busca se desenvolver na direção da aceitação da frustração que a realidade do mundo externo traz para o nosso mundo interno.

Tudo isso se tudo correr bem, caso contrário a mente se fixa na sua necessidade de “dobrar” o mundo externo às necessidades do mundo interno, fazendo de suas fantasias algo irrenunciável.

Roberto Girola é psicanalista e terapeuta familiar

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